Mostra Tiradentes SP: Debate com realizadores do filme “Banco Imobiliário”

Miguel Antunes Ramos e Lia Kulakauskas debatem a relevância de "Banco Imobiliário" em tempos de manifestações bipolarizadas e um país cindido

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22 de março de 2016

Debate com o cineasta Miguel Antunes Ramos e Lia Kulakauskas sobre o filme “Banco Imobiliário” exibido na Mostra de Cinema Tiradentes / SP na sexta-feira, dia 18 de março, coincidente com a data das manifestações em nome da democracia e da legalidade nos trâmites político-jurídicos atuais, que lotaram a Av. Paulista e outros lugares no Brasil e até no exterior, apesar de as redes de notícias pouco terem transmitido frente às manifestações polarizadas de domingo retrasado, do dia 13.

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Com muito orgulho, Miguel achou muito interessante e pertinente seu filme ser exibido logo neste dia, com todo seu significado, pois o filmou em 2014, época de outras manifestações, mais violentas, porém não menos cindidas.

Como apontado por um dos curadores da Mostra mediando o debate, Cleber Eduardo, dentro da esfera do documentário “Banco Imobiliário”, que versa sobre incorporação e expansão de investimentos imobiliários nas grandes cidades, há uma relação do espaço urbano com o capital e o poder econômico, o que gera uma verticalização da cidade onde a imagem é manipulada como parte da ocupação pra vender sonhos virtuais em realidade concreta.

Então, Cleber repassa o questionamento para o cineasta Miguel para saber mais sobre a diferença de poder que está na relação do olhar de quem faz o filme e quem está diante da camera:

Miguel: Sim, os efeitos urbanos do mercado imobiliário eram a ideia inicial. Tudo começa com um dado. Aí demos um passo pra frente ao invés de pra trás, ao nos aproximarmos, filmarmos cada parte. O Prédio construído. As casas incorporadas e demolidas. Os corretores. Os incorporadores. A Imagem publicitária… As ideias são pedaços de alguma coisa, só dá pra ver se de longe. Ou seja, ver no pedaço um reflexo do todo. E sentimos isso quando dos enquadramentos e da montagem surge uma ótica do plano pelo corte e pela própria estruturação do plano; uma relação entre as imagens. A parte determinou o olhar. Quase uma frieza clínica pra encontrar na parte algo muito maior do que aquilo. Lia Kulakauskas recebe a palavra para explicar como se deu a montagem do filme para alcançar esta dialética: “Foi 1 ano de montagem, e com medo de ficar em cima do muro.” Há momentos que demonstram o posicionamento dos realizadores do filme, como o corte forte para sair de uma cena de demolição onde casas são destruídas e seguir para uma cena de marketing alienante de venda dos prédios já finalizados com bonecos da Peppa Pig para atrair as famílias com crianças. Como também a cena com o terreno onde moravam 8 famílias e depois o guindaste derrubando casas.

Lia acrescenta que apesar de ter um personagem principal (na figura do corretor Domingos), ele também é panorâmico. Quando eles mostram até mesmo uma árvore no filme, ela também é um prédio. Todas as partes do filme discutem o prédio (a expansão imobiliária-urbana).

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Miguel retoma o debate para lembrar que mostra os cartazes e maquetes dos futuros prédios para mostrar como são falsos mesmo, uma violência mais inteira ao status quo social. O Vídeo 3D das plantas quase na íntegra do que vai ser construído logo no início pode parecer que é real e que endossa o discurso das construtoras, mas precisava ser mostrado, pelo absurdo. A cena da TV que atravessa o quarto quase numa paródia do design de luxo destes apartamentos é mostrada na íntegra até precisar de um corte abrupto, até porque não há uso de *jumping no filme (*pular cenas ou diálogos para só mostrar certas frases e não o todo do que foram os depoimentos na íntegra). Precisava-se crer na duração da imagem (como realizadores e como espectadores). Lis também acrescenta que alguns cortes precisam finalizar diálogos, mas se acreditava na imagem pra deixar a duração falar por si. Cleber pergunta se a escolha da direção ao reproduzir a produção dos incorporadores, caso não fosse a edição ou trilha sonora, se não poderia ser encarado quase como marketing do trabalho deles? De fato Miguel argumenta ter se perguntado muito em usar ou não usar, se pareceria estar fazendo uma crítica ou se pareceria estar aderindo? Mas confiou na montagem e ordem das cenas exprimir um posicionamento ao mesmo tempo em que o espectador tem a liberdade de fazer suas próprias interpretações.

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Cleber pergunta sobre a reação cômica do público ao assistir ao filme, e Miguel e Lia relembram que, desde a primeira exibição na Mostra Tiradentes / MG, ficaram igualmente surpresos em o público receber com tanto humor os depoimentos na tela, o quanto se ri e o quanto se comove. O objetivo não era usar o riso para ridicularizar. Até porque o olhar é mais grave do que isso. Como Tiradentes reagiu com muitos risos, levantou-se a questão se era intencional ou não. Há outros olhares. Há o protagonista Domingos, pois ele gera simpatia no público. Ao final, tem sua própria casa humilde exibida também, gerando identificação com o público, pois ele sofre algumas das mesmas penalizações impostas à sociedade pelo mercado imobiliário voraz que ele representa. Ele atraiu mais carisma de tela para guiar a narrativa, e por isso aos poucos enquanto filmavam perceberam que o protagonista não poderia ser ninguém mais a não ser ele. Lia agrega que o riso tem algo de defesa, de vingança, de reparação. O ridículo é mais construído pela duração das imagens do que pelo corte. Sobre o processo criativo, Miguel denota que não havia muito roteiro nos primórdios da ideia, pois foi pesquisando, foi filmando os corretores, o incorporador, etc…, e montando cada parte conforme ia filmando. Já na relação com personagens, precisou fazer jogo duplo, indicando-se mais favorável a eles do que são.

Aliás, os entrevistados no documentário ainda não assistiram o filme. De fato os realizadores não se incomodariam se o personagem principal que guia a história, Domingos, assistisse. Trabalharam mais o personagem dele mesmo. Mas os outros…

Enfim, diante de todo o exposto, a própria pergunta que o filme faz, “o que é uma cidade?”, é repassada aos realizadores, que respondem que o filme em si é a resposta. (A ocupação da cidade pelo capital  e como o capital atravessa as pessoas. Como o discurso atravessa o sujeito).

Mostra Tiradentes / SP

“Banco Imobiliário” (“Monopoly”)

De Miguel Antunes Ramos e Lia Kulakauskas