O Bom Gigante Amigo

Lobotomia lúdica poeticamente grosseira de um material nada cinemático

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28 de julho de 2016

Junte um dos mais aclamados escritores infantis do mundo (Road Dahl, o mesmo de “Charlie e a Fábrica de Chocolates”), chame a roteirista de um dos maiores campeões de bilheteria de todos os tempos, (Melisa Mathison de “E.T. – O Extraterrestre”) e adicione Steven Spielberg, um dos maiores diretores de entretenimento em atividade em Hollywood e o resultado será obrigatoriamente um filme sensacional, certo? Errado. O cinema (assim como o futebol) é uma caixinha de surpresas e “O Bom Gigante Amigo” (The BFG no original) soa como uma frustrante tentativa de Spielberg em resgatar um público que se deslumbrou com tubarões gigantes, dinossauros e encontros imediatos alienígenas.

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A última experiência de Spielberg com adaptações de quadrinhos foi em “As Aventuras de Tintim – O Segredo do Licorne” de 2011. Lá ele promovia, através de uma sofisticada animação, o resgate de um universo mágico bem conhecido, amarrado por uma narrativa eletrizante e até certo ponto, saudosista.

Mas em “O Bom Gigante Amigo” nada disso acontece. O equilíbrio narrativo é ameaçado por um texto infantilizado para adultos e intelectualizado para crianças resultando em uma lobotomia lúdica poeticamente grosseira de um material nada cinemático.

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Aqui não há espaço para os adolescentes, geração símbolo e fonte inspiradora do universo spielbergniano, o que decepcionará boa parte de uma platéia acostumada a se ver retratada. Temos uma órfã abandonada com problemas insones que é surpreendida no meio da noite pela presença de um gigante de meia idade (que é a cara de Robin Williams) que a leva para uma dimensão nebulosa escondida em algum lugar. Há ares de Peter Pan e Alice no País das Maravilhas, mas Dahl tinha tendências macabras e seus contos continham muito humor negro e finais surpreendentes. Mas com a assinatura da Disney estes elementos não aparecem e o que sobra é mais um blockbuster de aparências e de conteúdo confuso.

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Após uma longa introdução que fala de abandono, amizades inesperadas, bullyings e superação, Sophie (Ruby Barnhill) e BFG – abreviatura para Big Friendly Giant (um digitalizado Mark Rylance) partem em busca de socorro que aparece sob a forma da Rainha da Inglaterra (Penelope Wilton) resultando em sequências simplistas e sem fascínio.

Aquela elegante postura ingênua presente na filmografia do diretor agora é substituída por um ritmo açucarado e pegajoso com efeitos digitais que não deslumbram a geração do século 21 enfastiada por “Harries Potters” e “Senhores dos Anéis”. A lógica de Sophie, que está sempre perguntando “Onde estou?” “Quem é você?” “Você vai me comer?”, soa falsa e inconsistente diante do poderoso potencial cinematográfico de um dos maiores diretores do mundo.

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É provável que Spielberg esteja ficando velho e sua centelha criativa (que iluminou toda uma geração) possa estar diminuindo, pois “O Bom Gigante Amigo” é o oposto que sua obra sempre propagandeou.

 

 

O Bom Gigante Amigo (The BFG)

Eua, Canadá, Reino Unido, 2016. 117 min.

Direção: Steven Spielberg

Com: Mark Rylance, Ruby Barnhill, Penelope Wilton, Rebecca Hall, Rafe Spall

Avaliação Zeca Seabra

Nota 2