17 Quadras

Rretrato continuado no tempo de uma realidade distorcida

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04 de novembro de 2020

Há filmes melancólicos, porém extremamente belos, como o documentário “17 Quadras” de Davy Rothbart, filmando uma família por 20 anos com ajuda dos próprios membros, e perpassando perdas e decepções que simbolizam as agruras da própria sociedade norte-americana.

Um filme extremamente carismático, por um lado, como estudo microscópico de personagens, sendo guiado pela própria subjetividade da respectiva família em foco, que passa até a pegar na câmera e filmar a si mesmos… E, por outro lado, também denso e pesado, pela estudo macro do campo sociopolítico que se descortina em torno das personagens, porém ao mesmo tempo os atravessa, transforma e até mesmo violenta e elimina as possibilidades de suas vidas. É muito difícil rir com a personalidade magnética de algumas destas personagens, segurar em suas mãos e acompanhar suas vidas por 20 anos, e depois ser obrigado a encarar que isto não é um roteiro ficcional e que suas vidas estão em jogo, e que haverá perdas ionestimáveis na vida real daqueles com quem você passa a se importar ao longo da projeção.

Por se tratar de uma residência familiar muito próxima do endereço da Casa Branca em Washington nos EUA, há muitos cruzamentos com os acontecimentos dos tempos que se passam durante o filme. E podemos ver de forma ampliada e sem censura o quanto estas questões possuem muitos pontos cegos. É bastante abismal encarar a discriminação e disparidade de oportunidades e acessibilidade perante a proximidade do endereço mais poderoso norte-americano, residência dos presidentes da nação, ao mesmo tempo que projeta uma sombra opressora e injusta perante aqueles que constroem a base da pirâmide que sustenta este poder, e que estão à sombra do que ele pode prover… Vemos filhos crescerem e virarem pais com seus próprios filhos, e a injustiça permanecer oprimindo as diferenças.

Um filme doloroso que pode soar algumas vezes como se exotificasse um pouco o sofrimento da família retratada. Porém, como eles próprios colocam, especialmente quando passam a fazer parte das filmagens ativamente, dirigindo a câmera também, o filme se torna mais do que um diário, e sim um registro manifesto de suas vidas, que não passarão em vão. Só fica devendo pontos por não ter creditado alguns membros da família mais ativos nas funções executivas que eles acabam exercendo em conjunto com o diretor que assina o projeto como um todo, pois este longa-metragem não existiria sem o coletivo. Da mesma forma, teria sido ainda mais intrigante se reservasse mais momentos para voltar a câmera também para quem filmava (com raras excessões não necessariamente inseridas na dramaturgia da narrativa, só aparições superficiais) — pois isto sim enriqueceria a mise-en-scène com mais contradições e oposições de forças envolvidas no próprio ato de filmar, que às vezes se torna unidimensional.