2.500 Por hora

Espetáculo presta grande homenagem à arte teatral e à alguns de seus principais momentos em dois séculos e meio

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25 de julho de 2015

A princípio nos pareceria inimaginável conseguir contar a história do teatro – seja ela em qual formato fosse – em pouco mais de 1h35m. Entretanto o espetáculo “2.500 Por hora”, apresentado no Teatro Oi Futuro do Flamengo, Rio de Janeiro, consegue alcançar esta incrível proeza. A partir do criativo, e muito bem condensado, texto dos franceses Jaques Livichine e Hervée de Lafond, e da fluida, e precisa, adaptação de Monica Biel; Moacir Chaves na direção, realiza um projeto muito sólido, e emocionante, para os amantes e apreciadores desta caixa mágica, e tablado de madeira, que é o teatro. Conforme ressaltado no texto do espetáculo, estes 2.500 anos suscitaram apenas algumas pequenas transformações, realmente muito menos do que poderiam supor dois milênios e meio de arte teatral. Isso para o bem, e também para o lado menos evoluído da cena. O teatro, em sua essência, é tão simples, como absolutamente complexo, pelas filigranas, pelo refinamento que propõe às nossas almas e por ser a arte do agora, do imediato. “O teatro é a arte do encontro”, como diz um de nossos maiores encenadores mundiais, Peter Brook. Desde o teatro grego – repleto de atores e de coros – até chegarmos as concepções mais minimalistas, e essenciais de Grotowski – Jerzy Grotowski/encenador polonês- chegamos a conclusão que para se fazer teatro bastam apenas duas pessoas: um ator e um espectador. E o ato se dá! Assim, como se deu em “2.500 Por horas”.

2.500 por hora (1) - foto © Guga Melgar 26

Um dos grandes destaques da peça é a interpretação magnética de Julia Marini. Foto © Guga Melgar

O grande mérito do espetáculo de Chaves, concerne justamente no grande respeito, e no lugar de destaque que é dado àquele que é o maior responsável em manter esta arte viva em 2.500 anos: o ator! É claro que o papel do dramaturgo, e do diretor, é de extrema importância no teatro; mas nada se compara a excelência do ator em cima de um tablado. Diante de seu público. Sem os atores, um texto teatral é apenas um texto, e a encenação apenas uma ideia cerebral que jamais se saberia o seu resultado cênico. Lembro-me justamente de uma passagem de Brecht, onde ele declarava que os seus textos, produzidos em seu exílio nos EUA, não podiam ser denominados como teatro, em vistas de que eles ainda não haviam sido encenados; até o seu retorno à Alemanha pós-guerra, no seu Berliner Ensemble. Para contar 2.500 anos de teatro, Chaves valorizou, como ótimo diretor que é, a teatralidade de todo o material dramatúrgico existente. É fascinante podermos ver, diante de nossos olhos, como cada dramaturgo enxergava e escrevia sobre o teatro: Pirandello, Tcheckov, Molière, Feydeau, Eurípides, Shakespeare, Brecht, Beckett, Goethe, Nelson Rodrigues, Martins Penna, e tantos outros. E tão rico como os textos, podemos presenciar a verdade de um ator, a sua entrega para cada uma das personagens interpretadas, em várias fases de mundo, de conceitos, de teorias sobre o ofício do espetáculo e do ator. A cenografia de Sérgio Marimba é expressiva, no que diz respeito às conexões teatrais, onde diversas formas geométricas, transformam-se em todos os ambientes e objetos de uma encenação, onde Chaves explora a quebra da quarta parede, e utiliza-se de diversas configurações com planos baixos, médios e altos. A aparência rudimentar e rústica dos materiais – ferro e madeira cru -, dialogam bem com a ideia de que a base de toda a cenografia teatral é o ferro (aí a nossa homenagem também aos serralheiros) e também a madeira (nossa homenagem também aos cenotécnicos e carpinteiros). A contribuição da música ao vivo, concebida por Miguel Mendes e Tomás Correia, ajuda a ambientar e costurar as cenas, e os múltiplos climas propostos em 2.500 anos de história do teatro. Os figurinos de Inês Salgado são bem funcionais e dão conta de contar as diversas passagens de nosso teatro mundial. A iluminação de Aurélio de Simoni é funcional às cenas.

2.500 por hora (2) - foto © Guga Melgar 24

A ótima direção de Moacir Chaves valoriza a teatralidade no trabalho dos atores. Foto © Guga Melgar

O trabalho dos atores é bastante sólido e consistente, dotado de força, energia, contraceno e grande teatralidade. Todos – Claudio Gabriel, Henrique Juliano, Júlia Marini, Joelson Medeiros e Monica Biel – se saem muito bem nas personagens que interpretam. Destaque especial para o trabalho de Júlia Marini, atriz com grandes dotes expressivos e a linda homenagem que é feita a inúmeros espetáculos históricos do nosso teatro carioca e brasileiro. Espetáculos estes, que são pertencentes apenas a nossa memória pessoal, e que ratificam o teatro como uma arte indelével, única e insubstituível.

2.500 por hora (3) - foto © Guga Melgar 25

A tradução e adaptação do texto de “2.500 Por horas” por Monica Biel é bastante fluida e vigorosa. Foto © Guga Melgar

FICHA TÉCNICA

Autor: Jacques Livchine e Hervée de Lafond

Tradução e Adaptação: Monica Biel

Direção: Moacir Chaves

Elenco: Claudio Gabriel, Henrique Juliano, Júlia Marini, Joelson Medeiros e Monica Biel

Direção Musical e Execução Ao Vivo: Miguel Mendes e Tomás Correia

Figurinos: Inês Salgado

Cenário: Sergio Marimba

Iluminação: Aurélio de Simoni

Boneco e Direção de Manipulação: Marcio Newlands

Fotos: Guga Melgar

Programação Visual: Sandro Melo

Produção Executiva: Jaqueline Roversi

Direção de Produção: Monica Biel

Assessoria de Imprensa: Ney Motta

Realização: BB Produções Artísticas Ltda.

SERVIÇO

Sinopse: Cinco atores e dois músicos contam, de forma humorada, parte da história de 2.500 anos de teatro.

Temporada: De 2 de Julho a 23 de agosto, de quinta a domingo às 20h. Nos dias 30/07 e 20/08 não haverá espetáculo, a reposição será nos dias 05 e 12/08 (quarta-feira), às 20h.

Local: Teatro Oi Futuro Flamengo. Rua Dois de Dezembro 63, Flamengo (tel. 21 3131-3060)

Lotação do teatro: 63 pessoas

Ingressos: R$ 20,00 (inteira)

Classificação indicativa: 12 anos


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