Panorama Crítico do Teatro para a Infância e Juventude em 2016

Espetáculos, escolhas e atitudes que fizeram a diferença no Brasil, América do Sul e Europa

por

29 de dezembro de 2016

O ano de 2016 foi um dos piores anos, dos últimos tempos, em diversos setores da sociedade mundial. No campo das artes, mais precisamente no teatro para a infância e juventude, vimos pouquíssimos progressos no que diz respeito a um pensamento crítico e uma reflexão da arte, verdadeiramente. Uma pequena nesga de crescimento mais aberto e arejado foi sentido, em algumas poucas montagens e atitudes artísticas de resistência e força, por todo o mundo. Seja ela, desde o campo da encenação, passando pela produção, pelas opiniões teatrais e pelas escolhas dos indicados aos prêmios concedidos ao teatro infantil. Estamos muito carentes no campo de uma escrita verdadeiramente especializada, no campo dos conteúdos teóricos sobre a nossa área de atuação e das escolhas qualitativas. Estamos atualmente rodeados de muitos achismos, de impressões pessoais, de superlativos na escrita. De uma falsa impressão de que existem dezenas de obras-primas em cartaz. Quando na verdade, vemos ano a ano, uma mera repetição de fórmulas, um excesso de didatismo nas montagens, uma fragilidade gigantesca nas dramaturgias (textos excessivamente óbvios e duros, sem uma mínima poética ou construção rica), atuações abaixo da média (atores fracos, mal dirigidos ou esteriotipados para um teatro infantil boboca), concepções equivocadas e uma contribuição mínima no que diz respeito à estética, ao conceito, a originalidade, a organicidade, a pesquisa, a experimentação, a um novo olhar para a arte. Uma quantidade enorme do mais do mesmo foi o que tivemos também em 2016. O que nos afasta enormemente de inteligências cênicas, de artistas ousados, de cabeças pulsantes que arriscam fora de sua zona de conforto. Não podemos reproduzir no teatro um mundo de pasmaceira, um mundo certinho, com peças corretas, que tem apenas a  função de agradar a uma maioria e assim fugir de qualquer rejeição ao qual o artista, por sua origem transgressora, a tem. Peças descritivas, textos explicativos e professorais por demais, assuntos polêmicos tratados de forma infantilóide, peças de ocasião, muitas peças por encomenda – e que seguem sempre o mesmo padrão -, ou misturas pseudo-contemporâneas com receitas datadas, e por aí vai a quantidade enorme de concessões que são feitas em nosso teatro para a infância e juventude.

Dentre os espetáculos que ousaram, foram criativos, e atingiram excelência técnica e artística neste ano de 2016, segue algumas citações abaixo:

“O Circo de Soleinildo” no 9o FENATIFS em Feira de Santana/Bahia

As composições de cada uma das personagens e a sua interação com os objetos e animações, são de enorme propriedade.

Encenado pela Companhia Operakata de Teatro, o espetáculo foi um dos mais impressionantes, visto neste ano, no cenário brasileiro. Oriundo de Vitória da Conquista, interior da Bahia. Trecho da minha crítica no Almanaque Virtual:  …(  ) …Com uma estética magistral, onde cada um dos objetos de cena exalam ancestralidade e peso histórico, por tanta força e pungência. Todas as formas, escolhas, conteúdos, paletas, parece terem sido esculpidas em cada corpo, em cada alma, em cada respiração, em cada uma das filigranas. Todas as soluções encontradas são o fruto de um trabalho de arte árduo e prazeroso, onde todas as peças deste tabuleiro se encaixam plenamente no ato contínuo e no fluxo da teatralidade e do jogo cênico. Todo o roteiro é seguido com precisão, em um jogo de quebra-cabeças, onde a cena se transforma com organicidade e nos encaminhando todos os contextos e textos, dito e não ditos dessa delicada encenação…(   )…

“A Gaiola” no CCBB/RJ

a-gaiola-2

O espetáculo, com direção de Duda Maia e atuação de Carol Futuro e Pablo Áscoli, e iluminado por Renato Machado; é sem dúvida o melhor espetáculo do ano na cidade do Rio de Janeiro. Para quem procura um verdadeiro espetáculo de teatro para a infância e juventude, encontrará  tudo nesta encenação. A direção geral e de movimento de Duda Maia é de enorme riqueza e de grandes acertos, em extrair tanta teatralidade de dois corpos, um banco, uma caixa e uma co-autoria na impressionante luz geométrica e cenográfica de Renato Machado. Projetos assim não acontecem todos os dias, nem em todos os meses, e raro, mesmo, em todos os anos. Em breve será lançada a crítica dele no Almanaque Virtual.

