2019 e Uma Dica de Filme por Dia: Fahrenheit 451

Farenheit 451

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02 de janeiro de 2019

2019 e Uma Dica de Filme Por Dia concernentes aos tempos que estamos vivendo:

Vamos juntos usar a crítica de cinema para uma reflexão contínua e interligada com a realidade atual, escolhendo filmes para assistir a cada dia de modo a podermos ampliar com senso crítico os acontecimentos que estamos enfrentando hoje. Só assim poderemos nos unir e fazer bom uso do conhecimento abstrato e concreto na vida prática.

Depois de hoje anunciarem o fim do Ministério da Cultura e agora que escolas adotem modelo “cívico-militar”, é mais pertinente do que nunca resgatarmos o livro “Fahrenheit 451” de Ray Bradbury, o qual defende metaforicamente a existência de todos os livros, e que completou 60 anos de vida há poucos anos atrás em 2013. O livro virou um filme homônimo em 1966 dirigido por François Truffaut e estrelando Oskar Werner, Julie Christie, Cyril Cusack, Anton Diffring.

A história se passa num futuro distópico onde é proibido se ler e todos os livros são queimados (daí vem o título do filme “Fahrenheit 451” que é o grau da temperatura necessária para iniciar a combustão que reduza os livros a cinzas), até que uma professora ameaçada de demissão por usar métodos e livros considerados não ortodoxos convence um dos carrascos incendiários de livros a ler o que estava queimando… Algo que parece advindo da Idade Média e da Inquisição que atentou queimar tudo que se acreditassem ser contra a fé cristã europeia-ocidental na época, mas na verdade a trama se passa num futuro hipotético, numa raríssima ficção-científica na filmografia do grande cineasta autoral francês da Nouvelle Vague, François Truffaut. — E por isso mesmo é tão atípico e inestimável de se rever esta obra no quadro maior de sua filmografia.

Em meio a esta ditadura contra o saber, há de se levantar uma resistência que contamine com cultura e reflexão até mesmo quem já houvesse passado pela lavagem cerebral iletrada, pois ler é contagiante e abre portas e janelas no ser humano que jamais deveriam ou poderiam ser fechadas.

Esta foi a primeira produção em cores de Truffaut e a única em língua inglesa, além de contar com atípico orçamento de grande porte por ter sido a primeira produção europeia da Universal Pictures, fato que fez o tamanho da tensão acompanhar o tamanho dos riscos — tanto que os papeis foram cogitados para muitos atores antes de recair sobre os escolhidos definitivos, como as duas personagens femininas interpretadas por Julie Christie terem sido oferecidas a Jean Seberg e Jane Fonda, e o papel de Oskar Werner ter sido oferecido a Charles Aznavour e Jean-Paul Belmondo (os quais ou não podiam por questões de agenda ou foram vetados pelos Estúdios por não saber inglês perfeitamente). Vale ressaltar ainda a incrível direção de arte a proporcionar boa parte da imersão nesta loucura e também deve se destacar que a trilha sonora teve o gabarito de ser composta por Bernard Herrmann, compositor favorito de Alfred Hitchcock, tudo para aumentar o suspense e terror de uma sociedade acuada pela caçada ao conhecimento e o saber.

Num momento que se fala sobre “escola sem partido” e “escola sem gênero”, e se fala sobre censura a livros e autores e à liberdade de expressão, sem falar em algumas publicações e edições ameaçadas de extinção, este filme precisa ser revisto urgentemente à luz do presente para que jamais venhamos a permitir que o conhecimento seja queimado novamente na história.

PS. Vale citar que o filme ganhou uma nova adaptação em 2018 dirigida por Ramin Bahrani e estrelando Michael B. Jordan, produzida pela HBO.

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