O iluminado Idris Elba no universo de Stephen King

Astro londrino de descendência africana se alinha com a tendência dos 'difficult men' da ficção ao compor um herói coxo em 'A Torre Negra'

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26 de agosto de 2017

Um dos melhores atores da atualidade, Idris Elba encarna Roland, último dos Pistoleiros de um mundo em decadência, assolado pelas Trevas

Um dos melhores atores da atualidade, Idris Elba encarna Roland, último dos Pistoleiros de um mundo em decadência, assolado pelas Trevas

Rodrigo Fonseca
Reduzido ao rótulo de fracassado, em função da pífia bilheteria que angariou mundo afora, A Torre Negra passou a visto com desdém – injustamente, dada a potência nem sempre transformada em ato que demarca sua narrativa e seu ethos – o que dificultou a chance de transformar Idris Elba num astro de popularidade à altura de seu talento. Ele assumiu um papel originalmente oferecido a Javier Bardem. Não restam dúvidas, desde quando Beasts of No Nation (2015) ganhou a grade da Netflix, de que este britânico afro-descendente de 44 anos – cujo pai vem de Serra Leoa e a mãe, de Gana – é um dos maiores atores da atualidade. Já houve até boato de que ele seria o novo 007. Mas o prestígio de que ele desfruta (por mérito) ainda não se converteu em visibilidade. A adaptação da série de livros de Stephen King (convertidos em HQs com o traço expressionista do gênio Jae Lee), dirigida pelo realizador dinamarquês Nikolaj Arcel (de O Amante da Rainha) a partir de um orçamento de US$ 60 milhões, foi feita para alçá-lo a um outro patamar. Mas a ambição do mercado não concretizou-se, uma vez que a arrecadação global desta produção – rodada em locações na África do Sul e em Nova York – mal arranhou US$ 73 milhões. Porém, números (ainda) não compram excelência, coisa que esta trama fantástica sobre perseverança apresenta.

Matthew McConaughey esbanja carisma na pele do bruxo Walter

Matthew McConaughey esbanja carisma na pele do bruxo Walter

Fiel ao universo sombrio (de cerne realista, quase cronista) de King, que já inspirou O Iluminado (1980), Christine, o Carro Assassino (1983) e outros cults, A Torre Negra é centrado num trâmite entre dois mundos, o nosso e um outro, apocalíptico, no qual uma classe de guerreiros chamada de Pistoleiros tenta impedir a invasão da força das trevas. Existe uma construção (a tal torre) que coíbe esse avanço dos infernos, mas um feiticeiro astucioso, Walter (Matthew McConaughey, numa atuação primorosa), reúne meios de debelar o Bem e enfraquecer esse monólito de proteção da Realidade. O que segura o avanço de Walter é a pontaria infalível do último pistoleiro, Roland (Elba, que tem carisma pra dar e vender). Mas algo vai complicar a vida do herói: o fato de que Walter rastreia um adolescente paranormal, Jake (Tom Taylor), capaz de sentir o que se passa no universo da magia. Assim, cabe ao vigilante defender o guri.

Esse enredo se desenrola com tensão e pulsão trágica. Trágica até demais para algo que se vendia pela chave do pop. Esse espírito de tragédia é acentuado pela direção de fotografia de Rasmus Videbæk (de Desajustados), que, erroneamente, aposta numa tinta mais expressionista do que a linha visual que a narrativa pede. Estamos diante de um fliperama, um filme de tiro, baseado nos feitos bélicos de Roland e nas magias de Walter. Não haveria porque carregar tanto na mortalha. Porém, apesar desse deslize, fica uma discussão possante sobre estratégias de conjugação do verbo “sobreviver”, sob a chave da exclusão.

Com a eficiência habitual, Elba compõe Roland sintonizado com o padrão de fratura do chamado difficult men, o “homem coxo”, conceito contemporâneo para definir o emasculamento que marca a representação do masculino na ficção contemporânea. O herói do momento é o herói fragilizado, ferido, carcomido na onipotência clássica da masculinidade, como se viu no memorável Logan ou em O Regresso (2015). Roland é um filho do fracasso, que usa seus ferimentos como dramaturgia de humanização.

 Nas cópias de A Torre Negra com versão brasileira, Ronaldo Júlio dubla Idris Elba (aliás, esplendidamente) e Duda Ribeiro empresta a voz a McConaughey.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 3