Street Fighter e os filmes Temporada e Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos

O que Street Fighter teria a ver com o cinema brasileiro, Grace Passô e os índios Krahô?

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06 de novembro de 2018

O que Street Fighter teria a ver com o cinema brasileiro, Grace Passô e os índios Krahô?

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Bem, no aniversário de 30 anos de um dos games mais famosos do planeta, poucos ícones imagéticos do universo pop possuem tanta longevidade em se revitalizar com os novos tempos como “Street Fighter”. Existe uma memória afetiva em se possuir uma referência de infância em que você e suas amizades podiam jogar com personagens que representavam o mundo inteiro, todos os continentes, fossem homens ou mulheres, jovens ou idosos, independente de raça ou etnia (e até de gênero, já que a saga absorveu a primeira personagem trans dos games, a Poison, originalmente do “Final Fight”). Existiam personagens japoneses, claro, afinal, o jogo foi criado lá, mas também personagem brasileiro, indiano, jamaicano, espanhol, tailandês e muito mais…

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Mas o que isso tem a ver com Grace Passô e os índios Krahô? Então, dois filmes brasileiros escolheram referenciar este ícone mundial neste ano de aniversário do game: Temporada de André Novais Oliveira (que ganhou o maior número de prêmios no 51° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, depois foi exibido na 42° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e chegará ao Rio na Semana de Cinema na última semana de novembro, com retrospectiva da carreira de André Novais) e Chuva É Cantoria Na Aldeia Dos Mortos de Renée Nader Messora e João Salaviza. Não à toa, ambos produzidos por Thiago Macêdo Correia.

No primeiro, o game aparece de forma muito importante para a trama, pois é o que aproxima a amizade entre as incríveis personagens de Grace e Russão (respectivamente melhor atriz e ator coadjuvante no 51° Festival de Brasília). Sim, mulher também joga videogame. E, não por coincidência, Grace escolhe jogar com o único personagem brasileiro do game: Blanka. Uma “criatura” cuja história no jogo é extremamente complexa e controversa, tendo passado por experimentos genéticos e manipulações de terceiros até poder se libertar e viver livre onde pudesse chamar de lar, o que acaba metaforizando muito bem a ‘temporada’ de libertação e independência tanto íntima quanto profissional de Grace, que também possui um grande trauma a superar. Grace que é um colosso da atuação e dramaturgia, também roteirista e diretora, cuja autoralidade assume e melhora qualquer texto que toca ou lê, assim como o personagem brasileiro Blanka que virou um dos mais populares do videogame “Street Fighter”. E Russão escolhe o famoso personagem russo do game: Zangief, um carismático ser maior do que a vida que, assim como o personagem do filme, rouba cenas e conquista o coração de quem entra no jogo, e cujos maiores “golpes e movimentos” no game envolvem “abraços de urso”. A definição carinhosa e calorosa de um personagem que abraça a vida com vigor. Um belíssimo filme que nos coloca nesta posição: mais do que espectadores, convidados a entrar na ciranda e sentir como se pudéssemos incorporar a vida daqueles personagens por duas horas de nossas vidas e, com eles, superar nossos próprios dilemas, onde o cenário de Contagem em Minas Gerais nunca foi tão atual e cosmopolita en representar o mundo inteiro de quem batalha e supera os percalços da rotina.

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Já em “Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos”, filme que brilhou em sua passagem pelo Festival de Cannes este ano, o protagonista da aldeia dos Krahô possui dificuldades em superar a morte do pai e performer o ritual de superação que lhe e demandado. Isto significaria que ele teria de acessar conexões profundas com sua própria espiritualidade e a habilidade de talvez poder se comunicar com os mortos…uma benção que talvez lhe destine ser um futuro pajé da tribo, responsabilidade esta que lhe dá medo e o faz fugir. Quando foge para a terra “dos brancos” para procurar atendimento médico que o curasse de um mal estar que nada tinha a ver com o mundo dos brancos, passa por incompreensão e apagamento. A cena do hospital, onde ele sequer consegue ser atendido por não se encaixar na burocracia que a zona urbana impõe em neocolonialismo sobre as aldeias, é com certeza a sequência mais impactante e intencionalmente incômoda do filme, o ponto-chave que faz todo ele funcionar. Nunca havia sido colocado de forma tão contundente e crítica na posição de invasor e usurpador da terra indígena sobre a qual o projeto de Brasil inteiro foi construído como esta cena conseguiu. Doeu o coração de ser responsabilizado com toda a razão pela nossa negligência até hoje em relação à necessidade de demarcação de terra indígena, bem como pela preservação dos territórios ambientais que os povos indígenas mantêm da memória viva de nossas riquezas naturais. É perdido e abandonado na cidade dos brancos que o personagem joga um fliperama num bar local, e qual seria o jogo senão justamente “Street Fighter”? A cena, o embate épico atemporal: Ryu Vs Ken. A crítica ao “whitewashing” (ou “branqueamento”) mais antiga no universo pop, onde um personagem branco e americano, loiro com olhos claros, é criado à cópia e negativo do verdadeiro protagonista japonês, apenas para que os jogadores do mundo ocidental tivessem um referencial eurocêntrico para se identificarem. Ryu é o verdadeiro protagonista, mas Ken (não, nem estamos falando do “Ken namorado da Barbie”) é alçado a coprotagonista e melhor amigo e eterno rival de Ryu — claro, porque melhor amigo branco e loiro não se contentaria em ser só amigo sem ser rival de seu parceiro oriental. A cena é crucial para materializar a tensão entre o mundo branco colonizador que tomou o protagonismo dos donos originais da terra. Metáfora muito acertada e mais uma referência ao eterno jogo que até hoje rende frutos para novos clássicos e códigos contemporâneos.

Quem quiser conferir minha entrevista com André Novais e Grace Passô, ou o debate do filme “Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos” confira abaixo:

Entrevista exclusiva do Almanaque Virtual com o diretor:

http://almanaquevirtual.com.br/entrevista-com-andre-novais-sobre-temporada/

E com Grace Passô:
http://almanaquevirtual.com.br/entrevista-com-grace-passo-sobre-temporada-2/

E debate do filme “Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos”:

Parte 1:
https://youtu.be/U1l0i2bOkck

Parte 2: em breve