Hissein-Habré, uma tragédia no Chade

O chadiano Mahamat-Saleh Haroum, um dos principais nomes do cinema africano contemporâneo, vencedor do prêmio do Júri em Cannes por seu longa de ficção "Um homem que grita", realiza seu primeiro documentário

por

13 de outubro de 2016

O chadiano Mahamat-Saleh Haroum, um dos principais nomes do cinema africano contemporâneo, vencedor do prêmio do Júri em Cannes por seu longa de ficção “Um homem que grita”, realiza seu primeiro documentário. Hissein-Habré, uma tragédia no Chade (2016) dá continuidade ao tema recorrente de sua filmografia: a sobrevivência dos afetos em meio aos efeitos devastadores da guerra e do exílio.

hisseinha_f01cor_2016110457-2

Ele próprio vítima da ditadura de Hissein-Habré, ferido e exilado de seu país, Haroum procura retraçar a memória desse período trágico. O dilema de narrar um regime de atrocidades, de como construir a memória do horror, está posto logo no início: o próprio diretor é o personagem inicial, tentando escrever sobre uma folha em branco o possível roteiro de um filme. Mas não há representação que se sustente diante da memória do horror, e as palavras escritas pelo cineasta são rasuradas em seguida. A única inscrição possível é aquela marcada nos corpos. Da folha rasurada do diretor chega-se à apresentação em close de outras rasuras: os cortes sobre nucas, crânios, braços, torsos. O tecido da pele e seus ossos fraturados são o único suporte possível dessa narrativa. E é através desses corpos, apresentados em suas dores físicas e emocionais, que Haroum conduz seu filme.

 

Mais do que se pretender uma máquina de registro das dores dos torturados, a câmera deseja testemunhar a possibilidade de um espaço comum, da criação de um consenso entre estes e seus torturadores. Clément Abaifouta, presidente da Associação das Vítimas de Crime do Regime de Hissein-Habré, é quem nos guia, levando-nos aos personagens, aproximando vítima e torturador. Difícil mediação em que se vê forçado a perguntar ao carrasco: “você é capaz de pedir perdão a tua vítima?”. O algoz é incapaz de se desculpar alegando que seguia apenas ordens de seus superiores. Vemo-nos aqui expostos aos dilemas discutidos por Hannah Arendt em seu livro Eichman em Jerusalém, quando ela acompanha o julgamento de um dos dirigentes do nazismo que dizia apenas obedecer ordens. Seria este torturador um perverso ou apenas mais uma vítima da “estupidez burocrática, da banalização do mal?

 

Um filme de difícil digestão, pela dureza de seus relatos, mas que é capaz de conduzir de forma sutil e afetuosa um tema tão espinhoso e fundamental, principalmente para os países africanos que sofreram e sofrem inúmeras ditaduras.

 

Festival do Rio 2016: Panorama do Cinema Mundial

Hissein-Habré uma tragédia no Chade (Hissein-Habré, une tragédie tchadienne)

França, 2016. 80 minutos.

Direção: Mahamat-Saleh Haroun


Warning: Invalid argument supplied for foreach() in /home/almanaquevirtual/www/wp-content/themes/almanaque/single.php on line 52