20° Festival do Rio: Primeiro Balanço

Filmes imperdíveis para além dos mais premiados em visibilidade e procura

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04 de novembro de 2018

Que incrível primeiro balanço para começar o 20° Festival do Rio l Rio de Janeiro Int’l Film Festival:

Filmes comentados: “Obscuro Barroco” de Evangelia Kranioti; “Três Estranhos Idênticos” de Tim Ward; “A Camareira” de Lila Avilés; “Culpa” do dinamarquês Gustav Möller

Parece que foi destino perder a chance de ter visto o hipnótico “Obscuro Barroco” de Evangelia Kranioti quando este correspondente que vos escreve esteve em sua estreia no Festival de Berlim, numa coprodução França/Grécia, mas todo passado no Brasil. Isto porque assisti-lo no presente momento histórico de retrocesso político e de direitos, em meio a tantas figuras públicas potentes e com força de resistência que fazem aparições no filme e a quem respeito e admiro um mundo, como Indianare Sophia e Bárbara Aires, é um alívio para a alma e um revitalizante pela democracia. O filme acompanha a narração da saudosa Luana Muniz (1961-2017), deixando este registro póstumo num misto de Documentário, Ensaio e Performance, com extrema sofisticação imagética e construção artisticamente visual de encher os olhos de sonhos. Sonhos estes que preenchem as plateias de maravilhamentos e novas narrativas a partir do ponto de vista da protagonista que desconstrói a heteronormatividade cis imposta pelo mundo. Como seria um filme ou mesmo uma montagem que pudesse priorizar outros olhares, outras expressões? Uma linguagem mais queer, ou mesmo uma linguagem trans? É uma declaração de identidade perpassando momentos históricos recentes de luta e resistência, como as manifestações feministas contra o Golpe das quais pessoas trans e travestis juntaram forças, ou mesmo movimentos sociais exemplares como a Casa Nem… desmistificando um arquétipo social que era associado antigamente apenas ao direito de ser e existir durante o Carnaval (momento também representado e desconstruído no filme). Uma belíssima homenagem à personalidade de Luana. O filme passou na Mostra Panorama em Berlim este ano.

Outro filme incrível e imperdível é o Doc “Três Estranhos Idênticos” de Tim Wardle. Para além do tema verídico fascinante sobre três jovens que descobrem na década de 80 nos EUA serem trigêmeos separados ao nascer, mas que, por trás desta separação, existiriam segredos aterradores de manipulação e controle social, existe também um documentário muito bem dirigido. Com total controle da linguagem cinematográfica, passeamos de início por uma introdução com pegada de comédia, para depois passarmos ao suspense e quase horror psicológico quando vamos descobrindo as reviravoltas sórdidas a que esta história é submetida. Da montagem à trilha, nem um segundo é desperdiçado neste filmaço que lhe faz sair como se tivesse descoberto um lado precioso e ao mesmo tempo apavorante de o quanto nossas vidas podem ser joguetes no tabuleiro maior quando o ser humano tenta brincar de ser Deus. Fiquem atentos para a frieza e calculismo de alguns depoimentos com que o diretor conseguiu desencavar a história.

O longa-metragem mexicano “A Camareira” de Lila Avilés já é desde a maior surpresa inesperada do Festival, que não seja um dos Filmes a chegar já mega premiados ou muito recomendados. Com uma história aparentemente simples, seguindo de forma naturalista a rotina de uma camareira em apart-hotel de luxo, cada nuance e descoberta vão se tornando numa complexa análise psicológica de uma estrutura de classes fechada e aprisionadora. Vamos entendendo os porquês de a personagem se preservar tanto. E, conforme conseguimos acompanhá-la relutantemente em tentar abraçar novas experiências, vamos também descobrindo o tamanho da decepção do risco em desviar de seu caminho. Experiências que lhe agregam valor humano, mas que custam muito mais caro para quem tem tudp a perder a cada instante. De uma sensibilidades ímpar, com extravagâncias esdrúxulas que vão acontecendo aos poucos, a partir do momento em que já estabelecemos uma relação de confiança com a protagonista interpretada de forma magistral por Gabriela Cartol. A cena em que ela menstrua ou quando ela se desafia num joguinho de levar choques são de uma leveza sublime da essência do ser. Mas dois momentos inesquecíveis definitivamente serão a sequência do strip-tease (infelizmente atrapalhada na nossa sala de projeção por um senhor roncando em altos decibéis que provocou uma onda de risos na hora errada), e a da cobertura do hotel, no heliporto, que e quando vemos a câmera sair de dentro daquele prédio claistrofóbico pela primeira vez. São tantas as nuances que saímos desconfiando a própria sombra de cada personagem. Melhor ainda e saber que a cineasta Lila Avilés estreou na direção de longas-metragens com este trabalho e já concorreu a prêmios em Festivais como de Londres e San Sebastián.

“Culpa” do dinamarquês Gustav Möller já havia causado frisson na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, mas tivemos a sorte de repetir no 20° Festival do Rio, e mais sorte ainda o público brasileiro que perder o filme agora, pois ele estreia no circuito comercial em dezembro! Mas nada se compara a assistir com o público super engajado e imersivo dos Festivais especializados de cinema a toda esta finíssa tensão construída na mise-en-scène de “Culpa” sem praticamente sair de um único recinto ou desviar a câmera do protagonista solo Jakob Cedergren. O quão engenhoso é o texto, diálogo e construção dramatúrgica de argumento tão simples quanto acompanhar uma noite de plantão de um telefonista da polícia que repassa chamadas de emergências. Desta sinopse aparentemente rasa, que o cinemão americano já tentou fazer tantas vezes sem sucesso (como em “Chamada de Emergência” e tantos outros fracassos malfadados na pretensão hollywoodiana), quem diria que a sobriedade dinamarquesa conseguiria extrair tantas camadas da surpreendente atuação de Jakob, um personagem ao mesmo tempo mosterioso e trágico por estar dissociado dos eventos que lhe são narrados pela linha telefônica, ao mesmo tempo que impotente e castrado por um segredo de seu passado que irá colocá-lo em xeque. Terá ele chance de redenção? Um jogo de cena que funciona brilhantemente pela existência de dois filmes simultâneos acontecendo: o que está posto na tela, narrado e materializado pela corporalidade na pantomima física de Jakob, como num palco do monólogo que o ator irá nos apresentar. E a narrativa por trás dessa, da qual só ouvimos as vozes no telefone, os mínimos ruídos, as parcas descrições indiretas e a trilha sóbria, mas impecável para abrir a imaginação de nossas mentes.

Filmes IMPERDÍVEIS! Cada qual a seu modo!

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