O que a Berlinale 2019 viu de melhor… até agora

Filme da Macedônia, dirigido pela cineasta Teona Strugar Mitevska, toma dianteira na disputa pelo Urso de Ouro, mas o festival tem muitas outras atrações imperdíveis

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12 de fevereiro de 2019

Melvil Poupaud protagoniza a investigação de François Ozon sobre crimes de pedofilia na Igreja Católica em "Grâce à Dieu", um dos favoritos ao Urso de Ouro

Melvil Poupaud protagoniza a investigação de François Ozon sobre crimes de pedofilia na Igreja Católica em “Grâce à Dieu”, um dos favoritos ao Urso de Ouro

Rodrigo Fonseca
Perdemos Zhang Yimou na disputa pelo Urso de Ouro de 2019: “One second” foi retirado pelo mestre chinês da competição. Saiu sob a alegação de não estar 100% finalizado, em relação a todos os quesitos técnicos que o cineasta pretendia alcançar para a projeção – em seu lugar, entrará uma gala de “Herói” (2004), um dos maiores sucessos de Yimou. Mas a notícia chegou ao mesmo tempo em que a Turquia se esbaldava de elogios por aqui por “The tale os three sisters”, de Emin Alper, sobre a relação de três mulheres com histórias inventadas pelo pai. Este drama cheio de alusões a Tchekov deslumbrou a todos com sua fotografia, tornando-se um candidato forte ao prêmio de contribuição artística. Mas, até o dia 17, ainda tem muita estrela autoral para desfilar filmes inéditos na Berlinale. Confira a lista do que houve de melhor por aqui.

