Um Sonho de Rabeca no Reino da Bicharada

Espetáculo em formato de contação de histórias coloca os bichos em seus verdadeiros lugares

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07 de outubro de 2016

A contação de histórias é um gênero da arte, reinventada com grande força no teatro brasileiro, há pouco mais de 20 anos, mais especificamente para o segmento da infância e juventude. De uns anos para cá houve um desgaste muito grande desta prática milenar em nossas salas teatrais. Muitas delas já vêm hoje muito carregadas de grandes estereótipos como: muita cor, linguagem tatibitati, exageros na interpretação, músicas e cantos sem nenhuma propriedade, e principalmente, o uso simples e limitado no manuseio de instrumentos musicais. Tudo isto por acharem que esta é a única fórmula de se contar uma boa história da tradição oral, ao se permitirem usar tudo ao mesmo tempo, sem critério, e sem qualificações específicas. Felizmente este caso não se aplica, em nada, ao delicado trabalho “Um Sonho de Rabeca no Reino da Bicharada” do Grupo Estação de Teatro de Natal/RN. Partindo já de seu título, que nos traz duas ótimas referências ao que será apresentado à nós, ficamos bastante aguçados com as possibilidades que este trabalho irá nos dizer. A Rabeca – nome usado em Portugal e no Brasil -, é um instrumento antigo, que deu origem ao violino, apresenta mais simplicidade e limitação aparentes, pois é considerado um equipamento mais melódico, do que harmônico, pois é tocado em um tom mais baixo, e com apenas 3 a 5 cordas no máximo, e assim produz um som mais fanhoso e considerado também como tristonho. Estas características já o tornam um excelente e potencial instrumento para uma obra teatral sensível e delicada, que tem tudo para tocar a nossa alma profundamente. Aliada a isso encontramos também no título uma ótima referência do que irá permear o roteiro do espetáculo: uma bicharada. Como não se encantar de antemão com título tão sugestivo, que já chega vencedor antes mesmo de se abrir as cortinas.

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Delicadeza, harmonia e precisão de Caio Padilha, Ananda Krishna e Sami Tarik, para contar nos contar as histórias de “Um Sonho de Rabeca no Reino da Bicharada” .

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O ótimo Caio Padilha e a sua Rabeca, em cena de “Um Sonho de Rabeca no Reino da Bicharada”.

O primeiro grande acerto da encenação está no seu brilhante roteiro, na seleção primorosa dos contos sobre a nossa fauna nordestina e brasileira – o carcará, o jumento, o macaco, o boi, o rato -, que além de extremamente poéticos, delicados e sensíveis, trata com o maior de todos os respeitos do mundo, os seres mais importantes deste planeta, os nossos animais. As belas fábulas conseguem chegar à todos nós de uma forma muito clara e muito objetiva do real valor que cada bicho tem. Isto é algo magnífico para a vida e para a arte teatral. Poder contar, ensinar, engrandecer, a nossa natureza e bichos do Brasil, sem nenhum tom didático, ou educativo. Ensinando-nos, e dizendo-nos muito mais! Dizendo-nos da beleza e do verdadeiro lugar que os nossos bichos ocupam no mundo e na sociedade brasileira e nordestina. Um brilhante acerto! A direção de Caio Padilha é também de grande sensibilidade, precisão e harmonia. Todas as escolhas cênicas, o formato da contação, e o conceito do espetáculo dialogam com muita delicadeza e força em seu conteúdo. Tudo colabora para o sucesso do projeto. O cenário e figurino de Katia Dantas é muito bem pintado, de típicas xilogravuras, com a predominância de animas dançando e tocando forró, e um tecido colorido de piso. Completado com os instrumentos em cena: uma rabeca, um violão, uma bateria, uma sanfona, um pandeiro, um chocalho e um cájon. A direção musical e arranjos de Padilha são uma pérola de suavidade, de harmonia entre os instrumentos, e de leveza;  onde os atores-narradores-menestréis-trovadores (Ananda Krishna, Caio Padilha e Sami Tarik), dão vida ao texto e aos personagens, de uma maneira muito doce, singela, significativa e com extrema competência no contar, no cantar, no tocar e no atuar.

“Um Sonho de Rabeca no Reino da Bicharada”  é uma contação de histórias, das mais sublimes que eu assisti até os dias de hoje, e que teve a propriedade de aplacar minh’ alma, em um momento muito especial de minha vida. É obrigatório à todas as pessoas em nosso planeta, e queria dedicá-lo ao meu mais amado e fiel escudeiro canino que me deixou há alguns dias: meu filho Quixote!

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 5