Batman Vs Superman: A Origem da Justiça

Para o alto e avante com um filme precioso e autoral.

por

24 de março de 2016

No ápice de sua busca estética, o diretor-autor Zack Snyder surpreende com ‘Batman vs. Superman’, ao construir uma alegoria entre o fliperama e a política sobre o desamparo

Os Melhores do Mundo da DC nas telas: Super-Homem, Mulher-Maravilha e Batman

Os Melhores do Mundo da DC nas telas: Super-Homem, Mulher-Maravilha e Batman

Crise nas infinitas terras da representação do heroísmo: nestes tempos em que as HQs se tornaram o combustível da indústria audiovisual do entretenimento, ofertando à dramaturgia um formato inusitado e renovador (o de saga), a decadência da clássica noção de Bem alimenta Batman vs. Superman: A Origem da Justiça. Lançamento mais esperado deste primeiro trimestre, com um orçamento estimado em US$ 250 milhões, esta pedra fundamental para a Era de Ouro que a DC Comics pretende pavimentar nas salas exibidoras é um espetáculo autoral capaz de redefinir toda a potência imagética do diretor Zack Snyder e reafirmar a busca estética iniciada por ele em Madrugada dos Mortos (2004). Entre a alegoria política e o fliperama, numa narrativa adulta sombria, sem medo de sangue, o longa-metragem faz jus à confiança que os estúdios Warner depositaram sobre os ombros de Ben Affleck ao confiar ao galã o manto do Homem-Morcego. Seu desempenho é irretocável, trazendo um Batman pós-trauma, zangado e sem esperanças, menos existencialista do que o de Christian Bale.

Ben Affleck esbanja maturidade como Bruce Wayne e faz jus a Christian Bale

Ben Affleck esbanja maturidade como Bruce Wayne e faz jus a Christian Bale

Pela primeira vez, em quase 27 anos de permanência do Bat-Sinal nas telas, desde a gestão Tim Burton, o herói é afastado das influências simbólicas de Frank Miller e arquitetado mais sob a influência das HQs da década de 1970, de Denny O’Neil, Neal Adams e Dick Giordano, com uma certa inocência fantasiada de preto. É difícil não falar do Guardião de Gotham City primeiro, não só porque Affleck ofusca Henry Cavill, o protocolar intérprete do Homem de Aço, mas porque o diapasão simbólico do herói criado em 1939 por Bob Kane e Bill Finger reverbera uma quantidade de ondas jamais ultrapassável pelos encantos do último filho de Krypton.

Embora Snyder lute a fim de balancear os dois, Bruce Wayne é mais caudaloso do que Clark Kent e ajuda a marcar o que o roteiro – muitas vezes truncado – tem de melhor: a natureza detetivesca, com camadas e camadas de investigação no rastro de Lex Luthor. Aliás, um Lex Luthor para entrar para a História dos vilões de HQ da telona graças à gincana afetiva à qual Jesse Eisenberg, seu intérprete, aceita se submeter, com algo de Coringa e traços de Donald Trump em seus requebrados histéricos e seu cabelinho esvoaçante. É quase impossível crer que um papel que foi de um ator genial como Gene Hackman (no Superman de 1978 e seus congêneres com Christopher Reeve) possa ficar ainda melhor nas mãos de outro. Eisenberg encarou o desafio e venceu.

Herdeiro de um papel que foi do gênio Gene Hackman, Jesse Eisenberg cria um Lex Luthor histérico, mas grandioso

Herdeiro de um papel que foi do gênio Gene Hackman, Jesse Eisenberg cria um Lex Luthor histérico, mas grandioso, num desempenho que assusta e arrebata

Embora o título não a contemple, a Mulher-Maravilha também tem seu quinhão de brilho neste latifúndio pop, nas curvas da israelense Gal Gadot. Pela primeira vez, a heroína se liberta da aura Village People que ganhou no seriado dos anos 1970 com Lynda Carter e vira, de fato, um ícone do Feminino, com beleza, vigor e inteligência à mostra numa narrativa que explora seus dotes para brigar, sem descuidar de seu dom de pensar, refletir e surpreender. Gadot, no papel da amazona Diana Prince (alter ego da M-M), é um recheio de sabor entre platôs de terra carregada de signos políticos ligados ao desamparo: palavra que serve de bússola ao filme, começando por seus dois protagonistas.