“Um Sonho de Rabeca no Reino da Bicharada” no 9o FENATIFS em Feira de Santana/Bahia

Delicadeza, harmonia e precisão de Caio Padilha, Ananda Krishna e Sami Tarik, para contar nos contar as histórias de "Um Sonho de Rabeca no Reino da Bicharada"

Contado pelo Grupo Estação de Teatro de Natal/RN, a peça foi um dos musicais mais inventivos da temporada. Trecho da minha crítica no Almanaque Virtual: …(   )…O primeiro grande acerto da encenação está no seu brilhante roteiro, na seleção primorosa dos contos sobre a nossa fauna nordestina e brasileira – o carcará, o jumento, o macaco, o boi, o rato -, que além de extremamente poéticos, delicados e sensíveis, trata com o maior de todos os respeitos do mundo, os seres mais importantes deste planeta, os nossos animais. As belas fábulas conseguem chegar à todos nós de uma forma muito clara e muito objetiva do real valor que cada bicho tem. Isto é algo magnífico para a vida e para a arte teatral. Poder contar, ensinar, engrandecer, a nossa natureza e bichos do Brasil, sem nenhum tom didático, ou educativo. Ensinando-nos, e dizendo-nos muito mais! Dizendo-nos da beleza e do verdadeiro lugar que os nossos bichos ocupam no mundo e na sociedade brasileira e nordestina. Um brilhante acerto!…(   )…

“Iara- O Encanto das Águas” no 9o FENATIFS em Feira de Santana/Bahia

Manipulado com excelência pela Cia Lumiato de Formas Animadas/DF, e dirigida pelo consagrado sombrista brasileiro Alexandre Fávero, foi o melhor espetáculo de animação do ano. Trecho da minha crítica no Almanaque Virtual: …(  )…O ponto alto do espetáculo é quando os manipuladores invertem o sentido da manipulação e descortinam à nós os segredos e as técnicas para extrair estas lindas sombras. O que dá ao projeto uma autoralidade, um diferencial de qualidades. É verdadeiramente impressionante ver a criação de tantos mundos com tão poucos, porém essenciais equipamentos. Tudo funciona com grande harmonia, inteligência cênica e competência…(   )…

“Viagem ao Centro da Terra” no SESC Pompéia/São Paulo

viagem-ao-centro-da-terra-2

Realizado pela Cia Solas de Vento, com direção de Eric Nowinski, é uma adaptação do clássico homônimo do escritor francês Júlio Verne. Um dos espetáculos mais inventivos, criativos e tecnológicos da temporada paulista. Há muito que eu não via um projeto tão bem elaborado e repleto de manipulação de bonecos, engenhocas, vídeo e projeções. Tudo isso realizado de forma harmônica e altamente teatral. É um espetáculo mágico e que nos deixa com os olhos grudados em todas as cenas de puro encantamento, costuradas por um texto e roteiro inteligentíssimo; além de um excelente elenco acrobático e extremamente preciso!

 

“Una Manãnita Partí” no 7o PGE em Curitiba/Paraná

07_MANANITA_CHILE

Espetáculo da Cia. Teatro Ocasion– Santiago/Chile foi uma das grandes surpresas do 7o PGE. Aliando sofisticação e simplicidade à força e a leveza poética. Trecho da minha crítica no Almanaque Virtual: …(  )…Com grande encantamento e excelências teatrais em uma montagem delicada, precisa, imagética e muito sensível, voltada para crianças pequenas. A partir de ações simples, a Cia cria com músicas ao vivo, um leque variado de construção e transformações variadas de objetos, onde a singeleza e a poesia dialogam. A encenação encontra um grande equilíbrio, e harmonia, entre a boa atuação dos atores e músicos…(   )…

Menções especiais:

À Bebê de Soares e à sua Amazonas Network, pela importante atuação na seleção do premiado espetáculo “Simbad, o Navegante” do Circo Mínimo, no Showcase do IPAY 2017 (International Perfoming Arts for Youth) em Madison, USA.

À estreia de Pedro Kosovski na dramaturgia infantil e juvenil, com o texto: “Tãotão”, nos 65 anos do Tablado. Lamento profundamente não ter assistido à este espetáculo.

À Dib Carneiro Neto pelo lançamento do site especializado no teatro para a infância e juventude: “Pecinha é a Vovozinha” em São Paulo.

Ao figurino e o visagismo de “Um Sonho para Méliès”.

À concepção estética de “Kartas de uma Boneka Viajante” da Cia do Abração no 7o Pequeno Grande Encontro de Teatro para Crianças de Todas as Idades, no Teatro Guairinha em Curitiba/Paraná.

À ousada curadoria do 9o FENATIFS – Festival Nacional de Teatro Infantil de Feira de Santana – que se consagra neste ano como um dos três maiores festivais de teatro para a infância do Brasil -, e a continuidade do mesmo pelo triênio de 2017, 2018 e 2019, com o apoio financeiro do Governo do Estado da Bahia, através do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura da Bahia, através do Edital Eventos Calendarizados 2017 – 2019.

Ao Festival “12 doces do Outono” que apresentou em Santiago de Compostela, na Galícia/Espanha, o delicado espetáculo de teatro de objetos: “O Sítio de Objetos” da Mariza Basso Produções Artísticas.

Ao XV Festival Internacional de Marionetas na Casa Mágica- Casa do Povo de Valongo do Vouga, festival de títeres em Aveiro/Portugal, idealizado e produzido pelo titiriteiro português e brasileiro Beto Hinça.

Ao delicado Museu das Marionetas do Porto, que possui uma bela e completa exposição permanente de suas obras, criações, e com o grande acerto em colocar também mecanismos de processo e a possibilidade de todos poderem manipular algumas de suas construções.


Warning: Invalid argument supplied for foreach() in /home/almanaquevirtual/www/wp-content/themes/almanaque/single.php on line 52