Uma obra-prima portuguesa… com certeza

Laureado pela crítica em Cannes, em 2017, 'A Fábrica de Nada' enfim vai estrear no Brasil, trazendo para o país uma reflexão sobre a orfandande política de uma Europa em crise

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13 de setembro de 2018

Pedro Pinho A Fábrica de Nada

Rodrigo Fonseca
Tem cinema português (e dos bons) chegando ao circuito brasileiro: a Imovision vai lançar “A Fábrica de Nada”, de Pedro Pinho, cerca de um ano e meio depois de sua consagração no Festival de Cannes. É uma mistura de gêneros e de indicações em nome do sucateamento moral dos novos tempos. Estreia dia 27 de setembro, com seu debate sobre a orfandade política do Velho Mundo em relação aos discursos metanarrativos dos séculos XIX e XX (marxismo, anarquismo, liberalismo).

Embora não dispute a Palma de Ouro desde 2006, quando “Juventude em Marcha”, de Pedro Costa, deixou marcas de contemplação e reflexão social marcadas nas retinas da Croisette, Portugal não ficou de fora dos 70 anos de Cannes, em 2017. Não haveria como a festa mais nobre do cinema autoral do mundo ficar sem um traço da autoralidade lusa. E o representante  português de então acabou laureado com o prêmio da Fipresci, a Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica. Exibido na Quinzena dos Realizadores de 2017, “A Fábrica de Nada” é um exercício de ativismo de Pedro Pinho. Trata-se de uma produção de quase três horas de duração, misturando musical, realismo social, perplexidade e humor vem marcar a presença de nossa antiga metrópole na Croisette.

Há quem diga que o longa-metragem foi a experiência de linguagem mais ousada do evento em 2017, entre os quase 400 filmes selecionados pela curadoria cannoise. Diretores lusos sempre tiveram boa sorte nessa seção paralela à briga pela Palma. Foi lá que nasceu o épico cítrico e crítico “As 1001 Noites”, de Miguel Gomes, em 2015. O exercício narrativo de Pinho pode ter uma linha tão livre e anárquica quanto a de Miguel. Ou pode, no mínimo, provocar tanto quanto ele provocou em Cannes, com sua aposta em “não-atores”, que não tiveram acesso ao roteiro – Pinho escreveu todas as falas, mas conversou com cada um de seus “intérpretes” separadamente, de modo a criar um rodízio de surpresas ao longo das filmagens.

Os operários de uma fábrica que produz "angústias"

Os operários de uma fábrica que produz “angústias”

Em “A Fábrica de Nada”, um grupo de operários se encrespa com a administração de sua indústria (de elevadores) ao percebe que alguém da gerência está roubando máquinas e matérias-primas. Incomodados, eles fazem um levante, que tem um ônus: todos serão obrigados a permanecer em seus postos, sem nada para fazer, enquanto prosseguem as negociações para uma demissão coletiva. No ócio, acontecimentos e ritos nada usuais tomam conta do lugar.

Uma frase dele é digna de anotação e discussão: “O mundo não se divide mais entre Direita e Esquerda, mas sim entre aqueles que se submetem e aqueles dispostos a abrir mão de seus sonhos, dos telefones celulares, das viagens à Lua”. Na mistura de tudo e mais um pouco, nasce uma obra-prima.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 5