Luke Skywalker no templo do Redentor

Festival do Rio exibe nesta terça 'Os Últimos Jedi', como um 'esquenta' para a estreia do novo (e último) episódio da franquia 'Star Wars'

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15 de dezembro de 2019

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Rodrigo Fonseca
E continua a saga Jedi no Festival do Rio 2019, que encerra suas atividades nesta quinta, após uma maratona de 200 filmes, com a entrega do troféu Redentor, que tem “M8 – Quando a morte socorre a vida”, de Jeferson De, como favorito, a julgar pela consagradora sessão popular de sábado no Odeon. É lá mesmo que vai ser exibido o “Episódio XVIII” – produção que custou US$ 317 milhões e arracedou US$ 1,3 bilhão – nesta terça, às 21h30, como um esquenta para a estreia de “Star Wars – A Ascensão Skywalker”, na quinta. Estima-se que possa ser o fenômeno de bilheteria deste fim de ano e, quem sabe, papar alguma indicação ao Oscar. O prestígio cada vez mais em alta de Adam Driver, o Kylo Ren, à frente de “História de um casamento”, um dos favoritos aos Globos de Ouro, pode ampliar a visibilidade do tomo XIX da mais popular das sagas cinéfilas.  E vale lembrar que o boca a boca cheio de ardor acerca do Baby Yoda em “The Mandalorian”, o seriado “O Mandaloriano”, da Disney+, vem ampliando os domínios da mais famosa criação de George Lucas.

Fé é a argamassa do ofício de Jedi: crer é o verbo de ação de quem empunha o sabre de luz, “a mais galante das armas”, como definia Obi Wan Kenobi em Uma Nova Esperança, blockbuster que, há 40 anos, fez o planeta Terra virar devoto de Star Wars e enxergar George Lucas como um pastor. Quatro décadas depois, um mundo em fase de descrença – sobretudo na palavra alheia – recebe com ansiedade o oitavo (e mais esmerilhado) capítulo da franquia iniciada em 1977 e encontra o fervor religioso (no credo da Força) dos personagens abalado ou em fase de ruptura. Não por acaso, em Os Últimos Jedi (cujo humor é um diferencial), um pilantra profissional, versado nas artes da tecnologia, rouba (literalmente) o filme pra si, como o Judas que faltava à série: DJ, vivido por um Benicio Del Toro em estado de graça. Desconfie de tudo nele, até na sua desconfiança, pois ele pode te surpreender… e para o bem… como tudo no impecável trabalho de direção de Rian Johnson (em cartaz com Entre Facas e Segredos). Pouca coisa é o que aparenta ser neste longa-metragem de 2h32 catárticos minutos de adrenalina e de estratégia, até porque ele espelha nossas falências éticas. E espelha também traços do fundamentalismo religioso que muitas vezes turva nossa lucidez crítica. Tem Marx e tem Jesus Cristo nessa trama, ora humanista, ora messiânica, onde Luke Skywalker, encarnado por um Mark Hammil agrisalhado, maduro, é um Buda em provação.

 

 

Antes de tudo há que se destacar em The Last Jedi (título original) a atuação de Driver, capaz de gravitar da carência afetiva à raiva mais iracunda no papel de Kylo Ren, o neto de Darth Vader, que se candidata ao posto de vilão de ano. Aliás, há que se candidatar Driver para todos os prêmios, por seu desempenho. Sua vilania chega a rivalizar com a do Supremo Líder Snoke (figura digital baseada nos gestos de Andy Serkis), comandante da célula terrorista que ameaça dominar o universo. A trama aqui se concentrar nos esforços do Mal para erradicar a Aliança Rebelde, liderada pela comandante Leia, mãe de Ren, interpretada por Carrie Fisher, que morreu no fim do ano passado aos 60 anos. Cada aparição dela em Os Últimos Jedi carrega um tom de homenagem, comovente, mas nunca excessivo. A coroa do tributo se dá num diálogo sobre desaparições que são perpétuas e desaparições que são provisórias.  Mark Hammil regressa ao manto de Luke Skywalker Mark Hammil regressa ao manto de Luke Skywalker: maturidade na atuação

Fisher é o primeiro nome nos créditos finais, não apenas por gentileza póstuma, mas por merecimento: além da boa atuação, há uma quantidade de cenas que justifica seu protagonismo. Ela encampa o eixo central do conflito, enquanto a Jedi em formação Rey (uma vez mais bem defendida por Daisy Ridley) dá conta do outro segmento: uma narrativa de aprendizagem, no confronto com Skywalker. A convivência entre eles é espinhosa, capaz de subverter as cartilhas das histórias de formação. Subversão aliás é um conceito inerente a esta produção, que troca o espírito aventureiro da franquia por uma linha mais épica, próxima do cânone de ópera espacial ao qual o universo de Star Wars se filia, aproximando-se mais do tom de O Império Contra-Ataca (1980), ainda o melhor de todos da grife. O ethos épico do filme vem não apenas da linha de saga política que serve de bússola à narrativa, mas da carga religiosa. O Jediismo é uma forma de crer: uma crença no que existe de fantasmático na Natureza, no inaudito da terra e do ar. E esse inaudito abarca as forças de geografia humana, incluindo a velha mais valia (resíduo da exploração do homem pelo homem), presente na delirante sequência do cassino e na figura de Rey, com seu antecedente de exclusão. Essa mistura de marxismo e fé evoca a estética de Nicholas Ray (1911-1979), um dos faróis da geração de George Lucas, que misturou O Capital com a Bíblia no seminal O Rei dos Reis (1961). Consciente ou não, essa referência a Ray só faz trazer uma camada a mais para o longa: uma sólida carapaça de cinefilia.
Na versão brasileira, Jorge Lucas dubla Skywalker. Esperamos que, agora, no Episódio XIX, todas as imprecisões que Rian deixou passar se aquietem e tenhamos, com a volta de J.J., um legado despedida à altura de tudo o que a saga rendeu às telonas.

 

 

p.s.: A melhor pedida gringa no Festival do Rio, neste domingo é o longa alemão “System crasher”, de Nora Fingscheidt. Editado com vários recursos de videocliope, ele narra o empenho de uma garotinha para atazanar a vida das pessoas que tentam adotá-la. A produção saiu da Berlinale com o Troféu Alfred Bauer (dado a produções que abram novas perspectivas de linguagem). Sua projeção vai ser às 21h30, no Estação Net Rio.


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