‘Domingo’ cai nas graças de Veneza

Filme brasileiro ambientado no réveillon de 2003, pré Lula, arranca elogios nas conversas de corredor do Lido

por

01 de setembro de 2018

Domingo é dirigido por Clara Linhart e Fellipe Barbosa e está na mostra Venice Days

Rodrigo Fonseca
Mesmo esnobado pela competição em torno do Leão de Ouro, o cinema brasileiro tem se saído bem no Festival de Veneza, com bons elogios por aqui, que começaram levantando a bola de “Deslembro”, de Flavia Castro, e de sua atriz, Sara Antunes. Mas, na manhã deste sábado, um outro título nacional ganhou loas da imprensa local. Um repórter romano classe AA interpelou o Almanaque Virtual atrás de mais informações acerca de uma “comédia muito ácida e divertida sobre a alta classe média do Sul do Brasil”. Mais tarde, em um par de papos de corredor, ouvi uma pergunta parecida. A “comédia” em questão é “Domingo”, que terá sua sessão de gala por aqui neste domingo. Numa troca de dicas, um grupo de críticos estrangeiros apontava o longa-metragem como um dos achados do Lido em 2018. Trata-se de um trabalho assinado por Clara Linhart e Fellipe Barbosa, dupla por trás do premiado réquiem “Gabriel e a montanha” (2017). Escolhido como atração de abertura do 51º Festival de Brasília (14 a 23 de setembro), a produção foi definida pela revista “Variety” como uma “mirada íntima de uma comemoração de Ano Novo de uma família burguesa, às vésperas da posse de Lula, em 2003”, elogiando seu elenco feminino. Eis o link: https://variety.com/2018/film/festivals/fellipe-barbosa-clara-linhart-venice-days-domingo-1202924186/. Ítala Nândi, Camila Morgado e Martha Nowill integram a trupe de interpretes escolhidos por Clara e Fellipe.

“Eu estou muito feliz de levar ‘Domingo’ à Veneza um ano depois de levarmos ‘Gabriel…’ a Cannes. Também estou feliz de reencontrar um colega de mestrado, Bassam Jarbawi, que levará seu primeiro longa, ‘Screwdriver’, à mostra Venice Days, na mesma competição que a gente”, comemora Clara, em email ao JB. “Estou feliz ainda por reencontrar Sameh Zoabi, outro grande amigo de mestrado que estará na Orizzonti com ‘Tel Aviv On Fire’, filme co-escrito por Dan Kleinman, que foi meu professor de roteiro. Finalmente muito feliz pela seleção de ‘Deslembro’, de Flávia Castro, cineasta brasileira que admiramos muito, aqui para Veneza”.

Um dos roteiristas mais disputados do país na atualidade, Lucas Paraíso (de “Aos teus olhos”) dá um toque particular à trama dirigida por Clara e Fellipe, num ambiente de tensão familiar. A fotografia é assinada por Louise Botkay.

A boa gringa deste sábado aqui é “Camorra”, de Francesco Patierno. Pautado numa estrutura investigativa toda calcada em imagens de arquivo, o longa viaja pela História, de 1960 a 1990, com foco em Nápoles e a construção da célula mafiosa local, em resposta à pobreza e ao êxodo rural. Numa sequência de deixar plateias boquiabertas, o filme resgata uma entrevista de um menino de 5 anos que passa os dias a vender cigarros para garantir o sustento de seus parentes, num ambiente de violência explícita. Noutra passagem, um adolescente explica que o desejo de matar o pai o levou a enxergar na Camorra um porto seguro. A faquinha que ele carrega no bolso é uma proteção.