A Canção do Pôr do Sol

Épico onde a fragilidade da beleza é mostrada através dos olhos de um poeta que respeita a arte cinematográfica.

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10 de outubro de 2016

Terence Davies é um diretor das antigas que gosta de contar histórias clássicas e tristes sobre pessoas que resistem à grandes perdas. Em “A canção do pôr do sol” (Sunset Song no original), baseado no livro homônimo de Lewis Grassie Gibb, não é diferente. Projeto antigo do cineasta (levou 18 anos para tornar realidade), o filme é um épico sobre a resistência de uma família rural em terras escocesas no início do século 20, um pouco antes da Primeira Guerra Mundial estourar.

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Davies realiza uma obra dolorosamente bela sobre uma época sem recursos, quando tudo era difícil e as mulheres não tinham nenhuma opção de escolha e eram tratadas como parideiras e escravas de seus maridos. A heroína da vez é Chris Guthrie (a excelente Agyness Deyn), adolescente, esforçada e sonhadora que apesar de suportar todos os tipos de intempéries se recusa a esmorecer. Sua vida não tem nada de idílico tendo que enfrentar um pai violento, mortes de familiares, abandono de entes queridos e muita violência doméstica.  Ela representa a mãe-terra escocesa, um verdadeiro pilar que resiste às tempestades, frio e ventanias, oferecendo, em troca, uma abundante colheita. Esta dicotomia é a força deste filme cujo tema é a própria terra que está sempre presente e pulsante.

“A canção do pôr do sol” é um filme repleto de alma que desperta a atenção do espectador obrigando-o a escutar o silêncio do campo, os gritos de um parto complicado e as chibatadas de um cinto nas costas de um rapaz que desobedeceu ao pai. Os belíssimos enquadramentos do fotógrafo Michael McDonough dominam todo o espaço cênico, completamente preenchido por exuberantes paisagens campestres e por rostos iluminados com suaves sombreamentos, remetendo as pinturas do século 19.

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Aqui tragédia é tratada na tradição dos filmes de John Ford e David Lean (em especial “A Filha de Ryan” de 1970) estampada no formato widescreen e onde a fragilidade da beleza é mostrada através dos olhos de um poeta que respeita a arte cinematográfica.

 

Festival do Rio 2016 – Panorama do Cinema Mundial

 

A Canção do Pôr do Sol (Sunset Song)

Reino Unido, Luxemburgo, 2015. 135 min

Direção: Terence Davies

Com: Peter Mullan, Agyness Deyn, Kevin Guthrie, Jack Greenless

Avaliação Zeca Seabra

Nota 5