Reabertura do Teatro Ziembinski

Secretaria Municipal de Cultura devolve à Tijuca o consagrado espaço, idealizado pelo saudoso ator Walmor Chagas

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21 de fevereiro de 2016

Foi reaberto na noite do dia 17 de fevereiro, pela Prefeitura do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura e pelo Secretário Municipal de Cultura Marcelo Calero, o histórico Teatro Ziembinski. Na programação, um simpático coquetel servido pelo Restaurante tijucano Otto e pela excelente apresentação da peça: “A Casa dos Budas Ditosos” com texto de João Ubaldo Ribeiro, direção de Domingos de Oliveira e excepcional atuação de Fernanda Torres. Um grande acerto escolher este belíssimo projeto para reabrir o Zimba. Ele é emblemático em todos os sentidos: a atuação de um grande nome de nosso teatro em palco tão sagrado onde já pisaram Walmor Chagas, Italo Rossi e grandes nomes de nosso teatro. A Tijuca precisava ser revisitada por um grande expoente de nosso teatro nacional, e Fernandinha Torres foi perfeita para este resgate. Além de que ela mesma tem as suas raízes tijucanas – onde foi também sócia do Tijuca Tênis Clube (complementado divertidamente pelo secretário Calero que ele era também sócio, só que do Grajaú Country, pois não tinha condições financeiras de ser sócio do Tijuca), e para finalizar, o mais importante de todos, pela absoluta ousadia em quebrar o paradigma de que a Tijuca é um bairro careta e tradicional, é que é vocacionada a receber peças mais comportadas ou comédias comercias rasteiras.

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Nova fachada do Teatro Ziembinski em cinza, branco e preto

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As paredes internas continuam cobertas por grafites

O Teatro Ziembinski é um belo edifico teatral, e com características raras nos dias de hoje. Ele foi idealizado e concebido por um artista de fato, por um homem verdadeiramente de teatro, que acreditava na força de uma Cia teatral – fundou com Cacilda Becker o TCB (Teatro Cacilda Becker, com sede na Federação Paulista de Futebol) -, e tinha paixão pela encenação de peças brasileiras, pois achava que um ator só seria pleno atuando em sua língua, não em traduções de textos estrangeiros. Um homem que deu os seus primeiros passos no TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), ao lado de grandes nomes e foi casado com uma das maiores atrizes de nosso pais, Cacilda Becker. Walmor estreou no TBC em 1954, atuando na peça “Assassinato a domicílio”, de Frederock Knott com direção de Adolfo Celi. A estreia de Walmor no cinema aconteceu em 1965, quando interpretou o empresário Carlos em São Paulo S/A de Luís Sérgio Person, e contracenou com Eva Wilma. O filme recebeu o Prêmio Cabeza de Palenque na VIII Reseña Mundial de los Festivales Cinematográficos de Acapulco, e a atuação de Walmor recebeu elogios do cineasta espanhol Luis Buñuel. Na televisão, fez inúmeros personagens marcantes como o Afonso da Maia em “Os Maias”, Guilherme Amarante Paes em “Salsa e Merengue” e mais recentemente o Dr. Salvatore em “A Favorita”. Também participou de outras obras importantes na TV como “Avenida Paulista”, “O Pagador de Promessas” e “Mad Maria”. Era viúvo da atriz Cacilda Becker, com quem viveu durante treze anos – até a morte dela, em 1969. A união teve início em 1956, durante os ensaios de “Gata em Teto de Zinco Quente” de Tenesse Williams, sob a direção de Maurice Veneau. O casal deixou uma filha, Clara Becker. O Teatro Ziembinski foi o fruto da venda de três apartamentos, como bem lembou a sua filha Clara, na noite de reabertura.  Foi nesta casa, na Rua Urbano Duarte, 22 – atual Praça Heitor Beltrão s/n -, que Walmor construiu um teatro dos sonhos para um artista idealista. Um teatro que possui uma gigantesca caixa cênica, altamente bem equipada, que somadas são maiores do que a plateia. Um perfil distante do teatro comercial, onde hoje são construídos imensas plateias – onde não temos conforto, e nem espaços para descansar as pernas -, e um palco mínimo, onde coxias e urdimentos são artigos de luxo, e em extinção. Um teatro que se encaixa perfeitamente bem dentro da maior Rede Municipal de Teatros da América Latina, seja pelo seu valor histórico, e também pelo número de poltronas, onde neste caso uma subvenção sempre foi muito bem-vinda. Walmor realizou um sonho ao criar o Zimba na Tijuca, quando pouco falávamos sobre descentralização ou inclusão cultural. Um teatro na Tijuca, em uma cidade em que 90% dos teatros encontravam-se na Zona Sul ou no Centro da Cidade. Nele, Walmor realizou espetáculos de repertório – com autores como Carlos Henrique Escobar, Millôr Fernandes -, peças com atores renomeados – Ítalo Rossi, entre eles -, e vários projetos de formação e fomento ao teatro carioca.

