2019 e Uma Dica de Filme por Dia: Questões de Gênero

Dica tripla: O Último Verão de Boyita, Tomboy e Mãe Só Há Uma

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04 de janeiro de 2019

2019 e Uma Dica de Filme Por Dia concernente com o momento político do dia:

E hoje não se falou de outra coisa senão “meninas usam rosa e meninos usam azul” pronunciado por Damares Alves como Ministra empossada na nova administração do Coiso. E esta frase, pronunciada por mais uma representante mulher que rouba a cena após a esposa do Coiso ter feito o famigerado discurso em libras a eclipsar outros absurdos que ocorreram em surdina no mesmo dia. E esta tática ilusionista que parece ter sido aprendida com o bom e velho “Mister M” que decodificava truques de mágica antigamente no Fantástico está dando muito certo para o presidente eleito — ele consegue que chamem atenção com um truque de luzes enquanto aprova barbaridades à sombra disso.

Não que a questão de gênero seja apenas uma bomba de efeito…afinal, vamos sentir bem mais à frente quando tentarem de novo aprovar falácias como “escola sem partido” e “escola sem gênero”, mas por enquanto eles estão usando muito mais o efeito destas palavras para por trás disso aprovar prejudiciais num campo material, como retirar a categoria LGBTQI+ da pauta dos direitos humanos.

Portanto, para se debater questões de gênero e como cor alguma, seja rosa ou seja azul pode definir gênero ou mesmo sexualidade, duas searas completamente diferentes de debate, segue abaixo a dica de não um, mas três filmes sobre os mais diversos desdobramentos da polêmica do dia, para educar e iluminar as pobres mentes retrógradas e intolerantes, bem como para mantermos um diálogo não-binário para além do conteúdo como também na forma:

1) “O Último Verão da Boyita”/”El Último Verano de la Boyita” (2009) de Julia Solomonoff é um longa-metragem que jamais estreou oficialmente no Brasil. Uma pena esta pequena jóia raríssima jamais ter conseguido distribuição, mesmo que tenha ganhado a láurea máxima do Festival Cine Ceará em 2010 (feito que a mesma diretora Julia Solomonoff repetiu ao ganhar de novo em 2017 com seu filme mais recente “Ninguém Está Olhando”, coproduzido pela brasileira Taiga Filmes de Lúcia Murat). Sem querer abordar spoilers, o filme trata de questão sensível através do olhar de uma criança, onde uma família criou alguém como pertencendo a gênero com que a criança não se identificava, porque ela nasceu com uma condição genética que para pessoas leigas, a olho nu, parecia enquadrá-la numa afinidade com gênero diverso — passando a vestir e tratar a pessoa de forma oposta à sua escolha por imposição externa e prejudicial de sua família que quer enquadrá-la num padrão imposto — até que a pessoa menstrua pela primeira vez e fica impossível continuar negando a verdade!

2) “Tomboy” (“idem”) é um filme francês de 2011 escrito e dirigido por Céline Sciamma (diretora também de novos clássicos como “Lírios D’água” e “Garotas”), uma especialista em questões de gênero e sexualidade em filmes “coming of age” (desabrochar da adolescência). Neste exemplar, a protagonista se faz identificada voluntariamente como um menino na escola e para as amizades, seja nas roupas ou na atitude, assumindo uma identidade masculina com a qual sempre se identificou, aceita apenas pela irmãzinha menor, que não vê diferença alguma e com quem se relaciona como sempre o fez — continuando a ser a pessoa que ela ama e cuida dela na família.

3) “Mãe Só Há Uma” de Anna Muylaert é um filme brasileiro de 2016, com uma atuação ígnea de Naomi Nero como o filho protagonista da história, e a perfeita duplicação dos personagens das duas mães com que o título do filme brinca, ambas interpretadas de forma ímpar pela mesma atriz: Dani Nefussi. Um filme sobre pertencimento e aceitação onde o protagonista possui sexualidade fluida e se veste muitas vezes com roupas femininas porque assim deseja, mesmo que a princípio se identifique em termos do próprio corpo biológico com o gênero masculino. Ou seja, um jovem cis, que gosta de se vestir de forma fluida e se relaciona tanto com moças quanto com rapazes.

Bônus: E ainda acrescento, ironicamente: “Minha Vida em Cor-de-Rosa” de 1996, dirigido por Alain Berliner, sobre um menino que cresce se vestindo de rosa e roupas femininas.

E “XXY” de Lucia Puenzo com Inés Efron, Martín Piroyansky, Ricardo Darín, Valeria Bertuccelli. Conta a história de Alex, uma pessoa intersex (possui o órgão da vagina e do pênis) de 15 anos e sua relação com a família e o entorno social.

Mais explicadinho impossível. Agora só precisamos colocar a Damares numa cadeira à la “Laranja Mecânica” para que não desgrude os olhos da tela numa sessão em looping ininterrupto.

Crítica completa de “Ninguém Está Olhando”:
http://almanaquevirtual.com.br/ninguem-esta-olhando/

Crítica Completa de “Mãe Só Há Uma”:
http://almanaquevirtual.com.br/mae-so-ha-uma/

Sobre Dicas anteriores:

Dica 1: Sobre perseguição aos professores e à reflexão democrática da diversidade:
http://almanaquevirtual.com.br/2019-e-uma-dica-de-filme-por-dia-o-quadro-negro/

Dica 2: Sobre extinção do Ministério da Cultura e censura:
http://almanaquevirtual.com.br/2019-e-uma-dica-de-filme-por-dia-fahrenheit-451/

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