Hans Zimmer dá tons épicos à batalha dos heróis

na trilha sonora, o maestro Hans Zimmer dá tons épicos à batalha dos heróis

Amparado pelos acordes da inspirada trilha sonora de Hans Zimmer, Snyder traça sábia analogia entre o mascarado de Gotham e o filho de Jor-El a partir da desamparada travessia de ambos da infância à vida adulta. Ambos são traumatizados pelo amor familiar: Wayne pela ausência dele, na morte de seus pais; Kent pelo excesso dele, na onipresença fantasma de seu pai terráqueo, vivido com carisma por um grisalho Kevin Costner. A clivagem da segurança no seio da família, ocasionada na vida de ambos por uma tragédia, fazem deles os heróis que são. E, frente a um mundo em desamparo, que anseia por deuses do Alto e rejeita quem vive da Noite, os dois se tornam mais do que nunca necessários, pois a carência de referencial gera Bezerros de Ouro do Poder, quase sempre fundidos por loucos como o Lex de Eisenberg.

Batman-V-Superman-Armored-Batsuit-Costume-Comic-Con.jpg Batman Superman Bruce Wayne 13

Artimanhas do vilão justificam o duelo do título, que funciona mais para fomentar o nascimento da Liga da Justiça, os Vingadores da DC Comics, cuja formação é esboçada aqui com citações a heróis da água, do metal e da velocidade. Mas é melhor que o modo como cada um aparece fique em segredo, pois este será o trunfo da sequência já em estudo desta superprodução que, antes de tudo, serve para Snyder provar o autor sólido que é como cineasta. Desde seu cult sobre zumbis, Madrugada…, ele se fez como uma espécie de profeta do niilismo em Hollywood. Seus filmes refutam finais felizes e contestam a soberania da Bondade nas narrativas, pois cada the end filmado por ele carrega em si uma centelha de desesperança, uma percepção de que herói é aquele que precisa ser imolado, o Cordeiro de Deus a sangra pelo pecado do Homem.

20140128-batman-vs-superman.jpg Batman

Foi assim em 300 (2007), era esse o destino de Roschach em Watchmen (2009), deu-se o mesmo com as corujas falantes de A Lenda dos Guardiões (2010) e com as cocotas de shortinho no manicômio de Sucker Punch (2011). Nem Kal-El ele livrou de ter de sujar as mãos em Homem de Aço (2013): o bom moço máximo dos gibis foi forçado a matar para nos salvar da fúria de seu algoz Zod. Não por acaso, no meio de Batman Vs. Superman, Kal-El profetiza: “Nem tudo permanece bom!”. Ele tem razão: na América sobre a qual Snyder fala, as virtudes do altruísmo viraram tão irreais e impalpáveis como as histórias em quadrinhos. Não por acaso ele cita, frontalmente, as HQs de John Byrne, o quadinista que desconstruiu o Super-Homem nos anos 1980, humanizando-o na esfera do desejo e da fraqueza moral: mitos existem para serem quebrados e mais tarde refeitos como lendas.

É por isso que (cada vez mais) precisamos delas: para ver o esboço de civilização que nos tornamos e nos distanciar desse rascunho. É hora de arte-final. Não por acaso, na forma, o longa de Snyder é tão bem acabado em seu parque de efeitos especiais, com um realismo que sustenta criaturas apocalípticas e explosões de mísseis no espaço. A fotografia de Larry Fong (da série Lost) vai e vem do realismo, vai e vem do chiaroscuro, vai e vem do onírico, fazendo convergir sonho e fato, perplexidade e abstração. São extremos em comunhão, como o Morcego e o Kryptoniano, juntos num filme que conjuga ação (em coreografias de tirar o fôlego) e razão, na busca por entender o ponto político em que chegamos e aonde vamos. Para o alto e avante!


Warning: Invalid argument supplied for foreach() in /home/almanaquevirtual/www/wp-content/themes/almanaque/single.php on line 52