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A ótima Fernanda Torres após a sua impagável atuação em “A Casa dos Budas Ditosos”, espetáculo de reabertura do Teatro Ziembinski

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Clara Becker e Marcelo Calero momentos antes de reinagurar oficialmente o novo Teatro Ziembinski

Durante os últimos 4 anos, vir ao Teatro Ziembinski causava uma dor profunda, ainda mais para mim que tive a frente do Ziembinski em três importantes momentos. O da transição ao primeiro arrendamento – onde eu fui curador de teatro no administração de Regina Sauer e Fernando Filleto, da Cia Nós da Dança-, durante três meses em temporada, e administração do Teatro, com o espetáculo: “Uma História de Boto-Vermelho” – que originou a Cia Boto-Vermelho -, e na Intendência junto com a ASTRAIS (Associação de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro), onde fomos responsáveis, em 2001, pelas grandes transformações estruturais do Teatro. Onde construímos a porta de entrada e bilheteria para a Rua Dr. Satamini e para frente do Metrô. A primeira obra que modificaria para sempre a cara do espaço, junto com a popularização do teatro através da montagem de “Sonho de uma Noite de Verão” de Shakespeare, e com direção geral de Paulo Reis.

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A placa comemorativa inaugurada pelo Secretário Muncipal de Cultura Marcelo Calero, Fernanda Torres e Clara Becker

Fernandinha confraternizando com Amir Hadad e Camila Amado, algumas das personalidades ilustres, presentes

Fernandinha confraternizando com Amir Hadad e Camila Amado, algumas das ilustres personalidades presentes

Ressaltar as ações pontuais e plano de gestão do nosso Secretário de Cultura Marcelo Calero, já virou um hábito, e dos bons. Calero veio para fazer a diferença e é unanimidade em toda a cidade do Rio de Janeiro. Seu olhar, sua percepção e sua escuta faz com projetos prioritários e de ordem maior sejam executados. Mantendo a sua coerência, ele nos entregou o novo Teatro Ziembinski – que custou aos cofres públicos 180 mil reais -, com muita dignidade e tudo funcionando. Cadeiras novas, com ótimos espaços, um ar bem potente – um privilégio nos dias de hoje- , um palco reformulado, banheiros agora individuais -que pela força do hábito me fez entrar junto com um espectador e logo descobrir a diferença- , uma nova fachada em preto, com grafites também em preto e branco. Foi dada a largada ao seu novo projeto de Residência Artística, com a empresa Opsis Soluções Culturais.  Um novo formato, com muito mais verba – 1,6 milhão -, e um conforto para a concretização de um bom trabalho. Entre eles, identificar aquilo que ainda necessita ser reformado e cuidar com preciosismo de nosso bem público. Torcemos para que esta nova Residência seja tão bem realizada como a anterior, a cargo da valente e guerreira Cia Os Ciclomáticos. Tijucanos e cariocas compareçam em peso ao novo Teatro Ziembinski. Eu recomendo com louvor!