1917

Contra-ataque à Netflix

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11 de janeiro de 2020

Ontem conferimos o ganhador do Globo de Ouro: “1917” de Sam Mendes (diretor de “Beleza Americana” e “007: Operação Skyfall”) e o filme e os prêmios que já está ganhando são um evidente contra-ataque à Netflix (inclusive pronunciado por seu diretor). Isto retoma a questão: existem alguns filmes que nasceram para ser vistos na telona do cinema?! A Netflix seria uma pedra no caminho disso ou ainda seria uma boa alternativa de democratização de acesso aos filmes?! (SEM SPOILER)

Posso já dizer seguramente que o cenário está se desenhando para “1917” ganhar o Oscar. E parte deste crédito é uma retaliação à Netflix. Isto porque o filme é um evento, sim, assim como “Dunkirk” de Christopher Nola já havia sido, e não levou na época, mas talvez seja a hora certa para eles premiarem “eventos” que tragam as pessoas de volta ao cinema…. Filmes que perdem boa parte da graça na tela pequena.

O “truque” da vez em termos de linguagem como virou moda nos filmes de guerra pra poder revisitar o já visitado com novos olhares (pois “Dunkirk” também tinha seu próprio dispositivo de linguagem no espaço-tempo do filme) é que o filme “finge” ser todo um plano-sequência fake de 2h… Mas ele próprio assume pelo menos 2 cortes, especialmente um que serve de transição temporal do dia para a noite. Mas outros cortes de fato são muito sutis e imperceptíveis para quem não tiver um olhar preparado. E é interessante acompanhar os 2 personagens principais numa jornada aparentemente ininterrupta, pois o fato de a Câmera parecer contínua exige mais das cenas e dos cenários para preencher visualmente uma demanda do nosso olhar, que eles não podem deixar que se cansem já que é um filme praticamente sem cortes.

Um filme intenso, às vezes minimalista (o que é interessante para um filme de guerra), pegando emprestado de elementos da linguagem de gênero, até do terror, em algumas situações claustrofóbicas imersas num chiaroscuro barroco. Outro elemento que valoriza a continuidade das cenas é ‘o silêncio que precede o esporro’, algo de poético não apenas em termos de linguagem, com o uso de lacunas de som e baques surdos, mas também de enquadramentos que se usam do fato de vermos uma ação contínua para surpreender o quadro. Um caos em meio a calmaria — um efeito poético usado em alguns filmes de guerra, porém mais pronunciado no inigualável “Vá e Veja”.

À exceção do supracitado, infelizmente às vezes o filme pode parecer mais uma jornada estilística do que uma real tentativa de exibir estofo e tutano que o pano de fundo do pouco explorado tema da 1a Guerra Mundial implicaria (que perde de lavada para a 2a GM na obsessão de Hollywood, desculpem o trocadilho). O filme da “Mulher-Maravilha” ano retrasado já havia demonstrado essa inesgotabilidade em sua melhor cena, que aliás exemplificava o verdadeiro vilão do filme que a Princesa Amazona Diana enfrentava: a desumanidade (e não aquele canastríssimo Deus Ares da Guerra).

E até há uma crítica à desumanidade em “1917”, ainda mais ante o momento bélico que estamos vivendo historicamente, sob a ameaça de uma terceira Guerra Mundial… Existe sim, ocasionalmente mais pronunciado, esse tom crítico e pacifista, principalmente nas cenas que aludem à estética de “Vá e Veja”, e posso citar, sem spoilers, apenas como referencial de identificação, as cenas com as árvores de cerejeira, que costuram bem o filme, e o show de luzes fantástico numa cena noturna que acontece após o único corte realmente assumido da montagem. — Neste sentido, “1917” é menos nacionalista ou exagerado em demonstrar orgulho pátrio de guerra do que “Dunkirk”, que se auto-exaltava, apesar de seu “truque” de linguagem metafísico de contar a história em 3 tempos e ritmos diferentes, que se cruzavam em determinado momento, superar o dispositivo do plano-sequência de Sam Mendes (ao menos a meu ver), pois Nolan alcançou a melhor montagem imagética e sonora daquele ano!

A jornada do herói do protagonista se resvala um pouco numa premissa superficial de apenas ser um mensageiro de uma carta determinante para o fim da Guerra (além de uma pequena subtrama familiar), o que não necessariamente seria um problema. Afinal, o exercício estilístico fala bastante através de metáforas e alegorias nos vários segmentos e encontros que se constroem numa odisseia épica, quase um road movie de guerra (como o foi “Cold Mountain”, para citar um exemplo imediato na memória, que também assumia explicitamente sua referência na “Odisseia” de Homero)… Esses segmentos não precisam se conectar, nem seus personagens, na teoria, o que poderia até ser mais explorado ciclicamente no dispositivo do plano-sequência, deixando pra trás toda ótima participação especial no elenco que não volta mais após sair da frente do ritmo ininterrupto da câmera (de Benedict Cumberbatch, Colin Firth, Mark Strong, Richard Madden e o surpreendente Andrew Scott, que se autoparodia como referência ao seu papel em “Fleabag”).

Acima de tudo, é George MacKay (de “Capitão Fantástico”) que segura as pontas de fato à frente da câmera, ora humanizando-a nas breves paradas, ora tentando dar credibilidade à ação quando o filme pensa que tem de transformá-lo em quase Rambo (algumas corridinhas meio surreais e tiros que evidentemente só pessoas cegas errariam contra George, já que o corredor que a câmera forma no plano-sequência é praticamente impossível de se errar). Mas independente da motivação rasa (entregar uma carta), e de algumas alegorias muito bonitas sobre o horror da guerra, ainda assim Sam Mendes consegue não parecer leviano e dar o recado pacifista ao final, de que nada daquilo é o verdadeiro valor daquelas pessoas em situações extremas. O que sobra do terror são apenas os retratos familiares e de pessoas amadas que nos humanizam, e para os quais almejamos desesperadamente regressar, deixando os traumas e os piores lados para trás, assim como Odisseu/Ulisses um dia já almejou… e continua almejando ciclicamente em novas histórias, só mudando de nome de tempos em tempos.

Uma sólida experiência coletiva de cinema, destinado para a tela grande da sala escura. Pena que este ano quem realmente merecia vencer o Oscar de melhor longa-metragem fosse “Parasita”, que provavelmente vai perder para “1917”, que nem de longe é o melhor filme de guerra pra ser lembrado deste jeito. Mas quando me lembrar de filmes norte-americanos de guerra da década, ainda vai me vir na cabeça “Dunkirk” primeiro (e olha que nem sou grande fã do filme, apesar de reconhecer sua vanguarda técnica), sem falar que também saiu sem o Oscar de melhor filme, assim como a obra-prima “O Resgate do Soldado Ryan”, o que só empalidece ainda mais a provável futura vitória de “1917”.

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