Édipo cyperpunk contra a esfinge da decadência moral

Scarlett Johansson vai além de sua sensualidade latente na adaptação do mangá 'Ghost in the Shell', um thriller policial no qual a investigação chama mais atenção do que a força visual de um futuro hi-tech

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30 de março de 2017

Barbie robótica, Major (Scarlett Johansson) é um construto metálico que busca sua porção humana para desvendar o que existe de podre numa Tebas metalizada

Barbie robótica, Major (Scarlett Johansson) é um construto metálico que busca sua porção humana para desvendar o que existe de podre numa Tebas metalizada

RODRIGO FONSECA
Mistura de Zootopia com Chuva Negra, meio high-tech e meio bárbaro, fiel ao credo cyberpunk na forma e à suspensão das certezas em seu tom de thriller, A Vigilante do Amanhã – Ghost in the Shell se expressa muito melhor como filme policial (é um dos mais tensos do filão, em anos) do que como ficção científica. É demasiadamente humano para pleitear um posto de Blade Runner, embora seu visual venha dele, com ecos de toda a tradição animada do Japão em representações das miserabilidades do Homem. Há uma brutalidade típica do soberbo filme de Ridley Scott no Japão, com o mesmo sendo de brutalidade e o mesmo ímpeto xenófobo (aqui, a xenofobia se dá no preconceito entre homens, homens ciberneticamente implantados e ciborgues). Tem muito da coelha animada da Disney na andróide taciturna Major, que faz Scarlett Johansson avançar algumas casas no tabuleiro da boa atuação. Ambas fazem da retidão seu desígnio maior, ambas são enredadas em uma conspiração política que ameaça suas reputações no controle da Lei. Ambas têm compromisso com a família, embora a personagem de Scarlett não saiba de onde vem. A diferença é que a coelha preserva a inocência como forma de driblar sua animalidade em uma sociedade na qual bestas são personalizadas. Major de inocente não tem nada. Mas não se trata de carregar culpa: trata-se de não deixar que nada possa frear sua porção máquina. Em nome do dever, ela é capaz de tudo, mas pela cartilha da Justiça. O que vai botar o filme para amadurecer é o processo de busca por falibilidades em que ela embarca.

224618-19531-116737-1-ghost-in-the-shell.jpg Ghost in the shell

Máquinas não podem errar: nem amar. Alguém disse a Major que ela é uma máquina. Mas em meio a um circuito de mortes de cientistas proeminentes da robótica, ela se choca contra um criminoso misterioso, Kuze (Michael Pitt, em seu melhor trabalho), que parece mais fãs dos humanos do que dos aparatos cibernéticos que usa como armas. Ele chega a usar corpos humanos para alimentar uma rede neural capaz de produzir uma espécie de matrix, uma fonte de inteligência artificial e de inteligência paralela. Mas não se preocupe se você suspeitar da complexidade desses conceitos. Não é um filme sobre avanços científicos, tampouco uma experiência existencialista sobre nossa dependência àquilo que é mecânico e digital. É apenas um filme de investigação. Um ótimo filme de investigação. Um Édipo Rei numa Tebas cibernética, de direção de arte exuberante. Major Scarlett é o Édipo. A Édipo. A esfinge foi derrotada antes de ela ser criada: a esfinge é a tecnologia que amplia os dotes físicos de mulheres e homens. Mas existe um Mal ali que desafia a vontade dos Deuses e que só será resolvido quando ela puder amar sua Jocasta, conscientemente. Para isso, ela precisa investigar o que existe por trás dos crimes de morte e dos pecados políticos que os motivam.

Pilou Asbaek é o achado do elenco, como Batou

Pilou Asbaek é o achado do elenco, como Batou

Na linha narrativa esboçada com uma competência inquestionável pelo diretor inglês Rupert Sanders (de Branca de Neve e o Caçador), tendo como epicentro o mangá homônimo de Masamune Shirow e o longa animado dele derivado (dirigido por Mamoru Oshii), Major é uma espécie de valquíria impávida, mas sem bandeiras de gênero, bem diferentes das heroínas militantes de Angelina Jolie e Charlize Theron. Há nela apenas a vontade de ser gente e um respeito inquebrantável pelos oficiais e parceiros. Os homens à sua volta não são rivais, são parceiros e a respeitam não por seu corpo ferormonizado, mas por suas habilidades e por sua inteligência. É um filme que prestigia o feminino, sem levantes feministas. É uma opção coerente com a linha percorrida no gibi, mas que pode gerar polêmica pela fetichização afrodisíaca que faz das formas de sua estrela: a femme fatale nº1 de Hollywood hoje. Mas nenhum desejo alimentado pelo filme é gratuito ou erotizado em excesso. Existe uma questão de risco e de perigo a ser solucionado: a investigação é o norte do longa, do começo ao fim. E toda a exuberância de sua plasticidade futurista não é capaz de ofuscar a objetividade do roteiro. Sanders é hábil para não deixar os efeitos especiais soterrarem situações nas quais o diálogo é o eixo da atenção. E há ainda lugar para atuações que possam extrapolar a ação (generosa), como é o caso do parceiro de Major, o dublê de Stallone Sargento Batou, vivido pelo dinamarquês Pilou Asbaek.

O diretor Takeshi Kitano é o chefe de Major

O diretor Takeshi Kitano é o chefe de Major: tributo cinéfilo a um mito do cinema

Entre as muitas virtudes de A Vigilante do Amanhã – Ghost in the Shell, que encobre sob seu glacê sci-fi uma missa fina de dramaturgia policial, uma dimensão cinéfila de homenagem se destaca: a participação de Takeshi Kitano como o chefe Aramaki é um tributo ao veterano ator e cineasta japonês. Falando em sua língua materna, o astro de 70 anos, que trilhou um bushidô muito peculiar como realizador, rouba para si cada cena em que aparece no thriller em tom de ficção científica de Rupert Sanders, dando uma ajuda à tira sintética vivida por Scarlett Johansson. Mais do que um coadjuvante de luxo, seu personagem ganha uma função dinâmica na trama, impelindo Major, a protagonista, a cumprir sua missão de investigar o assassinato em série de médicos e cientistas ligados a criação de construtos mecânicos. Tem até cena de ação para ele estrelar, o que evoca alguns de seus melhores momentos históricos nas telas, uma vez que sua filmografia como realizador é marcada por exercícios de flerte com a violência, tipo Adrenalina Máxima (1993). Ganhador do Leão de Ouro do Festival de Veneza por Hana-Bi – Fogos de Artifício (sua obra-prima), em 1997, Kitano estreou no cinema só atuando, em 1980, e, nove anos depois, começou a filmar. Conquistou prêmios nos mais prestigiados eventos cinematográficos do ano, tendo concorrido à Palma de Ouro em Cannes em 1999, com Verão Feliz, e em 2010, com o capítulo nº 1 da sangrenta trilogia Ultraje. O terceiro tomo da franquia, Outrage: Final Chapter, é um dos títulos mais esperados do ano entre os lançamentos do cinema asiático.

 Produzido ao custo de US$ 110 milhões, A Vigilante do Amanhã – Ghost in the Shell foi idealizado como um protótipo para angariar bilheterias GG, mas seu sucesso potencial vai além dos cofres da Paramount. Seu êxito comercial pode abrir veios mais amplos na relação entre o cinema e as HQs, a partir de uma comunhão possível com os gibis japoneses, convidando para os estúdios hollywoodianos uma nova ética, nova representação comportamental e um conceito de heroísmo menos maniqueísta e mais andrógino do que vemos nos quadrinhos Marvel e DC.

 

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 5