Raul, Lira e o Incrível Livro de Capa Azul

Projeto apresentado no 10o FENATIFS não pode ser catalogado como peça de teatro, mas sim, como uma aula de artes mal dramatizada

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07 de outubro de 2017

Existem projetos que nós nos perguntamos o porque de eles serem realizados. Assim é a peça Raul, Lira e o Incrível Livro de Capa Azul, da CazAzul Teatro Escola, de Vitória da Conquista/BA, que foi apresentada no dia 05.10 às 14h30min no Teatro Margarida Ribeiro. A peça conta a história de Raul e Lira, que são primos, e que ficam na casa da avó enquanto suas mães trabalham. Os dois passam muito tempo conectados a TVs e jogos. Um dia, quando a internet para de funcionar, eles encontram no baú da avó um incrível livro de capa azul. O que será que há dentro do misterioso livro sem título? Quase nada. Infelizmente o que encontramos na encenação, e dentro do baú, é uma excelente aula de tudo aquilo que não deveríamos fazer jamais no teatro para a infância e juventude. Uma clara construção de uma relação mal estruturada entre a educação e as artes cênicas. Onde a peça se coloca em uma posição de aula, de ensinamento didático-pedagógico, tratando a plateia como alunos com necessidades especiais, e buscando ensinar da forma mais impositiva possível uma pretensa história sobre um livro de capa azul. O tom é tão professoral, tão exagerado, tão artificial, que nos causa muito mais desconfortos, do que interesses, em assistirmos a uma história repleta de esteriótipos, de descrições físicas e faciais de praticamente todas as palavras, frases, e assuntos abordados, que ampliam a décima potência todos os gestos e sentimentos. Como que fosse preciso usar a palavra, a voz, o corpo, para dizer cada uma das coisas; e isto tudo ao mesmo tempo. Tornando todos os momentos em movimentos lentos e arrastados. Além de tratar toda a plateia como se estivéssemos em uma tarde recreativa de uma festa de aniversário infantil; com direito a roupas e adereços coloridos, brilhos, músicas ao vivo, bichos de espuma, livro colorido, e um equipamento de fazer bolhas de sabão.

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Os atores em cena de “Raul, Lira e o Incrível Livro da Capa Azul”.

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A cenografia é singela e desprovida de objetos com vigor e teatralidade.

Desta maneira, podemos crer que peças como estas, ao estarem em um festival tão importante como o 10o FENATIFS, só podem ter a função de um franco intercâmbio entre o bom e o mau teatro, entre os artistas e os aprendizes em fase de formação, ou já estabelecidos como um teatro institucional ou comercial. O que torna a missão de um crítico teatral especializado bastante séria e responsável em ordenar cada uma dessas caixinhas que movem o universo da arte. Sendo uma tarefa muito inglória para nós, assistirmos aos maus usos e as transformações, que a arte sofre a cada ano, nesta divisão de interesses e sub-produtos. Este também deve ser o papel de um importante festival! Ser o balizador das novas tendências de nossas artes cênicas brasileiras.

 


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