Debate com David Lloyd, desenhista de ‘V de Vingança’

Aclamado Desenhista fala sobre carreira, política e o futuro com a publicação editorial pela internet

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16 de maio de 2016

Como já virou de praxe, toda semana a Livraria Blooks de Botafogo/RJ está recebendo um lançamento ou um evento acompanhado de debate com convidados ilustres. Dando uma passadinha pelo Brasil para divulgar seu novo trabalho indie na rede, “Aces Weekly”, a livraria Blooks do Rio de Janeiro recebeu desta vez o desenhista britânico David Lloyd, notabilizado por seu trabalho com Alan Moore na clássica “V de Vingança”, não apenas uma das HQs mais relevantes da história como também ainda mais conhecida pela máscara de seu protagonista que anda sendo usada de uns anos para cá por movimentos ativistas ao redor do mundo, como o Anonymous.

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Foto por Kathia Pompeu

Lloyd começou contando sobre seu background. Desenhou muito durante a escola porque amava, mas não era o que pensava fazer. Não o impressionava tanto. A meta era ser um desenhista profissional. Mas começou com algo alcançável sistematicamente, e por isso começou em publicidade, mas quando chegava em casa fazia trabalho em cor, pois era isso que queria. Então teve a sorte de começar a criar personagens pra tiras de jornal e enviou para uma Agência Européia de distribuição, da qual recebeu carta de resposta entusiasmada que lhe deu confiança pra apostar tudo, e após 6 anos em publicidade desistiu do emprego fixo. O problema é que após um mês descobriu que a possibilidade do novo trabalho não era real, e que a carta entusiasmada era exagero. Viu-se desempregado e teve de ganhar a vida com trabalhos que não foram bem sucedidos, percebendo que tinha de se esforçar muito mais para ser um excelente desenhista. Acumulou 2 empregos por 2 anos fazendo letreiro para loja de departamentos e numa carpintaria, preenchendo 3 dias por semana com isso se empenhou no desenho.

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A parte de fama e fortuna não foi fácil. Quando conseguiu oportunidade, recebeu encomenda que deu uma boa amostra de bons trabalhos de arte final em HQs para divulgar seu trabalho. Nessa época no UK não havia muita competição, de modo que com o grande grupo de amostras ele pôde ir para qualquer editor mostrar do que era capaz. E se tornou um artista freelancer de HQs até hoje.

Começou trabalhando para uma divisão da Marvel UK na Inglaterra. Desenhou “Night Raven” vigilante contra o crime na América dos anos 20. Foi assim que Lloyd acabou desenhando “V de Vingança”, porque o editor da época deixou a Marvel UK para criar um personagem semelhante em outro selo independente, e chamaram Lloyd para desenhar e escrever, mas estava trabalhando com um escritor tão bom que teve de chama-lo, ninguém menos que Alan Moore.
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David já trabalhou com grandes escritores além de Moore, como Garth Ennis, Jamie Delano, e até o cara que ensinou tudo o que Alan Moore sabe, Steve Moore, que não é parente do Moore apesar do sobrenome. Steve tem o privilégio de ter ensinado as ferramentas para um dos mais importantes nomes das HQs que é Alan Moore.

Como David já havia passado a noite anterior falando de sua nova ocupação, um coletivo de artistas sob o seu selo de publicação inteiramente digital e independente chamado “Aces Weekly”, o qual só pode assinar online, Lloyd preferiu abrir espaço para perguntas da plateia. Pois hoje ele quer priorizar o que os fãs querem saber de sua carreira:

