Debate com a atriz e produtora Leandra Leal e os diretores Bruno Safadi e Ricardo Pretti da Operação Sonia Silk

Operação Sonia Silk aterrissa como uma lufada de ar fresco nos cinemas cariocas

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12 de junho de 2015

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Ao final da projeção dos três filmes que compõem a Operação Sonia Silk, o Estação Net Rio disponibilizou um debate exclusivo com os diretores Bruno Safadi e Ricardo Pretti e sua musa e co-produtora Leandra Leal, exclusivamente para o público espectador. Após explicarem que o projeto nasceu como homenagem ao cinema urgente de produções rápidas e de baixo orçamento coroadas na década de 70 pelas iniciativas de Rogerio Sganzerla e Julio Bressane através da produtora Belair, cujo filme-cult simbólico da época foi “Copacabana Mon Amour”, os cineastas abriram espaço para perguntas, e o Almanaque Virtual estava lá para participar:

AV – Como o desfecho da trilogia, “O Fim de Uma Era”, é um filme principalmente composto de recortes dos outros dois, musicados e narrados em off, como vocês combinaram cada recorte com a trilha, os efeitos de som e as narrações correspondentes para agregar tanto lirismo?

Bruno – Como tínhamos patrocínio do Canal Brasil, e o contrato exigia um prazo curto para entrega de pelo menos dois filmes, mas prevendo a existência de três, nós já havíamos gasto quase toda a verba e o tempo nos dois primeiros que precisavam ir para Festivais. Não sabíamos o que fazer com o terceiro. De início previmos três roteiros mais convencionais, porém não havia sobrado orçamento para filmar um terceiro, nem saberíamos a quem chamar para dirigir, ou onde filmar… Veio daí a ideia de usar momentos naturais dos bastidores dos dois filmes anteriores. Quando tanto artistas quanto equipe técnica não prestasse atenção, descontraídos.

Ricardo Pretti –  Mas não queríamos que fosse apenas um filme sobre os bastidores, sobre o processo de filmar. E sim sobre o amor. Algo que transcendesse e juntasse tudo. Sobre aquelas atrizes que estávamos homenageando, como as atrizes das produções da Belair, afinal, veio de uma personagem de  “Copacabana Mon Amour” o nome do projeto: Sonia Silk.

Nós tínhamos muita pesquisa de músicas e sons que queríamos inserir. E estudamos muitos filmes antigos. Criamos vários textos com base nestas pesquisas. Sempre sobre o amor. E tivemos bem mais tempo para fazer o terceiro filme. Por volta de um ano. Meu irmão o Luiz Pretti que foi o montador e teve muito trabalho para cortar e juntar mais de 50 horas de filmagem. Ele nos perguntava, ‘mas qual o objetivo que tenho de dar na escolha das imagens?’, e respondíamos que queríamos algo mais poético, que ele tinha liberdade para escolher.

Bruno – E veio da Leandra como produtora a ideia de quem fosse ler os textos e cartas durante as narrações em off na voz de gente mais velha, com vivência.

Ricardo – Foi assim que chamamos os artistas da Belair para narrarem as cartas, como Fernando Eiras, Helena Ignez, Maria Gladys e Otávio Terceiro.

AV – Nos 2 primeiros filmes da trilogia, vocês utilizam bastante a trilha e os efeitos sonoros como recurso para expressar o não-dito. Há cenas inclusive onde os personagens aparecem falando, mas não escutamos o quê. Ou mesmo como no “O Rio Nos Pertence” há todo um background e um passado pros personagens que nunca é explicitado, mas presente na carga dramática do que fazem. Vocês chegaram a escrever estes diálogos e passados não-ditos? E sobre as trilhas sonoras, vocês chegaram a filmar os atores com música no set para ajudar nas marcações bastante ritmadas?

