Humor à maneira alemã

Estrelado pela Audrey Hepburn germânica, a atriz Sandra Hüller, a comédia 'In the aisles' reforça a potência do novo cinema da Alemanha nas telas do BFI - London Film Festival

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13 de outubro de 2018

In the aisles alemão

Rodrigo Fonseca
Berlim vai emprestar toda sua poesia concreta às telas do BFI – London Film Festival nesta terça, quando o (estonteante) filme de terror “Suspiria” for projetado aqui, confirmando o rigor plástico do cineasta italiano Luca Guadagnino, o que não significa que os alemães não estejam retratando seu próprio país na seleção de longas-metragens importados pelo evento britânico. Neste sábado, uma iguaria germânica coroada no Festival de Berlim com o Prêmio do Júri Ecumênico, arrancou gargalhadas e suspiros dos ingleses “In the aisles”, de Thomas Stuber. Sua projeção se deu tarde, diluindo a sacarose produzida nas veias inglesas pela sessão do irregular (mas necessário) folhetim antidrogas “Querido menino” (“Beautiful boy”), com Steve Carell e Timothée Chalamet. Este foi projetado aqui cedinho, fazendo muita gente chorar, mesmo sendo travado em sua relação com a dor, ao recriar a luta real de um jornalista da revista “Rolling Stones” para curar o filho do vício. O longa alemão é menos “carregado”.

Embora ande se renovando por uma nova onda de comédias, como “Toni Erdmann” (2016) e a ainda inédita “Wild mouse”, o cinema germânico (inclua a Áustria aí) perdeu aquela estética suarenta e porosa que tinha nos tempos de maior ebulição e de autocrítica (idos dos anos 1970) do saudoso Rainer W. Fassbinder (“O medo consome a alma”, ‘Lili Marlene”) e do ainda ativo Werner Herzog (“Aguirre”). Imperam ainda por lá narrativas acadêmicas sem turbulência, mais factuais que sensoriais, com exceções aqui (“A vida dos outros”) e acolá (a obra recente de Christian Petzold, de “Barbara”). Porém, vez por outra, pintam surpresas como “In the aisles”, que recicla a veia cômica de sua nação nas telas.

“Parecemos duros e secos, mas sabemos fazer rir. A comédia está renascendo na Alemanha, ainda de que uma maneira particular, sem um ‘Hahaha! rasgado, cheio de piadinhas. Nós apontamos mais para conflitos internos que reflitam nosso lado mais patético”, disse o diretor Thomas Stuber ao Almanaque Virtual na Berlinale.

O quase casal vivido por  Sandra Hüller e Franz Rogowsk rendeu a "In the aisles" o Prêmio do Júri Ecumênico da Berlinale

O quase casal vivido por Sandra Hüller e Franz Rogowsk rendeu a “In the aisles” o Prêmio do Júri Ecumênico da Berlinale 2018: a dupla também faz sucesso no Festival de Londres

Seu “In the aisles” é protagonizado pela Audrey Hepburn da Alemanha, Sandra Hüller, do já citado “Toni Erdmann” (2016), que volta aqui numa agridoce história de amor. Ela vive uma funcionária do setor de doces de um supermercado que acaba atraindo o desejo e o amor de um novo funcionário, o silencioso Christian, vivido por Franz Rogowski, o astro do momento em terras germânicas. “Somos práticos e econômicos no set: na direção, Thomas é um sujeito de poucas palavras. Isso nos deu muita chance de inventar”, disse Rogowski.

Neste sábado, o BFI – London Film Festival confere um terror à moda brasileira: “Morto não fala”, de Dennison Ramalho (“Ninjas”). Daniel de Oliveira é o protagonista: um sujeito com a habilidade de ouvir os lamentos de defuntos. Sua trajetória por mostras de cinema fantástico pelo mundo afora vem sendo coroada de elogios.

"Aquarela" gera sinestesia ao observar o fluxo poético das águas do planeta

“Aquarela” gera sinestesia ao observar o fluxo poético das águas do planeta

Para domingo, a pedida número um dos dia é o deboche contra Donald Trump preparado por Michael Moore na forma de documentário “Fahrenheit 11/9”, no qual o cineasta repete os procedimentos críticos usados em “Fahrenheit 11 de Setembro”, coroado com a Palma de Ouro em 2004, por seu ataque contra George W. Bush. O único documentário mais badalado aqui do que o de Moore é a experiência sensorial e ecológica “Aquarela”, na qual o diretor Victor Kossakovsky promove uma espécie de ensaio sinestésico sobre a dinâmica das águas do planeta.

“Entendo cinema como arte. Não faço filmes sobre assuntos específicos: aquecimento global, política. Eu faço um filme como este entendendo a água como tinta no pincel, direcionado por um poder emocional, de fusão”, filosofa Kossakovsky. “Cinema não nasceu para fazer teses políticas e sim para explorar os sentidos”.

Cinebiografia da dupla O Gordo e O Magro, “Stan & Ollie” vai encerrar o evento londrino no dia 21, quando serão revelados os vencedores. Até agora, entre os concorrentes de ficção, “The old man and the gun”, com Robert Redford na pele de um veteraníssimo assaltante de bancos, é o mais cotado para prêmios. Na véspera do encerramento, dia 20, os ingleses vão matar as saudades de “Pixote – A lei do mais fraco” (1981), de Hector Babenco, projetado aqui na seção Treasures, dedicada a reprisar clássicos.