19° Goiânia Mostra Curtas: Debate sobre Curtas e Festivais

Com a pesquisadora Ana Paula Ladeira, cineastas Cíntia Domit Bittar e Bertrand Lira e o curador Marcus Mello.

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11 de outubro de 2019

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19° Goiânia Mostra Curtas: Debate INCRÍVEL sobre Curtas-Metragens e Festivais com a pesquisadora Ana Paula Ladeira, cineastas Cíntia Domit Bittar e Bertrand Lira e o curador Marcus Mello. Mediação Ivan Melo.

A introdução em vídeo do debate:

Confira drops:

Marcus Mello: O Cenário já foi bom e está péssimo agora. Fundo Municipal de Cultura – Funpro arte — criado no Rio Grande do Sul nos 16 anos de governo do PT era o grande responsável por produção de curtas e que foi inutilizado pelo atual governo tucano (no estilo Dória). Até lançaram um edital, mas que não substitui as ações anteriores.

Marcus aproveita para lançar uma ideia: os Festivais talvez poderiam criar mais longas de curtas, como episódios, o que facilitaria a distribuir de forma alternativa (Marcus pensou nisso com a exibição dos filmes de ontem, como “Marie” de Leo Tabosa e outros curtas que conjugariam bem num longa e facilitariam a circulação). Marcus lembra que isso era muito frequente antigamente, e foi algo um pouco descontinuado, apesar de alguns exemplares como o longa “O Nó do Diabo” que era uma série para a TV e foi lançado como filme.

Filippo Pitanga complementa pedindo apenas para todos não vincularmos o reconhecimento de diretores que fazem curtas-metragens à necessidade de se fazer longas, pois possuem carreiras completas e plenas independente de terem feito longas ou não (como várias realizadoras especialmente de representatividades afirmativas onde se concentram algumas das maiores criatividades com reconhecimento internacional) — Apesar de elogiar a intenção de Marcus em sugerir facilitar a circulação dos filmes. E atentamos também a fazer a observação em dizer que Marcus ao citar “Marie” de Leo Tabosa acertou o fato de Leo já ter mencionado que existe uma leitura em que outros curtas dele poderiam estar contidos num mesmo universo, como o “Nova Iorque” que possuiria a leitura de se encaixar também em “Marie”. E existem outros longas episódicos neste sentido como algumas produções que Cavi Borges da Cavídeo no Rio coproduziu ou codirigiu, como “A Batalha do Passinho” e “Cinco Vezes Favela – Nós Por Nós Mesmos”. Bem como outros longas de outras regiões como o “Fábulas Negras” da produtora de Rodrigo Aragão de Vitória. Filippo aproveitou para pedir para a mesa desenvolver os temas sobre representatividade e censura neste governo, e sobre a necessidade de se exibir mais cinema brasileiro (curtas, inclusive) nas escolas e universidades.

Cíntia responde que a representatividade no Curta e o que se desdobra disso é muito importante para a democratização das 2 vias, tanto em relação aos recursos quanto ao que se desdobra na exibição deles. Vimos muito disso graças aos editais e indutores dentro dos editais (por pessoas negras, indigenas, Trans etc). E edital de acordos regionais de descentralização que ajudavam com aporte, como para cada R$1,00 era posto 4,00 para regiões centrais e 5,00 das regiões descentralizadas. Podia pegar o dinheiro federal para o longa e regional para os curtas, e isso aumentou as possibilidades. O de Pernambuco por exemplo há ia com tópicos pontuados para os pareceristas (questões de gênero, de região, raça etc e ganhavam pontos) — Cíntia foi parecerista em Pernambuco, e ela está levando o modelo para Santa Catarina.

Cíntia lembra também do trabalho de Debora Ivanov com o Edital Carmem Santos voltado para as mulheres — o que gerou debates de diretores homens brancos sobre perder espaço, mas isso não é o que acontece, pois o foco não é neles, e sim na perda de espaço para as mulheres, porque o meio é desigual. Filmes assim que têm essa chance de produção estimula a semente para outras pessoas acreditarem. E isso ajudou muitos curtas realizados por identidades afirmativas.
Em Santa Catarina até houve um edital histórico, de 19 milhões, mas que focou longas e invisibilizou os curtas.

Ivan acrescenta que os fundos setoriais deveriam ser desvinculados da administração federal ou regional — se fossem criar o seu próprio do governo eles até poderiam, mas que não tivessem ingerência nos fundos setoriais independentes.

Cíntia fala que é exatamente essa a democratização, mas mesmo no edital Carmem Santos não foi edital próprio e foi atrelado ao edital geral, ou seja, virou quota.

Sobre preservação, Cíntia acrescenta ao que Marcus falou sobre botar uma obra para preservar num acervo, a necessidade de se fazer um depósito, mas há de se falar também no formato, pois ao longo dos anos muda muito rapidamente o formato e isso teria de ser uniformizado.

