Entrevista com o diretor Marco Bellocchio na 40ª Mostra de SP

Além de ganhar ciclo retrospectivo e de ser autor do cartaz oficial do evento, o italiano teve seu filme mais recente, “Belos Sonhos”, na honrosa posição de longa de abertura do festival paulistano.

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27 de outubro de 2016

O diretor Marco Bellocchio é o grande nome da 40ª Mostra de São Paulo. Além de ganhar ciclo retrospectivo e de ser autor do cartaz oficial do evento, o italiano teve seu filme mais recente, “Belos Sonhos”, na honrosa posição de longa de abertura do festival paulistano.

Bellocchio veio a São Paulo para uma master class e para receber as (merecidas) homenagens. É muito querido pelos brasileiros, e por isso mesmo é estranho que alguns de seus filmes atrasem tanto a chegar aqui. Caso de “Sangue do Meu Sangue”, exibido no Festival de Veneza ainda do ano passado, mas que só no começo de novembro entrará em cartaz por aqui.

O filme, que é exibido na Mostra antes da estreia comercial, traz Bellocchio no auge da inspiração. A história é dividida em duas partes. Ambas se passam em Bobbio, na Emilia-Romagna (onde o diretor nasceu), mas em diferentes períodos históricos. A primeira metade se passa no século 17, quando uma religiosa seduz e incita um padre a cometer suicídio. Como punição, a moça é condenada pela rígida Igreja Católica da época a passar o resto de seus dias enclausurada em um cubículo vedado por tijolos.

A segunda parte se passa nos dias atuais: um vampiro milionário, cuja fortuna foi acumulada após séculos sugando sangue e dinheiro dos outros, atinge uma idade tão avançada que intui que seu fim está próximo – mesmo que ele já seja um morto-vivo. O filme apresenta as duas histórias em estilos bem diferentes: a primeira tem um tom sóbrio e poético, enquanto a segunda é narrada em uma chave mais satírica, quase histericamente cômica.

No Festival de Veneza 2015 para promover o longa, Bellocchio conversou com o Almanaque Virtual sobre o filme. “No começo, a ideia era que as duas tramas se passassem no século 17. Mas eu logo senti necessidade de contar uma história que dissesse respeito mais diretamente ao presente, então trouxe uma delas para a atualidade”, diz o cineasta. “Mas não me dediquei muito a incluir referências de uma trama na outra. Ou de incluir conexões específicas entre a primeira história e a segunda. É claro que essas conexões existem, mas achei essencial que houvesse no filme uma grande liberdade nesse sentido”, conta.

“Ao optar pelas duas partes, é como se eu observasse duas Itálias diferentes: uma histórica, do passado, e outra no presente, que naturalmente resolvi conceber com um outro tipo de toque, com mais leveza e com um modo comicamente paradoxal no tom. Por outro lado, a primeira parte tem um registro mais dramático, talvez até trágico”, compara.

Para o filme, o diretor escalou os dois filhos (Pier Giorgio e Elena Bellocchio) em papeis relevantes – o título “Sangue do Meu Sangue” não deixa de ser uma espécie de boutade com o parentesco dos atores/rebentos. “Sempre trabalhei com pessoas amigas e até mesmo parentes. Escolhi familiares para o filme porque ali queria falar sobre a cidade de Bobbio, um lugar tão próximo a mim e tão especial para a minha vida. Meu filme ‘Irmãs Jamais’ [de 2010] também foi feito na mesma região, com as minhas próprias irmãs. Mas escalar parentes não vai virar um procedimento a partir de agora [risos]… foi só a conclusão de uma experiência específica.”

Bellocchio diz que a escolha do título, na verdade, tem inspiração religiosa. “Os dizeres ‘Sangue do seu sangue’ são um trecho da liturgia católica – eu os adaptei para um caso mais pessoal, alterei para a primeira pessoa, para ‘sangue do meu sangue’.”

As duas metades do filme poderiam facilmente ser partes de obras distintas. No entanto, como diz o cineasta, há conexões entre elas – as duas lidam, por exemplo, com poder: o religioso na primeira parte, o financeiro, na segunda. E é provavelmente isso o que Bellocchio pretende mostrar com seu longa: o tempo passa, as coisas mudam, mas as figuras poderosas sempre conseguem se reinventar, de modo que há sempre alguém dominando e explorando os demais.

“O episódio moderno veio da necessidade de usar uma linguagem paradoxal, grotesca, no estilo de ‘O Inspetor Geral’, do [escritor e dramaturgo russo Nikolai] Gogol… No final, a chegada da Guarda de Finanças, é a chegada do inspetor geral – significa que, talvez, tenha chegado o fim da corrupção e práticas ilegais”, diz, mostrando certo otimismo quanto à possibilidade de mudanças na estrutura de poder mundial. “O presente é muito incerto. O fim do filme ilustra isso: os guardas de finanças chegam. O que eles farão? Não sabemos.”

A ideia do filme surgiu em um laboratório com estudantes. “Tanto ‘Sangue do Meu Sangue’ quanto ‘Irmãs Jamais’ nasceram de uma experiência que tenho anualmente, em Bobbio, que é um workshop de cinema. Geralmente é feito no verão, dura 15 dias. Ao final, eu e o grupo [de alunos] realizamos um curta-metragem. O curta, feito cinco anos antes de eu rodar o longa, era como um epílogo da primeira parte do longa. Então tive a ideia de fazer um filme narrando a trama que antecederia aquela situação”.

No longa, Bellocchio não tem intenção de tornar as coisas fáceis para o público: ele abre alguns caminhos, mas nos abandona no meio da floresta – cabe a nós, os espectadores, encontrar o modo mais conveniente de aparar a selva e encontrar uma saída (ou morrer, exaustos, no meio do matagal). Ao fazer um filme tão aberto, Bellocchio não teme equívocos de interpretação por parte do público?

“Um filme pode gerar incompreensão ou mal entendidos – acontece com qualquer cineasta, já ocorreu numerosas vezes na minha longa carreira. É normal. Às vezes o público vê coisas que não foram a intenção do diretor, que tem que estar já preparado para isso e aceitar: o público, grande parte das vezes, é quem tem razão”, diz o italiano.

“Muitas vezes, é o espectador quem ajuda o cineasta a descobrir aspectos de seu próprio filme que ele ignorava. Por exemplo: houve pessoas que fizeram conexões entre o final deste filme com cenas de ‘Bom Dia, Noite’, em que Aldo Moro vive uma liberdade que não é real – é uma conexão que eu jamais teria feito. Eu gosto de descobrir essas coisas, me agrada”.

O filme é extraordinário e tem algumas pequenas ideias de gênio – Bellocchio inclui, por exemplo, uma divertida conversa entre o vampiro e seu dentista. E tem um achado: a inclusão de uma música do Metallica (“Nothing Else Matters”) no segmento passado no século 17; em arranjo totalmente novo, a melodia soa como uma canção sacra da época.

“Minha cultura musical é muito limitada. Minha formação nessa área é mais operística e ligada à grande canção italiana – e também à música religiosa. As canções modernas, eu as conheço muito pouco. Mas vivo e trabalho cercado por jovens, que sempre me dão sugestões, algumas até muito boas… E eu tenho um ouvido muito bom. Gostava muito dessa música do Metallica. Mesmo não correspondendo ao tempo do filme, eu intuí que seria capaz de gerar uma emoção”, diz Bellocchio, mostrando que, em 50 anos de carreira, continua com o instinto e o espírito de transgressão bastante apurados.