Quando perguntado sobre o pano de fundo para a criação de “V de Vingança”, Lloyd compõe um cenário onde mais ou menos no começo dos anos 80 as HQs em geral, principalmente americanas, estavam estagnadas. Não havia nada muito interessante além de exceções como Frank Miller em “Cavaleiro das Trevas”, mesmo que até o Miller estivesse fazendo isso para chutar o balde. Na Inglaterra também havia um inconformismo em relação a esta mesma estagnação, que veio do movimento Punk. No Reino Unido tinha um movimento vindo do punk desde 1977, mesmo ano do “Star Wars”. Na 1a revista onde começaram o trabalho de “V de Vingança”, na revista Warrior, já havia um cenário que era parte disso. Tinha a ver com as gerações, cujos companheiros foram criados com televisão e cinema (muitos dos EUA e uma parte mais radical no UK). Em termos de influência e estilo “Agente da Uncle” e “Batman” de 66, “Dirty Harry” com Clint Eastwood, parte de diretores de cinema que estavam radicalizando. Personagens como “Juiz Dredd” tem a mesma atitude de “Dirty Harry”. A maioria dos desenhistas foram influenciados por isso. E no UK ainda tinha herança pesada da Tradição Dramática como Shakespeare, e coisas que chegavam pela TV britânica, muito boa, completamente diferente da dos EUA. Não é culpa dos EUA, mas eles não tinham solo fértil de herança dramatúrgica. Os quadrinistas de lá tinham crescido através de outras HQs e ficaram presos no ciclo de culpa e decadência dos super heróis como se só isso pudesse existir.

Apesar de haver criatividade, não tinham liberdade pra ir além, presos na rotina de séries longas e contínuas com prazos curtos que impediam aprimoramento. Todos que fizeram diferença pros americanos vieram de situação fora do ritmo alucinado típico dos americanos. Quando Lloyd e Moore fizeram “V de Vingança”, seu trabalho consistia só de 6 a 8 páginas numa revista mensal, e tiveram tempo pra pensar e criar.

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Foto por Kathia Pompeu

Perguntado, então, se pudesse escolher só um quadro/imagem pra resumir um trabalho seu, como escolheria?, Lloyd explica que era muito melhor esboçador, ou seja, se ele quisesse evoluir teria que se esforçar pro parâmetro almejado.

Na pergunta seguinte, se há preconceito do mercado americano ou se é só talento ou precisa mesmo do momento certo com pessoas certas?, David Lloyd desenvolve que agora com a tremenda quantidade de competição no mercado americano, é importante conhecer o mercado, pois a vasta maioria não entra mais enviando amostras pelo correio e esperando uma resposta, e sim principalmente conhecendo artistas e pessoas nas Convenções, pois quem se impressiona passa adiante. Infelizmente é assim hoje pelo peso da competição. Malgrado o fato de que passa por cima de amostras excelentes que vão ficar soterradas na pilha. Ironicamente porque as Comics mensais americanas não vendem mais tanto quanto 10 anos atrás, mas o número de pessoas querendo trabalho só aumenta. Agora, se há preconceito? América quer dinheiro, não importa de onde venha ‘quem vende’. Por incrível que pareça há sim mais preconceito é na França contra o que é estrangeiro. Eles se defendem, nacionalistas, como no cinema.

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Perguntado sobre o que ele acha do Mangá japonês, Lloyd diz que não é grande fã na maioria de suas formas, considerando como Background de estilo. Como consideração estética pessoal. Com exceções como “Lobo Solitário”. Mas o interessante no mangá é que estimulou o interesse em HQs na sua invasão da Europa e EUA, inclusive para pessoas que talvez não se atraíssem por HQs antes, inclusive num mercado feminino. Durante décadas as 2 grandes editoras ficavam sendo interpeladas: Por que não têm HQs pra gente (mulheres)? E diziam que aquilo era o que eles faziam. HQs de super heróis. E mangá atraiu muitas mulheres e ainda expandiu mercado de cosplays. Aí a editora DC (de Superman e Batman) acorda e diz: “estamos fazendo isso agora para as garotas”. Isso é típico da indústria das HQs que se prende na constipação econômica e não se expande nem procura novos leitores. Maluquice. Como se fosse vender máquina de lavar pra quem já tem.