Bertrand fala do edital Walfredo Rodrigues (em parceria com Ancine e prefeitura), que ajudou a realizar 12 longas da Primavera do Cinema Paraibano, incluindo o longa de Bertrand “Seu Amor de Volta (mesmo que ele não queira)”, e vai sendo exibido em Festivais como janelas ótimas, mas o edital também exigia a entrega do filme em dvds, que seriam remetidos à difusão, preservação e à exibição em escolas — como Bertrand diz que correspondeu fazendo mais de mil dvds para distribuição. E às vezes pedem a presença dele para exibição em escolas — bem como há filmes seus hoje com mais de 35 mil visualizações no YouTube. E isso tem a ver com os temas também, pois há trabalho seu usado até por nutricionistas, porque fala das propriedades da rapadura (“O Senhor do Engenho”), ou outro filme sobre ex-travesti que virou pastor evangélico… Hoje em dia ser exibido em Festivais é um prêmio também.

Ivan lembra que é um problema também de catalogação. Existe um enorme cinema regional sem cadastro apropriado.

Ana Paula Ladeira se referiu ao kinoforum e porta curtas como um desses cadastros que ainda são úteis para pesquisa sobre curtas.

Cíntia acrescenta que as mulheres (ela inclusa, pelo Coletivo ElaSCine) ocuparam a cinemateca de Santa Catarina para catalogar.

Marcus fala que algumas cinematecas nem isso fazem (muitas vezes por falta total de recursos). E o Canal Curta e Canal Brasil andam fazendo trabalho árduo de digitalizar curtas mais antigos.

Bertrand acrescenta que no Ceará o Wolney Oliveira possui um trabalho muito grande neste sentido de catalogar e preservar com instituições de educação e ensino. Na Paraíba que teve uma produção muito grande de documentários que foram preservados historicamente junto a universidades.

Ana Paula acrescenta, como professora, que as instituições de ensino aqui de Goiânia ainda tentam uma atuação com lugares como o MIS, onde já realizaram mais de 11 Mostras e com as quais eles restauram e preservam o que exibem.

Ivan levanta a provocação de por que não temos cadeiras oficiais nas instituições de ensino voltadas para preservação (é citado que Hernani Heffner curador da cinemateca do MAM RJ é uma dessas pessoas preocupadas em formação de profissionais em restauração e preservação).

Marcus acrescenta que precisamos desburocratizar, e que a própria cinemateca brasileira é muito difícil de se encontrar filmes ou mesmo de se conseguir autorização para exibição (é muito rígido ter de pedir para sobrinho de cineastas falecidos para poder exibir e não conseguir na maioria das vezes).

Marcus lembra que de 2006 a 2013 funcionou a Programadora Brasil pela militante do curta Moema Muller, 295 programas/ dvds, 970 filmes (entre longas, curtas e médias em parceria com a Cinemateca — e Marcus foi júri em um dos anos para a seleção dos programas) que eram distribuídos gratuitamente para alimentar os pontos de cultura. Vários filmes difíceis de achar foram “descobertos” por esse trabalho. E o projeto foi descontinuado em 2013.

Sobre a internacionalização de filmes brasileiros, Ana Paula Ladeira pergunta para Cíntia se a API anda fazendo trabalho neste sentido, como a Brazillian Content.

Cíntia diz que a API é muito recente ainda, fazendo 1 ano, e é formada por 177 produtoras fundadoras em processo de formalização de documentação. Ainda não conseguiram resolver tudo e precisam toda hora lidar com novas bombas deste governo. Conseguiram fazer a manifestação em defesa da existência da Ancine, por exemplo. E a API ajudou com que muitas produtoras falassem entre si quando antes não tinham tanta comunicação, e mais contato com instituições e com o governo. E a preservação dos curtas e crucial para a maioria das produtoras da API. Mas há muitos focos de incêndio para contenção de danos. Em breve irá se abrir para possibilidade de novas produtoras ingressarem.
Em março houve a eleição da diretoria que é colegiada, são 5 diretores/as (de cada estado), além de conselheiros, e está acabando o estatuto sobre as regras e etc. Em breve, dependendo de Cartórios (finalizarem os registros), vão fazer nova chamada pública. A união em entidades é fundamental, e a própria Cíntia diz que sempre se filiou a coletivos e associações, e agora está criando até uma nova em Santa Catarina voltada para as realizadoras mulheres, a ElaSCine.

Ivan fala da evasão principalmente no Rio-SP de pessoas que chegavam depois do curta para entrar apenas quando o filme começasse porque os donos das próprias salas começaram a fazer filmes terríveis para ficar com o valor e esvaziar os outros realizadores de curtas a não competirem por aquelas janelas com eles.

Marcus fala que seu programa “Curta na Tela” que durou 18 anos (16 anos de PT e 2 na ligação PMDB/PDT — e na transição dos cinemas para projetor DCP 2K e não tinha mais projetor 35mm e não tinha mais como exibir os filmes nos formatos que possuíam) tinha uma seleção criteriosa e curadoria para que os curtas tivessem acolhimento de público. E havia campanha de marketing, como criar vinheta para demarcar o momento do curta em separado com o de longas. Até porque não há como o público amar/odiar o que ele desconhece, e por isso é necessário mais cuidado e atenção para apresentar esse mundo dos curtas para as pessoas.

Andrea Cals fala sobre a importância de formação de público desde a infância e que poucas pessoas estão fazendo isso, como Juca Borba do Canal Curta. E o curta-metragem é um caminho maravilhoso para isso.