As Aventuras do Lobo Mau

Personagens clássicos em um delicioso jogo cênico cheio de picardia e movimento

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26 de maio de 2017

Um dos assuntos mais polêmicos em nosso segmento é a continuidade ou não na montagem de clássicos da literatura ou contos mundiais. Este é sempre um assunto que preencheu, outrora, folhas e folhas de jornais e ainda hoje continua a ocupar grande espaço na análise crítica contemporânea. Na verdade, o problema nunca esteve em não se montar os clássicos, mas sim, no como se montar os clássicos. O que nos causa grande descontentamento é o desrespeito que centenas de produtores maus intencionados no pais, fazem ao copiar descaradamente, e criminalmente, por assim  dizer, os filmes, a estética, a música e tudo o mais que for possível se apropriar dos Estúdios Disney, Pixar, entre todos que lançam conteúdo infantil, anualmente. Um bom exemplo em como se montar um bom clássico podemos observar na encenação de “As Aventuras do Lobo Mau” da Cia Circo Teatro Sem Lona de Maringá/PR, que encerrou a apresentação de peças do 8o PGE no Mini Guaira. O espetáculo é uma criação de Pedro Ochôa, que também assina a direção, a partir de dois contos adaptados da literatura clássica infantil dos Irmãos Grimm “Chapeuzinho Vermelho” e “Os Três Porquinhos”.

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O cenário é uma ótima síntese de um “cirquinho do interior”. Foto Isabelle Neri.

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Espetáculo utiliza números circenses, como pernas de pau. Foto Isabelle Neri.

A concepção do espetáculo deixa explícito, através do texto de Pedro Ochôa, que as personagens são representados pelos palhaços que utilizam-se de gags e tiradas circenses durante a encenação, sendo encaminhada como uma comédia irreverente por meio de estripulias teatrais com a linguagem circense e o vilão cômico, Lobo Mau, que não se dá bem em suas peripécias e aventuras com Chapeuzinho Vermelho, a Avó e os três Porquinhos. A direção de Pedro Ochôa é bastante precisa e bem orquestrada, tendo ele mesmo um papel de grande destaque na peça e no andamento de seu timming, onde ele representa um palhaço mau humorado, em uma espécie de narrador, dono do circo, dono das ações e das partituras físicas e musicais. Muito bem apoiado por um elenco competente – Andressa Soares, Daniele Pasquini, Pedro Henrique Daniel -, que dá vida aos personagens clássicos com um delicioso jogo cênico cheio de picardia e movimento. O cenário é uma ótima síntese de um “cirquinho do interior”, cheios de cores em suas cordas trançadas, bem funcional no seu ótimo jogo de sair e entrar, de abrir e fechar cortinas, de subir e descer, de esconder e aparecer. Muitos verbos de ação que tornam esse projeto bastante encantador e recheado de originalidade e boas execuções, como também a música incisiva realizada ao vivo por Ochôa, que toca uma sanfona acordeon, uma caixa e utiliza um apito em marcação. É um trabalho bastante audacioso que dialoga muito bem com a plateia e com ambientes abertos, como a rua, devido o seu caráter sarcástico e popular, no melhor sentido da arte circense milenar nos teatrinhos realizados entre as atrações principais, ou em números a frente de cortinas fechadas, nos “intermezzi”. Números circenses da arte da palhaçaria e dos saltimbancos, a partir de uma variedade de habilidades e que são lapidados permanentemente, em apresentações atemporais, com forte comunicação e que aproximam o público instaurando um clima de festa coletiva, e explora principalmente a linguagem da comicidade.

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Ochôa, toca uma sanfona acordeon, uma caixa e utiliza um apito em marcação. Foto Isabelle Neri.

Ficha técnica

Direção e texto: Pedro Ochôa.

Atores: Andressa Soares, Daniele Pasquini, Pedro Henrique Daniel e Pedro Ochoa

Iluminação e técnica: Rafael Ochôa

Música e cenário: Pedro Ochôa.

Duração: 50min

Classificação – Livre

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 4