Arrancada eletrizante para o Festival do Rio

Depois do oscarizado '12 anos de escravidão', Steve McQueen volta ao universo urbano de 'Shame' no febril 'As viúvas', um thriller criminal que levou para a abertura da maratona cinéfila carioca temas como a violência contra as mulheres e o racismo

por

02 de novembro de 2018

Viola Davis e Cynthia Erivo unem forças em uma trama sobre dívidas relativas a um assalto frustrado em "As viúvas"

Viola Davis e Cynthia Erivo unem forças em uma trama sobre dívidas relativas a um assalto frustrado em “As viúvas”, novo longa do diretor de ’12 anos de escravidão’

Rodrigo Fonseca
Um olho roxo, acariciado pelo agressor que o produziu no rosto de uma jovem loura solícita e apaixonada, é a metonímia da violência contra a mulher, um câncer que entra em “As viúvas”, o filme de abertura do Festival do Rio 2018, apenas de soslaio, num relance que, contudo, não pretende apequenar um problema tão grave e sim potencializa-lo pelas vias da sutileza – uma palavra de honra neste thriller de fios desencapados. Da mesma forma como o olho roxo pisca na tela, mas fica gravado em nossas retinas e nosso imaginário, a exploração de um marido devedor sobre a lida de trabalho de sua esposa vendedora é vista numa única e incômoda cena – e não volta mais. Mas não há necessidade de regresso: com poucos gestos e palavras contadas a dedo, numa economia franciscana, Steve McQuen dá o recado sobre os males que circundam a afirmação do feminino, assunto que serve de espinha dorsal a esta tensa narrativa criminal. Realizador de “12 anos de escravidão” (2013), McQueen também não deixa o racismo passar batido, aplicando a mesma tônica: um rapaz negro é baleado, numa batida, apenas por estar dirigindo um carro de luxo numa Chicago hiperviolenta. Basta uma menção. A câmera de McQueen, inquieta, mordida por um bicho carpinteiro que a movimenta incessantemente, faz o resto: cava alarmismo em nosso inconsciente. É a marca do diretor inglês: é possível fazer barulho sendo discreto. A violência nas ruas já barulhenta demais.

Em 1993, McQueen dirigiu um curta memorável, “Bear”, feito mais de olho nas galeras do que nas telas, na qual dois homens negros nus se roçavam numa mistura de luta e dança. A fricção de peles e músculos continham um oceano de informações, digressões e reflexões indo de um debate sobre homofobia a um papo sobre a sexualização exacerbada dos negros pela mídia. Tá tudo em “Bear” sem sensacionalismo, amplificado por uma escala cromática que transita pelas múltiplas gradações do preto e branco na maneira de se enquadrar peles. Percebe-se um dispositivo similar nas várias vezes em “As viúvas” em que McQueen repete uma idílico troca de chamegos entre Viola Davis e Liam Neeson – ambos numa interação precisa.

Associado ao filão “filme de assalto”, porém capaz de regar as cartilhas do gênero policial em uma ciranda de traições e reviravoltas, o novo longa-metragem do aclamado videoartista e cineasta que nos deu cults como “Shame” (2011) e “Hunger” (2008) arrancou o fôlego do Cine Odeon na abertura do Festival do Rio. Previsto para estrear nacionalmente no próximo dia 29, “As viúvas” é a adaptação taquicárdica do romance homônimo de Lynda la Plante, já lançado aqui pela editora Intrínseca. Nele, três mulheres se unem para terminar um golpe iniciado por seus finados amores. Veronica (Viola, sempre no tom certo), Alice (Elizabeth Debicki, um achado, graças a seu ferramental cênico trágico) e Linda (Michelle Rodriguez) decidem honrar a memória de seus mortos envolvendo-se em um crime. A cabelereira Belle (a cantora Cynthia Erivo, em meteórica ascensão no cinema) entra nesse bonde lá pelo meio do filme, com o motorista do tal golpe. Robert Duvall e Colin Farrell completam o time de estrelas da produção, elogiada em sua projeção nos festivais de Toronto e de Londres. Eles são parte de um clã corrupto de políticos.

Astro de "Corra!" encarna o lado mais brutal da violência em "As viúvas"

Astro de “Corra!” encarna o lado mais brutal da violência em “As viúvas”

Não seria um erro afirmar que “As viúvas” é o melhor filme de abertura do Festival do Rio desde… humm… 2006… ano de “Dália negra”, de Brian De Palma – e De Palma é ave rara. Mas, aqui, num equilíbrio surpreendente de ação e melodrama, vem de McQueen um filme elegante, feérico, de atomizações múltiplas dos tempos narrativos, do mais catártico empoderamento feminino, de Viola Davis. Mas o homem mau que dorme bem – e assiste NFL com o volume nas alturas – vivido por Daniel Kaluuya (de “Corra!”) é algo antológico. Ele pertence a um bloco político que se encrespa diante dos desmandos eleitorais da família Mulligan (Duvall é o pai; Farrell, inspirado, é o filho). Sua conexão com  a personagem de Viola é indireta. Nada nesta trama precisa ter conexão direta, de causa e efeito, pois a surpresa espreita cada cena. Ponto pra Steve McQueen, que volta ao universo urbano com fome de provocar.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 5