Sobre a entrada de artistas novos no cenário francês de HQs, voltando a se falar sobre preconceito com artistas de fora, de fato a França se fechou muito, mas já aceitou estrangeiros, contanto que viessem com um francês na equipe.

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Foto por Kathia Pompeu

Quando perguntado sobre o lado político de “V de Vingança”, Lloyd é assertivo sobre o fato de que não era uma coisa esperada a reação politizada que a HQ tomou, mas não queriam fazer mais uma história de aventura porque ambos eram politizados e queriam usar esses recursos expressivos das HQs para fazer algo.
Havia um braço radical político de direita crescendo, inclusive fascista, no Reino Unido, e Lloyd e Moore queriam fazer frente
Apesar de não haver chance concreta de se tornar fascista, queriam denunciar. Só poderiam fazer porque tiveram liberdade e o selo era Independente e não podiam pagar o que se pagava naquela época, e ainda tiveram a propriedade intelectual do personagem, o que com certeza configurava um caso completamente atípico para a época.

Neste momento, Lloyd se dirige a plateia e diz que: “Se você é um artista, diga de modo que valha a pena ser dito”.

Voltando ao seu mítico personagem de “V de Vingança”, o uso da máscara do protagonista em manifestações políticas no mundo foi bom para mostrar que serviu de fato como a expressão pretendida. Ele soube que foi muito usada no Brasil e ficou orgulhoso.

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Foto por Kathia Pompeu

Perguntado se possui crenças políticas, Lloyd diz que de fato não acredita que seja possível governar com anarquismo, mas Alan acreditava quando escreveram que sim. Mas não sabe se ainda acredita ou não… Mas reconhece que é sim triste não termos autonomia e precisarmos delegar para líderes que não nos representam.

Como artistas, foram influenciados por “1984”, “Admirável Mundo Novo”, claro, e shows de tv, como The Prisoner/O Prisioneiro. Grandes influências.

De fato considera “V de Vingança” o melhor trabalho de sua carreira pelo alcance e influência na vida das pessoas. Do mesmo modo, um cineasta, por exemplo, é mais conhecido pelo filme que teve mais impacto em mais pessoas. Lloyd pôde até citar um caso específico que lhe aconteceu, pois estava há um mês em evento de HQs na Tailândia e lhe disseram lá que “V de Vingança” havia mudado a vida de um fã. Guardadas as devidas proporções, Lloyd também crê que outra de suas melhores obras seja também “A Horrorista” que realizou com Jamie Delano (o qual versava a história sobre vingança do 3o mundo contra os colonialistas do 1o mundo). Tudo tem a ver com o conteúdo e seu impacto nas pessoas. No cenário atual a tragédia que vivemos hoje é repetir os mesmos erros de 20/30 anos atrás. Então se você começa a contar histórias, elas acabam falando dos mesmos erros humanos: Imperialismo, estupidez… Um perfeito exemplo disso é como a Depressão nos anos 20/30 se repetiu como num ciclo em 2008, quebrando bancos num efeito em cadeia.

Indagado agora se mudaria algo na obra de “V de Vingança”, ele responde que no máximo nas primeiras páginas dos trabalhos mais antigos, mas não mudaria mais nada. São trabalhos já acabados.
Para os iniciantes a narrativa é um exercício técnico. Mas desenhe da forma melhor que consiga de modo humano. Lloyd explica que se você desenha realmente bem, isso lhe dá todas as técnicas. Ser capaz de contar uma boa história é só metade. Não temos de ser cronistas do que está acontecendo e sim do que poderia estar acontecendo. Não sei se aprendemos algo só em dizer o que está acontecendo e sim com o que poderia ser. Na época que escreveu “V de Vingança”, por exemplo, Lloyd e Moore não sabiam quais de fato seriam os efeitos de uma guerra nuclear, cujo efeito seria a extinção da raça humana. Não queriam falar de nenhuma guerra em particular.

