Reflexões sobre sucessos comerciais no Brasil: Elis ou Rogue One?

Elis" e "Rogue One", o que estes 2 filmes têm a ver?

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18 de dezembro de 2016

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Sim, esta semana estreou “Rogue One”, produção de provável maior porte comercial lançada no fim de 2016, mas que nós, “A Crítica”, pudemos servir em ressignificar e despertar novos valores artístico-autorais em um filme que se destaca da saga que o originou. É talvez o mais bem bolado esteticamente, individualizado da franquia com cenários ímpares e com mise-en-scène de guerrilha como um libelo político declarado, de uma coragem ímpar, capitaneado por uma forte protagonista que não deve a qualquer soldado homem, na pele de Felicity Jones (destaque também para o sarcástico robô K2). Lógico que a bilheteria gigantesca não vai mudar em percentual por esta análise de exaltação ou não coletiva, mas uma parcela que se importa com a história do cinema se alimentará desta visão.
Mas qual foi o maior sucesso comercial brasileiro do ano? Qual a maior bilheteria? Será que damos o devido valor para além do ingresso que lotou os shoppings no fim de semana?
Por incrível que pareça, a maior bilheteria até agora de um filme brasileiro em 2016 foi de fato “Dez Mandamentos”. Nada contra. Tem seu nicho, mesmo sendo telenovela condensada.
Mas e a qualidade artística do pipocão? O que será lembrado disso? Infelizmente o filme autoral do ano, “Aquarius”, não conseguiria cruzar a barreira entre “A Crítica” e o popular de massa, talvez pelo estigma político a que foi injustamente reduzido.
Então quem cruzaria esta linha tênue?
Neste fim do ano? Com certeza o escolhido pelo povo deveria ter sido o premiado “Elis” de Hugo Prata, filme sobre a inestimável cantora que foi incorporada, para além dos trejeitos, com emoção e até um pouco de ironia e feminismo por Andréia Horta (melhor atriz em Gramado). Claro, se o filme for encarado como drama peca pelo excesso de videoclipes, mas o filme é mais que um drama. Ele se confessa de peito aberto e musicalmente como obra autoral para as massas. Massas estas que, caso se permitam, irão ter o deleite de ‘ver’ e rever incasavelmente as músicas já amadas ambientando a tessitura da História do país. Tudo transposto numa belíssima fotografia que une o sépia da memória ao azul-piscina, como metáfora de nossa flâmula estrelada, acrescentando-se aí um bem-vindo tom de sombras como inesperada crítica usando o gênero noir contra a Ditadura.
Sim, o filme mostra também as controvérsias em pontos altos e baixos da cantora, cada vez aprofundando a intimidade com as expressões e gestos da atriz em supercloses (como quando desafia com seu canto cortante a plateia em vaia), sem precisar vitimizá-la nem torná-la uma figura trágica.
A pequena gaúcha chega e atropela a sociedade com sua liberdade de vida, mesmo que Andréia Horta não cante com sua própria voz, e sim duble, com bastante precisão e entrega na maioria das vezes, diga-se de passagem. Afinal, quem poderia cantar como Elis não precisaria estar interpretando a mesma, estaria por aí vendendo álbuns novos (ooops, Maria Rita entendeu o recado).
Mas por que os brasileiros não estão correndo a apinhar as salas de cinema?
É um filme de uma produção impecável que merece ser visto, pra gostar e pra não gostar, mas ser visto. E olha que “Elis” ainda é precedido de formadores de público pela própria figura história dela, pelo CD da trilha sonora (coletâneas Melhores canções de….sempre vendem) e da peça-musical que já havia feito muito sucesso nos teatros.
Elis, neste sentido, é filha desta terra. Tanto a cantora quanto o filme. Só pelas músicas dela enfileiradas em uma projeção de qualidade numa tela escura, e incorporadas por uma inspirada Andréia Horta, ja deveria arregimentar multidões, mesmo que fosse pra reclamar.
É possível que o filme saia de fininho do circuito, quando merece ter um recorde de meses em cartaz como qualquer pipocão estrangeiro.
Estranhamente quase a mesma coisa aconteceu com o outrora provável candidato a maior bilheteria de meados de 2016, que foi o blockbuster de ação “Mais Forte Que O Mundo – A História de José Aldo” de Afonso Poyart, produzido exemplarmente para filme americano nenhum botar defeito. Ainda mais com um biografado recordista de vitórias em um esporte mundialmente notabilizado.
Então por que nossos conterrâneos dão bilheteria escapista até para os mais fracos pipocões do Tio Sam, mas não conseguem dar o mesmo reconhecimento às obras nativas de teor similar?
Que tal mudarmos este cenário? Vamos fazer “Elis” ser visto como merece, em tela grande, com som apropriado, em experiência coletiva, emoção em conjunto, e que fique em cartaz por semanas a fio.

Aliás, nosso top:

1) Os 10 Mandamentos
2) Até que a Sorte nos Separe 3
3) Carrossel 2
4) É Fada!
5) Tô Ryka!
6) Um Suburbano Sortudo
7) Vai que Dá Certo 2
8) Um Namorado para minha Mulher
9) O Shaolin do Sertão
10) Mais Forte que o Mundo
(mas Elis vai roubar essa vaga nessas duas últimas semanas)

O top 10 americano:

1) Procurando Dory
2) Capitão América 3
3) Pets
4) Mogli
5) Deadpool
6) Zootopia
7) Batman vs Superman
8) Esquadrão Suicida
9) Doutor Estranho
10) Animais Fantásticos
(e Rogue One vai tirar o avô do Harry Potter daí)

(Note-se que a maioria se trata de sequências ou franquias já pré-estabelecidas).

PS. Agradecimento pelos dados oficiais de bilheterias no Brasil e EUA ao crítico Francisco Carbone.