A poética do contágio moral

De uma potência trágica avassaladora, 'Ferrugem' refina as reflexões de Aly Muritiba sobre a Moral

por

07 de setembro de 2018

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Rodrigo Fonseca

Uma sequência – um ex-casal fala sobre as escolhas que fez (ou tentou fazer) e discute sobre a situação do filho adolescente que ainda os une – já é o bastante para tornar FERRUGEM, de Aly Muritiba, um dos mais corajosos enfrentamentos da solidão já feitos pelo nosso cinema. É um drama precioso por injetar frescor em uma dinâmica de aparência fria: na trama, vemos dois lados do drama de uma jovem que teve sua intimidade exposta na web. Claro que o fato de o tal ex-casal ser vivido por forças dramáticas como as de Clarissa Kiste e Enrique Diaz ajuda muito. É um longa que não tem medo de ator. Porém há mais do que isso nesta história sobre “contágio”: há uma autoralidade que corre pelos veios do que existe de mais perigoso na condição humana. Que perigo é? Trata-se daquela tal de Moral.
Temos, na fina direção, um Muritiba em depuração de seu estilo, refinando o que já nos dera de bom no febril “Para minha amada morta” (2015). E temos, na fotografia, o bruxo da luz, Rui Poças, brincando com o realismo maia seco. O que fica é um dos filmes nacionais de maior potência trágica dos últimos anos. Gramado premiou bem ao fazer dele o detentor do deus sol dos Pampas, o Kikito. Revelado ao mundo em Sundance, a produção vai tentar a sorte em San Sebastián, na Espanha, no fim de setembro.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 5