Lloyd cresceu com Quarteto Fantástico e Homem-Aranha, mas não deseja desenhá-los agora. Sim, ele amou o que o Jack Kirby fez com Nick Fury, e até chegou a oferecer à Marvel uma proposta para um trabalho, mas não vingou. Explica ainda que é amaldiçoado por ser perfeccionista. Muitas das coisas que pessoas acham maravilhosas ele acha esteticamente horríveis. Em mangá, por exemplo, há coisas especificamente que não o agradam. Mas Há muitos HQs de que gosta.

Na pergunta seguinte, foi indagado de quais escritores foram um desafio para desenhar e o que isso difere de se escrever a sua própria história? No que David corresponde que quem lhe ofereceu o maior desafio, não intencional, foi Garth Ennis. Isto porque eram temas muito sérios sobre guerras muito realistas. Precisava ser muito preciso partes técnicas. Já o mais fácil foi Jamie Delano, porque trabalhou mais o método Marvel, que é discutir as noções gerais, mas quem decidia a diagramação era ele próprio. Com certeza, a melhor forma de decidir a quantidade de informação na página, diz Lloyd. A mesma coisa foi seu trabalho com Alan, oposto ao mito de que ele trabalha com roteiros muito detalhados. Até porque trabalharam por muito tempo juntos e periodicamente, e pedia para Alan não escrever demais. Mas eventualmente Alan começou a escrever demais mesmo, só que não mais trabalhando com Lloyd.

Quando Lloyd teve em seu passado que trabalhar em lojas, não utilizou o tempo pra fazer faculdade de Belas Artes porque aquela classe trabalhadora não tinha muito investimento acadêmico e perdeu os prazos. Até fez estágio com profissionais de Belas Artes, mas mandavam apenas ele servir café. Acabou sendo mais autodidata.

Como Lloyd aborda seu trabalho? De forma diferenciada pra cada trabalho. E há também a parte editorial que sabe o que quer, e às vezes pede os mesmos artistas que sabem fazer terror ou comédia ou etc… o que pode até ser a morte de um artista. Mas pode ser uma boa morte. De se reinventar e não se deixar prender.

Perguntado se haveria outra obra que Lloyd gostaria de ver adaptada para os cinemas, ele responde que com certeza gostaria de ver “Kickback” como filme. Até há alguém escrevendo um roteiro, mas sem contrato ainda.

Hoje Lloyd crê em um formato de HQ completamente pela web. Uma mistura de HQs, seriados, histórias curtas… A cada semana o leitor que assina um coletivo artístico pela rede recebe uma parte. Em 7 semanas completa um arco. Fácil de editar e publicar. Melhor, mais fácil e mais trabalhada/completa e rica de colaborações forma atual de se publicar o seu trabalho, afirma Lloyd. Porque corta muitos custos e consegue investir mais na qualidade. A pessoa pagaria uns seis dólares por 30 páginas por semana.
Visual ótimo, alcance global, com criadores/colaboradores internacionais, inclusive brasileiros. Até inovação de espaço. O próprio David é o editor e criou o espaço. Agora, se o artista se pergunta como lucrar? O dinheiro que entra é dividido entre todos os artistas. É só manter o site funcionando. E cobrir a taxa do editor-gerente. Não tem que pagar impressor, distribuidor, escritório, nem armazém pra estocar, nem caminhões pra levar… É o mundo novo do cyberworld.

Para maiores informações é só enviar um email para: Info@acesweekly.com

Há gente que atrapalha o mercado de HQs pagas oferecendo gratuitas, mas por que fazer isso se em qualquer outra área ninguém cantaria num palco de graça, por exemplo?

Uma curiosidade final é que Lloyd não planeja voltar a trabalhar com Alan Moore porque ele sempre prefere trabalhar com artistas diferentes para não repetir. Só voltaram a trabalhar juntos quando fizeram um trabalho de caridade para salvar uma editora que estava falindo.