39ª Mostra de SP – Balanço final do 9º dia na Mostra

Balanço dos últimos filmes conferidos

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09 de novembro de 2015

O nono e definitivo dia do Almanaque Virtual na Mostra de SP teve muitos grandes filmes, e até sessão especial dia das Bruxas da meia-noite com “A Bruxa” (“The Witch”) de Robert Eggers , além de “Virgin Mountains” (“Fúsi”) de Dagur Kári que é mais um excelente exemplar da cinematografia islandesa (além dos já exibidos na Mostra “Pardais” e “A Ovelha Negra”, este terceiro o selecionado do país para representá-lo no Oscar 2016); e ainda o mega hit “Aliança do Crime” (“Black Mass”) de Scott Cooper com o astro Johnny Depp irreconhecível com maquiagem de mafioso inspirado em fatos reais; sem falar em “Magical Girl” de Carlos Vermut; “O Apóstata” (“El Apóstata”) de Federico Veiroj e com Álvaro Ogalla e “O Culpado” (“Verfehlung”) de Gerd Schneider.

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Sessão especial dia das Bruxas da meia-noite com “A Bruxa” (“The Witch”) de Robert Eggars. Num clima à la “As Bruxas de Salem”, o filme, talvez mais vendido como um terror tradicional, é muito mais do que isso, centrado no efeito de horror psicológico em desarmar o espectador com sua estética referencial até ele se tornar também refém de uma histeria coletiva dentro e fora da telona. Com um roteiro que prioriza as entrelinhas, tudo começa com uma família de colonos altamente religiosos expulsos de seu Vilarejo na Nova Inglaterra, até que decidem formar uma nova comunidade própria na fazenda isolada na fronteira com uma estranha floresta, onde irão questionar sua sanidade e unidade. O que eles não sabiam era que este lugar poderia esconder segredos amaldiçoados, talvez bruxas, que inteligentemente são passados como sutilezas psicológicas não-ditas, apenas sugeridas pelo cineasta estreante em longas Eggers. Ele leva a vantagem de antes desta empreitada ter se especializado em outros trabalhos como designer de produção, ou seja, a pessoa que faz desenhos de como o cenário e cenas deverão ser constituídas. Por isso há uma elegância estética muito grande na forma como ele exprime a história visualmente, de modo muito rico cheio de metáforas e referências a contos e mitologias. Nada é explícito. Tirando uma introdução bastante perturbadora dentro da Floresta para já mostrar a própria Floresta e suas árvores sufocantes como uma personagem, o filme retoma a condução de um drama familiar, e é a partir dele que vai recomeçar a aumentar um grau de desconforto até que a plateia confronte seus próprios demônios. Tem-se obviamente Bruxas, com um enorme respeito à mitologia Wicca e suas tradições, mas há igualmente inspirações nos contos dos Irmãos Grimm, como Chapeuzinho Vermelho, João e Maria, até uma Branca de Neve bem sutil. Além dos Grimm, há referências a lobisomem ou mesmo Adão e Eva e a maçã do pecado original que separou o homem das grandes verdades do conhecimento da natureza. Outra analogia muito interessante é com os sete pecados capitais, parecendo que em determinado momento cada membro da família isolada é testado por algum dos pecados, que se volta contra eles mesmos e uns contra os outros, como uma grande crítica à fé cega amparada numa religião castradora em cima do pecado e da culpa. E é neste sentido que o feminismo da personagem central da filha mais velha, pelos olhos da qual tudo se passa, começa a se fazer valer como um ponto de virada, e as suspeitas e acusações faz com que cada um mostre suas verdadeiras faces num grande pesadelo: como na incrível cena onde a mãe dá de mamar a algo estranho, ou no tenso exorcismo de um dos personagens. De deixar William Friedkin orgulhoso.

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“Virgin Mountains” (“Fúsi”) de Dagur Kári que é mais um excelente exemplar da cinematografia islandesa (além dos já exibidos na Mostra “Pardais” e “A Ovelha Negra”, este terceiro o selecionado do país para representá-lo no Oscar 2016). Talvez o mais modesto dos três filmes islandeses multipremiados nas temporadas recentes, porém ainda assim digno de nota. Com uma história delicada em meio a tabus cascudos, segue a vida pacata de um homem obeso e sem perspectivas que, em contraste com o corpanzil e modos rústicos, possui a mente quase de uma criança, com a mesma inocência e pureza (daí vem o título do filme em inglês, “Montanhas Virgens” se traduzido ao pé da letra, enquanto que o original ‘Fúsi’ é um apelido advindo de sua coleção de brinquedos de guerra). Ele sofre de bullying no trabalho e até em família, como se fosse um perdedor. Até que ele se apaixona por uma igualmente desesperançada mulher, a partir de aulas de dança onde fazem uma dupla, não pelas mesmas deficiências de maturidade emocional, e sim porque ela própria se sente uma fracassada. Ambos ajudam um ao outro a se reerguer, e, apenas para demonstrar não ficar no clichê, os preconceitos da sociedade ainda vão atrás de ambos, e a relação por si só talvez não seja o bastante para o personagem se realizar e transcender os estereótipos. Um filme delicado e emotivo sem ser piegas, em contraste com a região gelada onde se passa a história e as pessoas frias ao seu redor.

