Santa Joana dos fundamentalistas

Sob as bênçãos do Altíssimo, Gabriel Mascaro mostra à Berlinale que o cinema brasileiro também saber filmar distopias, na melhor tradição sci-fi, em 'Divino amor', alegoria do conservadorismo nacional

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11 de fevereiro de 2019

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Rodrigo Fonseca
Recentes debates acerca da ausência do cinema de gênero em nossas telas, potencializadas a partir da nova onda do terror a reboque de “As boas maneiras” e “Animal cordial”, abriram um espaço para a ficção científica ganhar lugar em nossa produção audiovisual (quase sempre na ala mais autoral), vide “A Repartição do Tempo” e (de alguma forma) “Inferninho”. Nesse lugar de futurologia, nasce uma das mais sólidas alegorias para o Brasil do medo e da insegurança acerca do conservadorismo moral: “Divino amor”, que faz a gente pensar em Carl Th. Dreyer (1889-1968), numa alusão vinda da potência narrativa de Gabriel Mascaro, pela fogueira do fundamentalismo. Aquela em que a Palavra é Lei. Dá medo pensar nisso, o que dá ao novo longa-metragem do realizador de “Boi neon” (2015) uma dimensão distópica, meio similar ao clima de paranoia de “The handmaid’s tale”, com Dira Paes (devastadora em cena) como aia dos Ceus. Estruturado em coprodução com o Uruguai, o Chile, a Dinamarca e a Noruega, o filme de Mascaro estreia em circuito comercial por aqui ainda primeiro semestre.

Em “Divino amor” (“Divine love” lá fora), temos uma espécie (crítica) de “THX1138” (o marco zero de George Lucas) meets “Fala que eu te escuto”, programa de evangelização mais popular (e exótico) da TV brasileira. Mescla dos dois, esta sci-fi saiu de Sundance diretamente para a mostra Panorama do 69º Festival de Berlim como estandarte da inquietação de seu país em relação ao avanço do conservadorismo moral. É um estandarte também da evolução narrativa de Mascaro. Estamos diante de um dos poucos diretores nacionais que não reza pela cartilha do silêncio, que não tem medo do ruído, do barulho, do excesso.
Seu desempenho arrebatou Sundance: a vitrine mundial para o cinema independente autoral, criada por Robert Redford nos anos 1980, rendeu-se a ela, entre aplausos apaixonados e uma penca de resenhas analíticas sobre o quanto as peripécias de uma escrivã de cartório, fiel aos desígnios do Altíssimo, servem como metáfora para a Era Bolsonaro. “A primeira palavra que vem à cabeça quando se pensa sobre o cinema tematicamente complexo, embora sempre acessível, de Gabriel Mascaro é ‘sensual’. Fotografado e produzido de modo deslumbrante, com atuações impressionantes e uma série de outros aspectos fascinantes, este filme é a prova do que este diretor de 35 anos é um dos mais audaciosos e talentosos diretores de sua geração”, cravou Boyd van Hoeij, em sua resenha para a revista “The Hollywood Reporter”, postada na segunda, após a projeção do filme em Park City, a sede do Sundance.

Karen Han, crítica do site “Polygon”, saiu do filme igualmente embatucada. “Cansada das mesmas distopias? ‘Divino amor’ tem a cura. O Brasil de 2027 parece um sonho. Tudo é conduzido magnificamente por Dira, conforme o material em que ela trabalha vai se refinando. Ela brilha por todo o filme, em especial quando Joana sente não estar sendo recompensada por sua devoção”, escreve Karen, ainda sob impacto da sinestesia provocada pela fotografia do mexicano  Diego García. “Encanta a equipe que Mascaro consegue formar em torno de si, com a fotografia irrepreensível e arriscada de Diego García e a delicada direção de arte do Thales Junqueira. Foi muito bonito perceber o alcance do talento deles na relação com o olhar da crítica internacional”, avalia Dira, que deixou Sundance coroada como uma das grandes atrizes da América Latina. “O Brasil de ‘Divino amor’ está em 2027, dominado por um estatuo de fé cristã que substituiu o carnaval e nos faz refletir se vivemos ou não um estado laico”.