  • Skin, de Guy Nattiv: Jamie Bell tem uma atuação desconjuntante no papel de um supremacista branco, tatuado dos pés à cabeça, que, ao se apaixonar por uma mãe solteira (a excepcional Danielle Macdonald), decide largar a célula neonazista onde cresceu e virar um sujeito avesso a intolerâncias raciais. Montagem avessa a clichês.
  • A portuguesa, de Rita Azevedo Gomes: Com uma direção de arte estonteante, este ensaio sobre a potência poética das fragilidades se estrutura a partir das artimanhas de uma mulher da Idade Média que tenta transformar um castelo num lar.
  • God exists, Her name is Petrynia, de Teona Strugar Mitevska: Vem da Macedônia o favorito ao Urso de Ouro. Nele, uma historiadora desempregada é alvo de sexismos e conservadorismos ao se apoderar de uma cruz da Igreja Ortodoxa em que só homens poderiam pegar. Igualdade de gêneros e fundamentalismo religioso são seus alvos.
  • The Golden Glove, de Fatih Akin: Uma espécie de Nosferatu de carne, osso e feiura, Fritz Honka (1935-1998), psicopata que assombrou Hamburgo, de 1970 a 75, matando e esquartejando garotas de programa, ganha uma cinebiografia digna de mestres do terror e do expressionismo das mãos do maior cineasta em atividade na Alemanha, o teuto-turco Fatih Akin (de “Contra a parede”). Jonas Dassler é o favorito ao Urso de Prata de melhor ator por seu desempenho assombroso como Honza.
  • Flatland, de Jenna Bass: Uma policial tenta investigar um crime em uma África do Sul que revela fantasmas nunca exorcizados do aparatheid;
  • Light of my life, de Casey Affleck: O astro de “Manchester à beira-mar” (2016) utiliza o que de aprendeu de melhor com os grandes cineastas que o dirigiram (como Steven Soderberh, Kenneth Lonergan e o próprio irmão, Bem) para extrair de seu elenco uma dor à altura do mundo seco que constrói nesta ficção científica distópica. Ele vive um pai que quer salvar a filha dos perigos de um futuro no qual as mulheres da Terra foram dizimadas por uma moléstia misteriosa.
  • Divino amor, de Gabriel Mascaro: Dira Paes botou Berlim no bolso ao viver uma Joana D’Arc de repartição pública neste trabalho de maturidade do realizador de “Boi Neon”, construído como uma reflexão sobre a fricção do corpo com o Estado. Escriturária em um cartório, Joana (Dira) defende Deus sobre todas as coisas num Brasil futurista, de 2027, onde o carnaval deu lugar a uma rave de Cristo. Mas o Espírito Santo há de aprontar com sua fiel.
  • Mid90s, de Jonah Hill: O astro de “Superbad – É hoje” (2007), duas vezes indicado ao Oscar de coajudvante (por “O homem que mudou o jogo” e “O lobo de Wall Street) foi estrear na direção recriando a época de sua educação sentimental, a década de 1990. Lá, entre pistas de skates, um rapaz assolado por bullying e solidão busca uma nova forma de se ressocializar. Isso narrado com uma fotografia que aposta na vertigem.
  • Tremores, de Jayro Bustamante: Cura gay é o assunto do realizador de “Ixcanul”, que volta a falar sobre descobertas sexuais e amadurecimento só que de uma perspectiva masculina: Pablo (Juan Pablo Olyslager) é um consultor financeiro que tem sua vida virada do avesso depois que decide se assumir homossexual e morar com o namorado.
  • The shadow play, de Lou Ye: O diretor de “Amor e dor” (2011) faz uma reinvenção dos códigos do cinema noir num thriller sobre corrupção, no qual um jovem policial tenta averiguar o que há de errado na morte de um empresário.
  • Estou me guardando para quando o carnaval chegar, de Marcelo Gomes: Toritama é a capital nacional do jeans, mas é também um lugar onde as pessoas optam por uma autonomia profissional, avessa aos grilhões da mais valia, a fim de se apropriarem do Tempo. Mas, usando um dispositivo digno do diretor Dziga Vertov, em seu “O homem com a câmera” (1929), Gomes faz uma observação (sensorial) do fluxo da vida naquele canteiro de linha azul e agulha em disparada para tentar entender o que torna a temporalidade algo tão inalcançável.
  • Système K, de Renaud Barret: Na lógica do luxo ao lixo, este .doc sobre formas de resistência estética nas ruas do Congo acompanha as estratégias de um grupo de multiartistas de Kinshasa que utilizam capsulas de bala, sucata de eletrodomésticos e caveiras para fazer instalações das mais provocativas. É um filme sobre o redesenho do espaço urbano.
  • Querência, de Helvécio Marins Jr.: Com ecos do cinema documental de Humberto Mauro, em especial “Carro de bois” (1974), este experimento poético de observação do cotidiano de um tratador de gado, com sonhos de se firmar como locutor de rodeios, arrebata não apenas por sua potência visual, mas por sua denúncia da negligência das autoridades diante de crimes ligados a questões fundiárias. É um western sem bangue-bangue, num mundo onde a honra reza para Nossa Senhora.
  • Stitches, de Miroslav Terzic: Este melodrama sérvio, áspero na montagem, transforma em ficção um crime histórico (e recorrente) nos territórios que formavam a Iugoslávia: o rapto de bebês, ainda na maternidade, onde as crianças eram dadas como mortas para seus pais e encaminhadas para adoção em territórios ricos do Velho Mundo. A trama de Terzic acompanha a angústia de uma mulher, Ana (Snezana Bogdanovic), que há 20 anos celebra o aniversário do filho que teria morrido ainda no berçário. Só que o Destino bate à porta de Ana com outra versão dos fatos: ele pode ter sido raptado e o corpo enterrado em seu lugar seria de outro neném. Estaria o menino – hoje já um adulto – vivo?
  • Hellhole, de Bas Devos: Da pátria dos irmãos Dardenne brota este poderoso ensaio sobre a solidão em uma Bélgica marcada por cicatrizes morais relativas à exclusão. Uma série de personagens – entre eles, um jovem árabe com dilemas políticos, um médico de classe média em crise com as atitudes de seu filho e uma tradutora italiana cheia de conflitos, vivida pela genial Alba Rohrwacher – vão se cruzar numa ciranda afetiva em Bruxelas.
  • Grâce à Dieu, de François Ozon: No trabalho mais adulto de sua carreira, o realizador de “Dentro da casa” (2012) e outros sucessos recria um caso real (a ser julgado agora em março) de mobilização pública dos franceses contra um padre pedófilo. O brilho maior vem de seu roteiro, que estraçalha a lógica convencional dos três atos, de modo a cada segmento narrativo dar conta de uma das três vítimas do sacerdote, vividas por Melvil Poupaud, Swann Arlaud e o brilhante Denis Ménochet.
  • Anselmo Vasconcellos

    Grato.estou atualizado