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“Magical Girl” de Carlos Vermut é um filme espanhol inovador em inúmeros quesitos. Em primeiro lugar pela narrativa coral que, apesar de ter mais de um protagonista e focos diferentes de acordo com a evolução, não perde o fio condutor pela forte personagem feminina interpretada por Bárbara Lennie, ganhadora do prêmio Goya de melhor atriz, além do prêmio de melhor filme com a Concha de Ouro no Festival de San Sebastian. Vermut quebra completamente a expectativa e o laço do expectador com seus personagens criando uma involução de carismas, onde o fracasso pessoal de cada personagem não é julgado pelo roteiro, apenas até o limite onde eles mesmos o permitem. A começar por um professor de escola primária que se vê enleado por uma hipnótica e traiçoeira aluna com quem cria um vínculo perverso e deturpado. Passados muitos anos, esta ‘aluna’ amadureceu numa misteriosa mulher que está num casamento infeliz e comete adultério com um novo personagem igualmente derrotado que começa a chantageá-la ameaçando contar ao marido dela que eles dormiram juntos. Não há paixão e muito menos compaixão. Este é um universo peculiar onde o diretor libera suas criaturas sem julgá-las. O sujeito chantageia a mulher apenas para comprar um ridículo presente exorbitante para a felicidade da filha com câncer terminal. Enquanto que a chantageada recorre a mistérios de seu passado que achava estarem para trás em nome de poder pagar as dívidas com o chantagista. E ainda regressa à história o professor do início do filme com dívidas morais em relação à sua ex-aluna. Os porquês destas relações põem em xeque a própria sociedade Espanhola em crise moral pós Franquista, sem ideologias no que crer e se firmar. Há várias simbologias no modo de filmar, e os sinais vão aumentando principalmente focados no personagem da poderosa protagonista cuja força está no poder sugestivo, igual ao da câmera que a filma.

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Por Rodrigo Fonseca: “Aliança do Crime” (“Black Mass”) de Scott Cooper. É antiga a ligação de Depp com a máfia na representação de figuras acossadas pelo crime organizado. Embora pouco lembrado, apesar de ter sido chamado de “‘O Poderoso Chefão’ dos anos 1990” à sua época, “Donnie Brasco” (1997), de Mike Newell, colocou o eterno Edward Mãos-de-Tesoura nos calcanhares de mafiosos ítalo-americanos, num resgate da estética social policial da década de 1970. Por isso não surpreende a facilidade com que um ator como ele – tão chegado a caracterizações que desfiguram sua imagem com perucas, maquiagens e olhos coloridos – se encaixa na figura do criminoso James Whitey Bulger, ferrabrás de Boston. Há um amálgama de almas entre Depp e Bulger, compondo, na simbiose, um vilão como raras vezes se viu no cinema. Não se trata de uma reconstituição sociológica de um contraventor do mundo real e sim o uso de memórias reais da literatura jornalística policialesca para, a partir delas, o astro construir, em parceria com o diretor Scott Cooper, um ensaio sobre a Maldade e seus pactos com o Poder institucional. Mais do que uma apoteose para o talento de Depp, “Aliança do crime” é um filme de máfia que cumpre a cartilha do gênero indo além dela, desapegado dos cacoetes audiovisuais de montagem da referência padrão: “Os bons companheiros” (1990). Essa é uma libertação seminal, sabendo-se que o cult estrelado por Ray Liotta, De Niro e Joe Pesci foi copiado à exaustão nos últimos 25 anos, tendo servido de matriz para filmes de igual valor como o brasileiríssimo “Cidade de Deus” (2002). Cooper não quer filmar (e sobretudo não quer montar) à moda deste seminal Scorsese. Ele quer ir mais fundo no baú do cinema, dialogando com filmes de maior rusticidade, sobretudo “Horas de desespero” (1955), de William Wyler, e fazer um tratado sobre o Mal e sua implacabilidade. A ambição de filosofar é fortificada por uma montagem que valoriza diálogos e ações sem saídas bruscas, sem pressa. Ele quer fazer pensar e quer fazer a dor se fazer sentida, doída. Resultado: um dos melhores filmes do ano.

Crítica completa por Rodrigo Fonseca no site.

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“O Apóstata” (“El Apóstata”) de Federico Veiroj é uma inovadora comédia com toques de drama e surrealismo, muito bem defendidas por seu protagonista Alvaro Ogalla que coescreve o roteiro. Interessante premissa que parodia a Igreja como instituição humana e nada divina, onde um homem comum decide simplesmente anular seus sacramentos e eucaristia católicos para o contragosto relutante da Igreja, de modo a se tornar o apóstata do título, que quer dizer afastado de qualquer representação religiosa. Ou seja, uma pessoa que não se decidia por nada definitivo na vida decide se livrar deste ônus considerado por ele responsável pelas mazelas que ele não consegue acertar. Uma paródia leve, porém também ácida quando bem conduzida entre seu roteiro e direção, no talento cômico da junção de seu diretor e roteirista/ator.

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“O Culpado” (“Verfehlung”) de Gerd Schneider chega em um ano que já contou com um dos melhores filmes de 2015 com o mesmo tema de padres pedófilos, o chileno “O Clube” de Pablo Larraín, mas aqui não chega a acrescentar tanto, seguindo uma narrativa mais clássica e se arriscando menos. Tudo parte do princípio de três amigos no sacerdócio, um correto e de caráter intocável, outro popular e querido, e o terceiro cheio de politicagens que fazem com que ascenda na carreira do clero. Eis que as investigações do primeiro sobre o segundo vão colocar a amizade dos três em xeque, especialmente as conexões de poder do terceiro. Apesar da relutância dos amigos em crer nas acusações feitas por jovens coroinhas, a necessidade de se chegar à verdade pelo bem comum social é mais importante do que egos ou alianças pessoais, mesmo em nome de uma Instituição que possa fazer um bem tão grande independente das exceções de maus exemplos que devem ser corrigidos. Um filme pouco inspirado e de certo modo moralista, sem se arriscar ou chegar a conclusões relevantes.