Eduardo Coutinho, 7 de outubro

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26 de março de 2015

O que é um documentário? Como agir diante da história de uma outra pessoa? Woody Allen em Zelig (1983) já questionava o tom de veracidade dado aos documentários. Enquanto contava uma história absurda de alguém que se transformava em outra pessoa, parecida com aquele com quem conversava momentaneamente, inseria fotografias de fatos reais, efeitos de sépia e outros recursos, como entrevistas com pessoas importantes, para o fabrico de uma história ou de uma versão de história. Eduardo Coutinho dizia que documentário é a verdade da filmagem.

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Assistir um documentário de Coutinho é quebrar-se em dois. Assistir a revanche é sair aos pedaços. Ver o às da conversa, da estratégia, da estratagema arguitiva, das táticas da argumentação, da inspiração de confiança no outro, vir para uma entrevista para provar de seu próprio veneno, de braços abertos e pronto para o que der e vier, é de uma inspiração inebriante para a vida.

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Coutinho é considerado um dos documentaristas mais importantes da atualidade, conhecido como o “cineasta dos outros”  tem uma extensa experiência em deixar as pessoas falarem de si. Postulava que a maior necessidade do ser humano é ser escutado, que a escuta legitima o indivíduo e assim ganhava a confiança de seus entrevistados, de tal forma, que eles eram capazes de falar de tudo, sem o menor pudor e expor-se através da emoção de maneira inusitada. Eduardo Coutinho era o homem das conversas, da troca, e procurava no outro, um sentido para a vida. E todas essas premissas estão presentes em Eduardo Coutinho, 7 de outubro um documentário dirigido por Carlos Nader, cujos integrantes da equipe técnica foram os mesmos que trabalhavam com ele (Coutinho) e que tentam fazer com ele,  o  mesmo que ele fazia com seus entrevistados. Tentam ganhar sua confiança, brincam competentemente com Coutinho usando suas técnicas: a mesma distância da câmera, das cadeiras, a proximidade, a sedução e…. conseguem parcialmente.

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Coutinho, o mestre, entrega de bandeja seu processo de trabalho, o que achou de algumas entrevistas que fez em seus documentários, fala sobre alguns entrevistados, escolhidos aleatoriamente, de Santo forte (1999); Babilônia (2000); Edifício Master (2002); Peões (2004); O fim e o princípio (2005); Jogo de cena(2007) e  As canções (2011), e ainda sobre o documentário que é um divisor de águas na sua vida, Cabra marcado para morrer (1964-84).A obra é um mimo que mata a saudade. E nos remete a uma conversa de Coutinho com Jean-Claude Bernadet  para TV-PUC de São Paulo, disponível na web. Tem o mesmo estilo, fala de sua obra, de sua técnica, de sua maneira de ver o entrevistado.

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Carlos Nader só não consegue tirar de Coutinho o que ele conseguia tirar de seus entrevistados, confiança. Coutinho se exime de todas as questões que se refiram à sua vida pessoal. A pergunta : …e a vida e a obra? Paira no ar por várias vezes e não é respondida no seu cerne de questão. Afinal, quem inventou a roda sabe onde ela começa e termina. Mas no bojo, ele disserta sobre o improviso, a rotina, suas estratégias de desarme das pessoas, vê-lo confessar….“eu amo o inacabado, o imperfeito…(…) eu odeio rotina (…) fazendo isso a gente dá sentido a essa coisa sem sentido que é viver (….)”  em close, como fazia com seus entrevistados, dando  acesso ao expectador de  vaguear o olhar, uma última vez sobre Coutinho, sua expressão facial e seu semblante. É um privilégio! … E ainda bem que deu tempo.

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A nota só não é máxima, porque não é toda criatura que consegue superar o criador. Coutinho ganhou de lavada.


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