King Kong paga mico em sua volta às telas

Astro de obras-primas ecológicas, o símio mais famoso do cinema volta ao circuito à frente de uma aventura empolgante, mas vazia, que mais parece um fliperama

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11 de março de 2017

Após 84 anos de sua estreia nos cinemas, King Kong volta às telas em uma narrativa divertida, mas oca, com personagens que não saem do esboço

Após 84 anos de sua estreia nos cinemas, King Kong volta às telas em uma narrativa divertida, mas oca, com personagens que não saem do esboço

RODRIGO FONSECA
Embora resgate um espírito de gênero similar ao de clássicos B (de bestiário), como O Mundo Perdido (1960) e O Continente Esquecido (1968), e se imprima na tela a partir de um ritmo de vertigem crescente, Kong: A Ilha da Caveira é um mico do tamanho de sua estrela, o símio tamanho GG, que reina soberano em um paraíso silvestre onde tudo parece vindo de Itu. Mesmo divertido, o longa-metragem de montagem feérica dirigido por Jordan Charles Vogt-Roberts (do superstimado Os Reis do Verão) é um ótimo videogame, uma vez que sua narrativa enfileira uma série de obstáculos, a cada minuto, que precisam ser derrubados, à força, sem muito pensamento. Mas, como filme, como storytelling, esta produção de US$ 185 milhões não passa de uma sucessão de tropeços, cujo problema central é o fato de seus personagens serem ocos, incapazes de ir além de um esboço. Só um para de pé, e muito graças ao desempenho de seu (genial) intérprete: o piloto Hank Marlow, vivido com brilhantismo por John C. Reilly, numa evocação aos grandes coadjuvantes de seriados de aventura como Corky de Lendas do Macaco Dourado, exibido pelo canal ABC em 1982.

Numa atuação impagável como um soldado deslocado no Tempo, John C. Reilly é o combustível desta produção de US$ 185 milhões

Numa atuação impagável como um soldado deslocado no Tempo, John C. Reilly é o combustível desta produção de US$ 185 milhões

Levado aos cinemas pela primeira vez em 1933, por Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack numa espécie de poema simbolista, King Kong voltou ao écran várias vezes, com destaque para a versão de John Guillermin de 1976 e para a magistral versão de Peter Jackson de 2005, ambas calcadas num tom épico. Aqui, em A Ilha da Caveira, esse tom inexiste e a aparição do monstro é banalizada, sem despertar reação de quem testemunha seus feitos – calçados de adrenalina. Houve uma boa sacada de levar a trama para os anos 1970, em meio ao conflito do Vietnã, arriscando um diálogo tênue com Apocalypse Now (1979). Como no clássico de Coppola, um grupo de soldados se embrenha na selva, à cata da missão de destruir uma potencial ameaça à hegemonia americana. Em Copolla, era Marlon Branco; aqui é um macaco. E algumas boas tiradas pacifistas são disparadas, como o diálogo onde se ouve “o pior de uma guerra é procurar um inimigo que não tem nada contra você”.

Ao centro, Brie Larson e Tom Hiddleston: talentos desperdiçados

Ao centro, Brie Larson e Tom Hiddleston: talentos desperdiçados

Mas a inteligência para por aí e no empenho de Vogt-Roberts, à direção, para criar um paralelo com Moby Dick, fazendo do militar de mais alta patente, o tenente-coronel Packard (Samuel L. Jackson, mais caricato do que nunca) como uma espécie de Capitão Ahab. O problema é que, diferentemente do que se passa no monumento literário de Herman Melville sobre um marinheiro à caça de uma baleia cachalote, nada justifica o ódio de Packard por conta, fora um patriotismo cego que não faz sentido. Pior que isso é a relação que se esboça entre o herói, o capitão Conrad (Tom Hiddleston, sempre ótimo) e a fotógrafa Mason Weaver (Brie Larson, que além de ter um talento cênico desmedido, é o rosto mais lindo hoje em Hollywood). Por todo a extensão do longa, esboça-se uma relação de par romântico entre eles, com closes adocicados de ambos (e tomadas sensuais dela), mas nada se concretiza, numa quebra de expectativa que não convence, nem se alinha com as discussões de gênero de hoje.

 

Sobram apenas perseguições na selva, lutas de Kong contra répteis e moluscos fermentados e as divertidas tiradas de Reilly, na pele de um soldado que ficou cerca de duas décadas preso naquela ilha, desde a II Guerra Mundial. No esforço de fazer um eye-candy (jargão hollywoodiano para blockbusters lotados de atores respeitados), Vogt-Roberts fez apenas um bom fliperama – divertido, mas ultrapassado… e vazio.    

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 2