‘Suspiria’ racha opiniões em Veneza, mas mantém o terror no páreo do Leão de Ouro

Numa mescla rara de ousadia e elegância, a livre releitura de Luca Guadagnino para o cult de Dario Argento arrancou vaias e aplausos na competição italiana

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01 de setembro de 2018

7 Suspiria

Rodrigo Fonseca
Que bem faz “Suspiria”, de Luca Guadagnino, ao olhar, ao coração, à nova linhagem do terror e ao esforço que o Festival de Veneza .75 faz para se consagrar como a vitrine autoral mais forte de 2018 na seara das grandes mostras competitivas do mundo: coragem é a palavra para definir o que o diretor de “Me chame pelo seu nome” nos apresentou. Coragem e elegância. Ah… coragem, elegância e Tilda Swinton, divando no papel de uma coreógrafa cercada de bruxas e de aspirantes a estrelas. É uma releitura do cult homônimo de Dario Argento, feito em 1977. Fã de Argento, Guadagnino extraiu dele sua essência, mas libertou-se do original, aloprando ao máximo nas alusões aos horrores do Real e à estética italiana da década de 1970. Teve vaia e teve aplauso (aos quilos) para este atestado da ousadia de Luca, que mexeu com os brios de Veneza. Argento deveria sentir orgulho: o remake dá medo. Faz pensar (em muita coisa). E tem uma aeróbica de câmera que foge da obviedade. Temos, nele, o “mãe!” de 2018. Só que “Suspiria” traz uma delicadeza que não cabe em Darren Aronofski. Talvez nem caiba neste mundo. Daí sua aposta sangrenta no Transcendente. É um filme sobre os rituais que nos cercam, por vezes ocultos sob vestes finas de grife. Dakota Johnson (perfeita) é a dançarina que vai ser acossada pelo Além – ou quase – enquanto a responsável por sua coreografias (Tilda, sublime) tenta conter os excessos de brutalidade das arcanas que trabalham com ela em sua academia de dança.

Uma vez que o presidente do júri do Leão de Ouro deste ano é um artesão do terror – no caso, o mexicano Guillermo Del Toro -, as chances de Guadagnino ser premiado aqui aumentam. E seria merecido de o felino dourado ficasse com ele: seu “Suspiria” é um experimento radical de narrativa. Um experimento que conversa com plateias de forma mais aberta do que muito trabalho de autor. Um experimento que reforça a densidade filosófica do cinema horrífico, dando ao filão uma potência plástica raras vezes por ele alcançada. Seu rival maior é “ROMA”, de Alfonso Cuarón, que revive a vida no México nos anos 1970, a partir do olhar de uma empregada doméstica ameríndia.

Também deve sobrar prêmio para “Peterloo”, do bruxo inglês Mike Leigh, laureado com o Leão do Lido com “Vera Drake”, em 2004. Disse ele: “Uma das maiores fragilidades em relação à Democracia hoje é o fato de que as pessoas insistem nas perguntas óbvias acerca da exclusão, sem se dar conta do colorido que a desigualdade social tomou. É só ver o drama dos refugiados políticos. Por isso, eu não filmo com base na nostalgia, porque precisamos renovar as dúvidas, as perguntas. Eu filmo preocupado em compreender as pessoas”, lacrou o cineasta, ao falar de seu antiépico histórico. O filme é a recriação de um massacre ocorrido nas ruas de Manchester, em 1819, para abafar lutas democráticas.

La locandina del film Camorra che sarà in concorso alla 75ma edizione della Mostra Internazionale d'Arte Cinematografica a Venezia. La Biennale Cinema, si svolgerà al Lido di Venezia dal 29 agosto all?8 settembre, Roma 22 agosto 2018.   ANSA/US KINOWEB   +++ ANSA PROVIDES ACCESS TO THIS HANDOUT PHOTO TO BE USED SOLELY TO ILLUSTRATE NEWS REPORTING OR COMMENTARY ON THE FACTS OR EVENTS DEPICTED IN THIS IMAGE; NO ARCHIVING; NO LICENSING +++

Tem uma leva documental muito irregular em Veneza este ano, com destaque para “Your face”, do taiwanês Tsai Ming-Liang (“O buraco”) em sua investigação sobre rostos e suas solidões. Mas, neste sábado, o Lido conferiu o melhor de todos os documentários apresentados em seu cardápio do ano até o momento: “Camorra”, de Francesco Patierno. Pautado numa estrutura investigativa toda calcada em imagens de arquivo, o longa viaja pela História, de 1960 a 1990, com foco em Nápoles e a construção da célula mafiosa local, em resposta à pobreza e ao êxodo rural. Numa sequência de deixar plateias boquiabertas, o filme resgata uma entrevista de um menino de 5 anos que passa os dias a vender cigarros para garantir o sustento de seus parentes, num ambiente de violência explícita. Noutra passagem, um adolescente explica que o desejo de matar o pai o levou a enxergar na Camorra um porto seguro. A faquinha que ele carrega no bolso é uma proteção.