O ‘Bete Balanço’ da Rússia sacode San Sebastián

Musical sobre a cena roqueira da URSS, 'Leto', produção em P&B aclamada em Cannes, tentará sua sorte no festival espanhol, que concedeu um troféu honorário ao ator e diretor Danny DeVito

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23 de setembro de 2018

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Rodrigo Fonseca
San Sebastián tem emocionado a Espanha de múltiplas maneiras desde a abertura da 66ª edição de seu festival anual, na sexta, com “El amor menos pensado”, comédia romântica de Juan Vera, com o muso argentino Ricardo Darín. O pico da emoção, até agora, envolveu a homenagem ao ator e diretor Danny DeVito, o eterno Pinguim. Ele está hoje com 74 anos e foi homenageado com o troféu honorário Donostia pelo conjunto de sua carreira, iniciada em 1970. Seu trabalho mais recente, a animação “PéPequeno”, na qual ele entra na trupe de dubladores, integra o cardápio infanto-juvenil do evento, que, nesta segunda, vai se comover à moda russa. Ainda é dia de rock na Rússia, como comprova o exuberante “Leto”, sensação do último Festival de Cannes. Na Croisette, nem mesmo o crítico mais ferrenho à estética pop manteve o prumo e o azedume diante da narrativa roqueira memorialista do diretor Kirill Serebrennikov. Acusado e preso por malversação de verbas públicas, Kirill não foi liberado para participar de Cannes e não pôde testemunhar o fenômeno que seu novo filme, “Leto” no original (“L’Éte” em francês), virou em solo francês, embora tenho sido esnobado nas premiações.

Este musical eslavo pode ser definido por nós como “o Bete Balanço da Rússia”. Em Cannes, ele ganhou corações – por sua emotiva reconstituição dos anos 1980 – e mentes também – sua fotografia é de um requinte plástico arrebatador. Sua trama relembra um tempo em que o rock’n’roll era revolução. A projeção para a crítica mundial, ontem, terminou com choro, ovação e pezinhos batendo ao som de “Psycho killer”, dos Talking Heads.

Batizado em referência a uma canção (traduzida em Português como “Verão”), “Leto” revive a saga do compositor e roqueiro soviético de origem coreana Viktor Tsoi (1962-1990), cujas letras serviram de bandeira para uma geração que cresceu vendo a URSS se esfacelar. Suas cifras flertam com a liberdade, cantada com ecos punk à la Ramones por sua banda, Kino. Ele foi “o” poeta de Leningrado, o Leningrado do R-Rock, o roquenrol russo. Conhecido na Europa pelo cult “O discípulo” (2016)., Krill, que nasceu em 1969, ouviu Tsoi em sua juventude e levou os ideais do músico para seu cinema e para os palcos, onde militava à frente do Centro Gógol de Teatro Contemporâneo até ser preso, em agosto, no fim das filmagens da saga de Viktor. A acusação – uso indevido de verbas públicas – não foi comprovada, o que deflagrou uma campanha em Cannes (com bótons e camisetas) por sua libertação. O diretor artístico do evento, Thierry Frémaux, pediu um induto ao presidente Vladimir Putin para que ele fosse liberado para participar da sessão de gala de “Leto”. A resposta: “Seria um prazer ajudar Cannes, mas, na Rússia, a justiça é independente”.

Mas espera-se que a passagem de “Leto” por San Sebastián, nesta segunda, seja um acontecimento. Sintonizado com o contexto de repressão da URSS a influências pop dos EUA, o longa faz jus à irreverência de sua época numa narrativa leve, porém abusada, com muitas deixas para o humor e para suspiros, pois há uma trama romântica entre Viktor e a mulher de um colega, interpretada pela ótima Irina Starshenbaum.

O Brasil participa do festival espanhol com longas como “Los silêncios”, de Beatriz Seigner, e “Ferrugem”, de Aly Muritiba, além das coproduções “Sueño Florianópolis”, de Ana Katz, e “As herdeiras”, de Marcelo Martinessi. Entre as atrações estrangeiras mais esperadas das seções paralelas à briga pela Concha dourada de 2018, destacam-se ‘Capharnaüm”, de Nadine Labaki; “Infiltrado na Klan”, de Spike Lee; “Cold War”, de Pawel Pawlikowski; “The Sisters Brothers”, de Jacques Audiard; e “Roma”, do mexicano Alfonso Cuarón (filme ganhador do Leão de Ouro em Veneza).
O Festival de San Sebastián segue até o dia 29 de setembro.