O capitalismo de Ridley Scott cospe ácido

Metáfora política sintonizada com a Era Trump, 'Alien Covenant' incorre em deslizes da vaidade de seu diretor, mas traz o melhor de sua artesania... e o melhor de Michael Fassbender

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10 de maio de 2017

O monstro criado em 1979 volta agora numa trama que apara as arestas deixadas com farpas por "Prometheus"

O monstro criado em 1979 volta agora numa trama que apara as arestas deixadas com farpas por “Prometheus” (2012), o filme anterior desta franquia bilionária 

RODRIGO FONSECA
Somando-se as bilheterias dos cinco filmes da série Alien, mais os dois (desastrosos) derivados nos quais o Predador é o algoz, totaliza-se uma receita de US$ 1,3 bilhão para os cofres os cofres da Fox e da própria ficção científica, que tem do monstro espacial uma mina de ouro, mas também de controvérsia. O quinto longa-metragem da franquia, Covenant, estreia nesta quinta, 11 de maio, com a promessa de virar o mais rentável episódio desse universo drawinismo sobre colonização – e tem fôlego para isso. Afinal, ele traz respostas para questões que nunca foram devidamente bem esclarecidas e consegue uma mistura azeitada de ação e reflexão. Mas o que existe no filme, assinado por Ridley Scott, de mais precioso (ou melhor, de perverso) nestes tempos de Donald Trump no Poder nos EUA – o Estado onde Hollywood se incrusta – é o refinado tratamento que o veterano diretor inglês dá à questão dos “estrangeiros”, das invasões bárbaras, não esquecendo que tudo nesta grife milionária começou com a ideia do oitavo passageiro, ou seja, do intruso de outra nacionalidade.

No filme original, uma obra-prima sci-fi com ecos de terror, uma nave com sete tripulantes se dava conta de um membro número oito, de outra origem territorial, que ali entrava para explorar os “recursos naturais” da embarcação – ou seja, comer e se reproduzir. Eram anos de extrema direita. Era o fim dos anos 1970, encerrados numa ressaca de ideologias e desbundes. Nada mais adequado, portanto, do que um filme carregado da paranoia que ditaria as regras da política nos anos seguintes: invadir sempre que possível; ser invadido, nunca. É um período em que a América vira um porto para os degredados cubanos e para desertores eslavos. Mas qualquer presença “alienígena” é um sinal de alerta. Hollywood e a TV até apostam nos alienígenas “do Bem”, tipo o ET de Spielberg e o Alf, da série homônima, o ETeimoso. Mas mesmo eles são ilegais, causam alarde, mudam regras, quebram normas de conduta. Eram tempos de Reagan. Agora são tempos de Trump. Há semelhanças, vis simetrias. Eis o Alien de volta, para fazer o trabalho sujo de nos lembrar que a ameaça maior é biológica, viva. E, por outro lado, talvez menos visível, indicar que esta “sensação de ameaça” é um traço xenofóbico, racista, talvez até… totalitário(?).

O que conta é que o mesmo Ridley  que pilotou o filme um voltou ao serviço, a fim de mostrar porque seu nome virou sinônimo de sucesso – e de serviços prestados com o máximo de eficiência à indústria. Quando veio Prometheus (2012) havia um desejo de realização pessoal, algo de quixotesco, na busca por uma transcendência poética rara e pura. E havia um quê de recalque em relação ao fato de que um dos filmes de maior culto da série, Aliens, o Resgate (1986), ter sido dirigido por James Cameron, alguém a quem ele vê como um rival. Agora, em Covenant, há ainda algo de pessoal, mas há questões industriais. Porém a vaidade nunca sai de perto.

O cineasta no longa dos anos 1970

O cineasta no longa dos anos 1970

Reza a lenda que o maior ponto fraco de Ridley Scott é sua vaidade, expressa não só pela grandiloquência de suas produções para por um desejo de alcançar um lugar que os cineastas filósofos do cinema (Stanley Kubrick, Terrence Malick) conquistaram pela transcendência de seus cógitos. Não por acaso dizem que Prometheus foi a tentativa dele de fazer um A Árvore da Vida ou um 2001. Mas, na prática, a fragilidade maior do diretor inglês está em seu joelho. Em 2010, quando Robin Hood foi escalado para abrir o Festival de Cannes, ele não teve como comparecer à abertura por conta de uma operação às pressas de sua rótula. Aliás, esta se fez doer em muitos de seus sets, como o de Perdido em Marte (2015), seu último sucesso de público e crítica. A fragilidade de sua integridade óssea já foi manchete de jornal várias vezes, mais até do que sua mão podre para a escolha de projetos: projetos como Hannibal (2001) ou Rede de Mentiras (2008) comprometeram – e muito – sua imagem como campeão de bilheteria e como um realizador refinado. Só não fizeram mais estrago porque – bem assessorado – Scott fez de sua perna bichada um assunto que rendia mais pano pra manga nos jornais do que seus deslizes estéticos. Só nos anos 1990, quando GI Jane – Até o Limite da Honra (1997) saiu, não houve assessor ou publicista que pudesse livrar sua cara, frente a toda a ironia que cercou a versão Rambo de Demi Moore, apesar de as boas cifras que esta Barbie no booty camp arrecadou.