Bruno – Realmente cheguei a escrever diálogos sim para todas as cenas em que eles aparecem conversando. Mas como as cenas em si já exprimiam a intenção por trás dos diálogos, não achei necessário repetir. Era a hora de experimentar mesmo. Com baixíssimo orçamento, tínhamos uma liberdade que não existe com grandes patrocínios, os quais inibem os riscos. Não tinha nada a perder. Se não testasse coisas novas agora, não ia dar mais para testar depois. Então fui botando todas as ideias que vinham conforme eu as tinha. Acrescentava coisas ao roteiro quase que diariamente. Tanto que na cena em que o personagem de Jiddu põe a vitrola para tocar, era para ser uma música de Nat King Cole que eu queria muito, mas que acabou nem entrando. Ao invés disso botei aquele som de arranhado da agulha da vitrola tocando o disco. E assim fui acrescentando experimentalismos. Também pretendia que fosse uma música de Caetano no telhado quando os três personagens dançam, e acabamos ganhando músicas escritas especialmente para o filme por Guilherme Vaz.

 

Ricardo – “O Rio Nos Pertence” realmente tem essa pegada mais social. De responsabilidade social e como nos comunicamos com a cidade. Um lugar tão lindo que todos amam e têm uma visão quase turística, mas que esconde as mazelas e coisas que não estão dando certo, todo mundo só quer ver o lado bom. E esta personagem de Leandra sente uma profunda culpa pelo abandono, pois não são personagens literais, são mais alegorias de um caráter mais sociológico. Então os efeitos sonoros tinham que exprimir isso. Há bastante inserção de uma instrumentalização específica do jazz com scat e também a gravação antiga de uma cantora que literalmente urrava na música. São urros de dor. Nós estudamos muito filmes da década de 30 e 40, após o cinema mudo ter ganho som, quando as gravações de áudio se faziam apenas em dois canais, o de voz e o de trilha musical. Quase ninguém naquela época se preocupava ainda em gravar os sons ambientes. Foram poucos que faziam isso, como John Houston. E foi neste estudo que concentramos muitos sons ambientes que gravamos e efeitos sonoros para ajudar a contar a história ao invés de diálogos tradicionais.

 

AV – Como Leandra lidou com os diferentes tempos de gravação na hora de atuar papéis tão diversos em filmes distintos?

 

Leandra – Na verdade os dois primeiros filmes foram gravados simultaneamente. Não chegou a haver gravação no mesmo dia de mais de um filme, mas eles foram intercalados, de tal modo que às vezes um dia era filmado “O Uivo” e no seguinte “O Rio nos Pertence”. Não foi impossível graças à preparação. (Neste momento Leandra pergunta ao diretor Safadi se foi mais ou menos tempo do que a gravação de outro filme que fizeram juntos, “Éden”, no que ele confirma que foram 13 dias para Éden, mas lá ela teve um mês de preparação prévia).

 

Como Leandra além de protagonista também foi produtora da trilogia, complementou sua participação no debate falando mais sobre o orçamento limitado. Explicou que primeiro inscreveram o filme em todas as Leis de Incentivo, inclusive na ANCINE, porém foram rejeitados uma vez que não há previsão de trilogias ou mais de um filme interligado para se pedir verba do governo. Quem de início auxiliou foi o Canal Brasil, que deu a verba inicial atrelando à realização de dois filmes com prazo cerrado que deveriam se inscrever e participar de Festivais, como o de Rotterdam, assim como um terceiro, não atrelado aos prazos. Só depois que o canal Brasil deu uma pequena ampliação da verba e ganhamos alguns prêmios em dinheiro, o que nos permitiu finalizar os filmes com mais calma como os filmes mereciam. Mas eles foram filmados com o baixo orçamento inicial, o que comprova que filmes assim podem e devem ser experimentados sim, pois é real e viável filmar com tão pouco assim.

 

E Bruno complementou que é maravilhoso estarem no circuito aberto, em salas de cinema que podem não ser muitas, mas que estão aí para provar que existe espaço para esse cinema mais experimental. Mesmo que nenhum dos três filmes não tenham conseguido uma sala exclusiva para si em nenhum estado brasileiro onde estão passando, apenas dividindo uma mesma sala, porém já é maravilhoso que sejam levados ao público mesmo desta forma. Agora cabe ao boca a boca dar uma chance de garantir mais semanas de exibição.