Uma presa que desafia o lugar comum

Boyd Holbrook se firma como herói, à altura de Schwarzenegger, em 'O Predador', novo tomo da franquia iniciada em 1987, agora repaginada por um expert em dramaturgia de ação: Shane Black

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14 de setembro de 2018

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Rodrigo Fonseca
Fruto da virtuosa artesania de John McTiernan no corpo a corpo com a cartilha do cinema de ação, “O Predador” (1987) caiu como um colírio em olhos já saturados pela profusão de filmes de “exércitos de um homem só” que se repetiam na década de 1980, na ambição por um novo “Rambo”. Fez seu nome, nas bilheterias globais, à força de US$ 98 milhões. Ao buscar na ficção científica (e no espaço) um diferencial para aventuras de soldados armados, aquela produção de US$ 15 milhões, com a grife Fox, tornou-se um sucesso de bilheteria (não foi um fenômeno, mas teve polpuda arrecadação). Abriu ainda espaço para uma franquia que nunca seguiu por uma linha ascendente, tropeçando num esforço de autorrenovação. A continuação nº 1, com Danny Glover, saiu no fim de 1990 e arrecadou só US$ 57 milhões. Uma década e meia depois vieram os dois (indigentes) longas-metragens “Aliens vs. Predador”, numa colisão dos dois ETs da Fox, que faturaram US$ 172 milhões e US$ 128 milhões. Depois, em 2010, Robert Rodriguez quis reciclar a marca e produziu “Predadores”, que fez lá seus US$ 127 milhões mas sofreu com deboches da crítica e dos haters nerds por sua releitura demasiadamente livre. Diante de todo esse percurso, e de tantos percalços, o que Shane Black, o diretor do blockbuster GG “Homem de Ferro 3” (2013), tem a nos oferecer de novo, revirando a ideia da sobrevivência de espécies e da adaptação? Vendo o novo filme, “The Predator”, a resposta é: “Muito!”.

Apesar da canhestra fotografia de Larry Fong (“300”), piorada nas projeções em 3D, o novo tomo da série – ainda centrada em caçadores intergalácticos de presas em conflito – dá a seus espectadores algo que Hollywood tem cada vez mais dificuldade de oferecer: um herói com tridimensionalidade. Revelado na série “Narcos”, Boyd Holbrook faz do sniper Quinn McKenna um personagem à altura do legado de Schwarzenegger, o primeiro rival do Predador. Apesar da silhueta franzina, Holbrook compensa em carisma o que lhe falta em musculatura, criando um guerreiro que se impõe mais pela determinação do que pela truculência. Mas alguém com a retidão dos cruzados da justiça da década de 1980, a quem Black presta uma homenagem em sua forma agridoce de narrar, alternando riso e adrenalina.

Boyd Holbrook nas garras de um caçador do espaço

Boyd Holbrook nas garras de um caçador do espaço: carisma é sua arma

Um dos mais potentes atores dos EUA na atualidade, Sterling K. Brown (o Randall de “This is us”) faz a contraparte de McKenna, no papel de um abominável representante das Forças Armadas que deseja deter o avanço dos Predadores sobre a Terra, estudando estratégias dos que aqui estiveram antes. Ele é a medida terrena da corrupção, que garante ambivalências e tensões ao papel dos seres humanos num tabuleiro de xadrez no qual as peças que importam mais vieram de outro planeta. Há um Predador em fuga e há outro, mais evoluído, no rastro dele. Nosso planeta há de pagar um preço por virar cenário para o ódio deles.

Nisso, o filme é feliz: mestre na dramaturgia desde seus tempos de “Máquina mortífera” (1987), Shane cria um espetáculo em que as inquietações humanas contam tanto quanto a pirotecnia. A batalha pessoal de McKenna, para salvar o filho com Asperger (Jacob Tremblay, de “Extraordinário”) e para fazer um réquiem (em forma de vingança) para seus colegas de farda mortos, é tão ou mais poderosa do que as sequências de perseguição e de combate que elevam temperatura e pressão da plateia. A sequência final é especialmente memorável, assim como a cena de o Predador mastigando um inimigo do alto.

Prevalece a tensão, mas sem comprometer a reflexão, acerca da lealdade (representada pelo time de esquisitões que vai se juntar a McKenna) e acerca do saldo moral inerente ao ator de evoluir. O Predador voltou com força pra ficar, comprovando que Shane é um cineasta de inestimável valor, com filmes preciosos como “Dois caras legais” (2016) e “Beijos e tiros” (2005) em seu curto currículo como realizador. Ninguém dirige violência como McTiernan, que fez o (hoje) cult de 1987, mas o novo ensaio da Fox sobre predatismo tem fôlego e tutano para se distinguir de seus concorrentes pop na briga pelos dólares do público. Em tempos de “A freira”, terror arrebatador que domina a venda de ingresso, a presença de McKenna em cena renova um cenário dominado pelo Mal, em sua representação mais fantasmagórica. McKenna é super-herói de carne, osso e simpatia. Coisa que o velho Arnoldão sempre simbolizou.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 4