De modo geral, os críticos se surpreendem com o conservadorismo institucionalizado que a trama denuncia, num contexto marcado por veto do governo ao aborto e por nariz torcido ao homossexualismo. São elementos perceptíveis, mas nunca explicitados no circo místico criado por Mascaro como sinal de alerta ao ovo da serpente que está sendo chocado silenciosamente diante de nós. Para falar dele, seu enredo se passa em um amanhã bem pertinho.

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Há em “Divino amor”, em sua mirada futurista, de distopia, uma sequência na qual Joana, funcionária de cartório encarregada de cuidar de separações, vivida por uma Dira Paes em estado de Graça (aquela que vem do Alto, do Olimpo das atuações memoráveis), faz um circuito de exercícios aeróbicos como se estivesse em vídeo da Jane Fonda dos anos 1980. Veste collant, faz posições repetitivas num Kumon de disciplina do corpo. Isso porque a alma de Joana já foi disciplinada há tempos, num pacto selado com Cristo e com a segurança de um mundo avesso aos quebra-molas do antropocentrismo. No mundo dos homens, em ebulição, o prazo de validade de tudo é curto, até das relações amorosas. No mundo do Senhor, tudo fica para sempre, ainda que o preço a se pagar por isso é anular diversidades.

Isso fica claro nas conversas de Joana com os casais fraturados que ela tenta unir, imolando-se para isso: no futuro do filme, traição em imperdoável suingue consentido, não. Há, contudo, certas intolerâncias burocráticas: numa cena, Thalita Carauta tenta oficializar um documento e recebe patadas educativas de Joana.

Assim como a ginástica de Joana parece VHS da Turner Classics, o universo religioso em que Joana e seu marido, o florista Danilo (Julio Machado, sempre afiado, em todas as vezes em que faz da palavra um lugar de perturbação), frequentam também é estilizado. Parece o Festival da Canção de San Remo… ou o Show de Calouros de Silvio Santos (programa muito popular no Brasil). Parece conceitualmente, pois a direção de arte de Thales Junqueira, potencializada na fotografia de Diego García, deixa nítido que existe ali um pensamento muito filosofado (e bem abrasivo) de usar um colorido eletrônico, lisérgico e neon, para aproximar o culto daquele futuro fundamentalista (estamos no Brasil de 2027) de uma rave.

Nessa festa da fé que nunca termina, Joana dá glória aos Céus pelo que tem, mas chora pelo que ainda não veio: um filho. Não por acaso, Danilo se submete a uma série de tratamentos com luz e calor, em seus testículos, a fim de preparar sua “semente” para o Senhor. Há um primeiro tomo – no roteiro escrito por Lucas Paraízo, Mascaro, Rachel Ellis e Esdras Bezerra, marcado por diálogos primorosos – de nos levar a conhecer aquele mundo, como numa radiografia do que o Brasil pode se tornar, tendo a angústia de Joana como bússola. Ser mãe é a Estrela de Belém de sua vida. Todo o primeiro ato é dedicado a conhecermos onde ela vive e quem é. Mas aí vem uma virada… na intervenção do Espírito Santo… Aí, todas as certezas vão por terra e o filme engata uma curva metafísica de mistério, nas linhas do suspense. Tudo fica tenso, tudo parece caminhar para o inusitado, as incursões de Julio Machado ficam ainda mais doídas – e potentes. Ali, nesse ponto do filme, a explosão sinestésica de sensações físicas se casa, dramaturgicamente, com o efeito de surpresa de uma dramaturgia de viradas.

O que vem pela frente é menos catarse e mais delírio fundamentalista, num alerta de Mascaro o que pode ser o amanhã. Delírio que aproxima a atuação de Dira de Maria Falconetti, em “A Paixão de Joana D’Arc” neste “Ordet” caboclo. Tomara que saia premiado aqui de Berlim.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 5