Denys Arcand, o bárbaro

Cerca de 15 anos após o fenômeno 'As invasões bárbaras', o cineasta canadense retoma seu olhar crítico sobre a falência moral das utopias sociais com 'A Queda do Império Americano', uma das atrações do Festival do Rio 2018

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28 de outubro de 2018

The_Fall_of_the_American_Empire_poster A queda do Império Americano Denys Arcand7 Denys Arcand A Querda

Rodrigo Fonseca
Em meio ao debate sobre o avanço da Extrema Direita no mundo e o recrudescimento do conservadorismo intolerante, soa grave (sintomático das crises simbólicas atuais) o fato de não estar sendo comemorada a presença de um Denys Arcand novo em folha no cardápio do Festival do Rio 2018 (1 a 11 de novembro). Há quem se pergunte até quem é esse tal Denys, o que agrava ainda mais o questionamento acerca da força cinematográfica das sátiras sociais. “La chute de l’empire américain” é o título do filme inédito deste historiador e diretor canadense de 77 anos, que filma majoritariamente em Francês: o Festival de Toronto já pôde conferi-lo e aplaudi-lo, assim como Valladolid, na Espanha. Cerca de 32 anos após a estreia de “O declínio do império americano” (1986), cerca de 15 anos após a consagração mundial de “As invasões bárbaras” (2003), o ferino Arcand retoma os personagens de seus dois sucessos de público e crítica para radiografar as falências morais do cotidiano.

“Não tenho ideia de qual seja o meu papel em qualquer lugar, nem nas classes de História. E não dou a mínima pra isso”, disse Arcand por email ao Almanaque. “Filmo quando tenho algo a dizer e quando percebo que o mundo precisa ouvir coisas que o façam crescer. O cinema é um ritual estético. E a estética é o lugar da Beleza.  Beleza é uma aspiração fundamental para a Humanidade, ainda que cada classe social tenha sua própria definição desse termo”.

Em “A queda do império americano”, o cineasta põe sua lupa moral sobre o cotidiano de um intelectual amargurado que se apropria, ilegalmente, de dinheiro alheio, deflagrando um carrossel de perseguições policiais e reflexões. Em Cannes, o longa-metragem, ainda inacabado, recebeu uma farta promoção mercadológica em capas de revistas como a “Variety” e a “The Hollywood Reporter”, graças ao prestígio de seu realizador e aos conflitos éticos dos EUA na atualidade. “Não é da América estado-unidense, que eu falo quando uso o nome pela qual os EUA se reconhecem. Eu falo do mundo como um todo, incluindo o Canadá, pois estamos todos vivendo o mesmo surto de desatenção com os pobres. As desigualdades só crescem e a idade mental dos espectadores de cinema só faz diminuir. Precisamos de filmes que nos tirem da letargia”, disse Arcand.

As Invasões Bárbararas de Denys Arcand As Invasões Bárbaras

Laureado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2004, “As Invasões Bárbaras” foi um fenômeno de público e crítica na forma de dramédia familiar. Falava sobre o avanço do neoliberalismo pelo mundo. Era uma sequência direta de “O declínio do Império Americano”, feito nos anos 1980, em meio à histeria da Era Ronald Reagan nos EUA. De lá pra cá, dedicado a projetos acadêmicos e pequenas produções, Arcand não filmou mais nada à altura de seu humor abrasivo e de sua visão niilista das relações mediadas pelo capitalismo. É hora de ele voltar à ação e reviver um grupo de personagens da cena intelectual do Canadá, hoje na casa dos 60, 70 anos. “Evito referências visuais especificas quando começo um filme. O que define a minha estética é a trama, as locações, os atores… ou seja, a vida, que anda dura”.

“As viúvas”, de Steve McQueen, será a atração de abertura do Festival do Rio, que encerra suas atividades do ano, na Première Brasil, com “O Grande Circo Místico”.