 

Mas os ataques sazonais não dilapidaram o patrimônio milionário que Scott construiu vendendo ingressos e fazendo publicidade, tornando-se um rei dos comerciais. Para ficar só na esfera do cinema, seus longas ultrapassam com frequência a fronteira dos US$ 100 milhões de arrecadação, sendo que alguns obtiveram prestígio tão alto quanto seu faturamento. Foi o caso de American Gangster (2007) e de Falcão Negro em Perigo (2001), projetos nos quais ele exercitou seu belicismo com mais requinte plástico e estofo político. Artesania, ele tem, de modo inquestionável. O problema em relação a Scott é enxergar sua autoralidade. Embora tenha iniciado sua carreira como diretor com três filmes magistrais – Os Duelistas (1977); Alien – O Oitavo Passageiro (1979) e Blade Runner (1982) -, que influenciaram a estética comercial de Hollywood nos anos que os seguiram, ele nunca encontrou para si uma identidade autoral, seja em tema ou em forma, que o pusesse entre os gigantes.

 

Essa dor é a maior do que a se seu joelho.

 

Existe um Scott que domina o realismo com brutalidade e secura (Perigo na NoiteChuva NegraOs Vigaristas) e outro que sai bem no épico, seja na linha da fabulação (A Lenda) seja na trilha da História (Cruzada1492). Mas nenhum deles vai além do âmbito do bom artesão, o que se confirma uma vez mais em Covenant, em especial na dificuldade de se esmiuçar a carga dramática de cada personagem.

alien_covenant_ripley.jpg RS Ridley Scott Alien Covenant

Apesar de causar certa modorra do minuto 20 ao minuto 45, prejudicado por um quarto de hora de edição desencontrada, Alien: Covenant se alterna entre a condição de fliperama e uma instância de reflexão, encontrando um espaço de convivência confortável para ambas as suas naturezas. É, como narrativa o mais elegante e coeso exercício de direção de Scott desde seu seminal Gladiador (2000). E, mais do que isso, é quase uma bula para quem quer entender a série Alien – que, goste ele ou não, tem o terceiro filme, o David Fincher, seu momento de maior transcendência. Mas, comparações à parte, temos aqui um sci-fi interestelar com as características básicas do filão, somadas a muita ação e a um elenco com carisma para fisgar plateias. E temos Michael Fassbender em seu apogeu, dividindo-se em dois papeis, ambos andróides, construindo um vilão capaz de se candidatar à Eternidade. Um vilão de demasiada humanidade, apesar de sua forma metálica. É ele quem, numa tomada de abertura darwinista, dividida entre ele e Guy Pearce, ajuda o público a compreender o equívoco nietzschiano que foi Prometheus. A presença de Fassbender em cena é um bálsamo por injetar humanidade em uma premissa maquínica.  E na presença dele que se resgata o lado político de vermos o alien como um adversário a ser eliminado na corrida expansionista do capitalismo. Não esqueça de que nesta franquia, mocinhos e bandidos trabalham para uma empresa capitalista.

532124-alien-covenant.jpg Slien Alien Covenant

Ainda que seja fragilizado pela construção de personagens em excesso (a maioria sem função outra que não servir de vítima a um mostro cuspidor de ácido), Alien Covenant é uma aventura galáctica com timbre de suspense, estruturada a partir de uma missão de resgate. Na trama, uma nave colonizadora de transporte de passageiros é sacudida por uma tragédia em que seu capitão (James Franco, numa aparição pífia) é morto. A mulher deste, Daniels (Katherine Waterston, ótima e autêntica mesmo quando Scott força fazer dela uma nova Ripley), tem que lidar com a dor da perda e com o comando confuso de um novo timoneiro, o beato Oram (Billy Crudup, cujo fervor religioso não se explica). Esta tripulação desse num planeta colônia atraída por um estranho sinal, de vida. Além de Oram e Daniels, eles contam com as manhas científicas e com a coragem do piloto Tennessee, vivido pelo comediante Danny McBride, o destaque do elenco, capaz de roubar cada cena para si.

 

Neste cenário de estranhas estátuas, fedido a morte, os astronautas vão se deparar com vários aliens, alguns de fisionomia diferente da que conhecemos, mas ainda cheios de ácido. Com os mocinhos vai o robô Walter e lá, entre os ETs, está o também maquínico David, ambos Fassbenders. Lá, o construto que sobrou de Prometheus vai revelar o que existe sob sua pele sintética, numa virada arrebatadora de roteiro, que engorda o filme de platonismo.    

   

 

 

 

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 4