40ª Mostra de São Paulo – Balanço do 3º Dia

Surpresas como "Tanna", "Alba", "Aloys" e "Sem Deus"

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23 de outubro de 2016

Surpresas como “Tanna” que é o selecionado da Austrália para o Oscar 2017 de filme estrangeiro e ganhador de fotografia e da Semana da Crítica em Veneza, “Alba” (Menção honrosa no Festival de San Sebastian e prêmio Fipresci no Festival de Cinema Latino de Toulouse) , “Aloys” (vencedor do prêmio da crítica no Festival de Berlim) e “Sem Deus” (Leopardo de Ouro de melhor filme e melhor atriz para Irene Ivanova no Festival de Locarno), sendo todos os filmes estreias em longas-metragens de ficção para seus respectivos diretores premiados em seu début.

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Selecionado da Austrália para o Oscar 2017 de filme estrangeiro e ganhador de fotografia e prêmio da Semana da Critica em Veneza, “Tanna” de Bentley Dean e Martin Butler é um épico antropológico passado em uma tribo da ilha de Vanuatu na Austrália/Oceania que utiliza os próprios nativos como artistas para contar uma história inspirada em fatos reais que mudou a história da perpetuação cultural daquele povo. A partir de tradições que passam de geração para geração, vemos vários costumes se descortinando a partir de uma fotografia epopeica, usando a própria ilha como personagem, a partir dos contornos de suas montanhas, perfazendo corredores de árvores, banhando-se em rios, e fervendo como um coração de lava no olho do vulcão que serve de centro para a história. Esta paixão incandescente vai colocar um casal à prova de forma quase literária, podendo-se extraí-los referencialmente como uma colagem de arquétipos bem aplicados para a regionalidade da trama. As tribos rivais possuem a tradição de trocar noivas para famílias opostas para selar a paz, principalmente após um acidente que causa uma perigosa tensão política nos meios de vida dos nativos.

Tudo isso em meio à civilização urbana que ameaça chegar nas terras preservadas ocupadas pelos nativos, pois a câmera usa de inteligentes panorâmicas e angulares para expandir a atmosfera da ilha até os arredores em que estrangeiros tentam catequizar até os dias de hoje os índios da região protegida. É a ameaça constante da modernidade. Sem falar no vulcão tanto metafórico como real, sempre a expelir fogo para lembrar da ameaça de extinção que todos sofremos no dia-a-dia, quando nossas culturas estão passíveis de serem esquecidas ou ficarem obsoletas, e será através da paixão do casal que se forçará todos ou a se matarem ou a arranjarem soluções alternativas. As roupas rudimentares feitas de folhas e raízes contém um aspecto de realeza, que ao mesmo tempo que os aproxima da natureza, os destaca na importância da sabedoria em preservá-la. Além disso, o próprio vulcão é um show à parte, fazendo com que qualquer ângulo ou enquadramento se torne acachapante pela fotografia de um dos próprios cineastas que divide a direção, Bentley Dean. Um lindo épico tribal com interpretações reveladoras cuidadosamente extraídas dos personagens da vida real. godless_01

“Sem Deus” (Leopardo de Ouro de melhor filme e melhor atriz para Irene Ivanova no Festival de Locarno) é um filme seco, cru e cruel. Apesar de ser uma produção da Bulgária com coprodução da Dinamarca e França, tem escrito em todo seu subtexto influências da dura dramaturgia russa, herança da armadura necessária para sobreviver no rígido frio de regiões do leste europeu. Ainda contém também um traço atualmente típico do aprofundamento do cinema grego atual, o estudo da perversão social, principalmente através da deturpação das instituições basilares através do sexo (como “Miss Violence” e “Dentes Caninos”). “Godless” (no original) da estreante em longas Ralitza Petrova se utiliza desta mistura para agregar outro elemento muito importante: o assistencialismo na terceira idade. É a partir desta premissa que a protagonista, Gana, na pele da premiada Irene Ivanova, vende os documentos de identidade dos idosos doentes de que cuida, para que uma verdadeira máfia de corrupção com agentes em todos os poderes venda para criminosos as identidades da parcela idosa da população, que não poderá reclamar, sujando a ficha dos inocentes e limpando a dos perpetradores. Gana, porém, permanece incólume ao sofrimento alheio, ela própria marcada na vida por perdas violentas de identidade, fazendo-a quase um fantasma anestesiado que faz tudo para dar condições sociais à sua mãe — a quem o filme claramente exibe como uma idosa privilegiada, muito diferente dos pacientes que a filha trata, que muitas vezes não possuem comida ou remédios. A câmera se preocupa em demonstrar que Gana não pode ter sentimentos ou empatia, pois são proibidos para sobreviver, e o faz com cenas subjetivas através dos personagens periféricos, nunca da própria Gana, e entrando e saindo do foco das imagens, pois a própria realidade é distorcida. Uma cena elaboradíssima que demonstra tal cuidado é a simples sequência em que a mãe ergue um copo e um frasco de remédios para tomar, alternando-se a cada momento no mesmo take qual dos objetos de cena estaria em foco: a mãe, o copo ou o remédio. Uma técnica delicada para expor ainda mais a cromática acinzentada e fria da falta de saída dos personagens. Mas espere por uma cena final bem esperta e sutil que levará à mesma cena em que tudo começou, abrindo um rombo no círculo vicioso.

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“Alba” (Menção honrosa no Festival de San Sebastian e prêmio Fipresci no Festival de Cinema Latino de Toulouse) de Ana Cristina Barragán, é um filme delicado e sensível, que por incrível que pareça se comunica bastante em termos de temática e fotografia com outro exemplar latino que acaba de ser exibido no Festival do Rio, “Todo o Resto”, também de uma realizadora mulher na direção, Natalia Almada. Só que enquanto este falava de solidão na terceira idade, trabalhando numa repartição pública de contraste de classes, “Alba” volta para a solidão em idade púbere, e com uma disparidade de classes na própria escola, ensinando segregação desde criança. Com sutileza no olhar da câmera, a esquisita pré-adolescente homônima ao título é mostrada sempre em primeiro plano, guiando os enquadramentos, com super closes de seu mundo introvertido e silencioso, todo demonstrado a partir de momentos e pensamentos externalizados. Por exemplo, quando ela brinca com os pertences da mãe doente no hospital e com os do pai divorciado que cuida dela, apesar de não ter participado da sua criação. São estranhos em uma relação desacostumada e afastada. A menina não pode ter a mãe, pois está enferma, e o pai não sabe como se aproximar para reconquistá-la, não obstante se esforçar para isso, e faz a filha passar vergonha na escola com seu jeito humilde e fracassado. A direção de arte reforça isso com um apartamento velho e mofado, onde mesmo assim a criatividade de Alba fala mais alto e encontra maneiras de reinventar o espaço ao seu redor, assim como a fotografia. Mesmo que o tema ‘rito de passagem’ no adolescer já tenha sido explorado muitas vezes, a força silenciosa da interpretação madura para a menina Macarena Arias faz a diferença, com um olhar minucioso e detalhista, em cenas marcantes como quando é obrigada a esmagar uma linda mariposa pelos colegas de classe de quem almeja tanto a aprovação; ou quando está no carro com seu pai dirigindo para a praia e a música diegética no carro começa a aumentar como se virasse a trilha sonora do filme, em um típico momento grandioso do cinema, só para revelar ironicamente a farsa depois, onde o carro, na verdade, estava indo à quarenta por hora pela estrada, porque era velho e lento. Mostrando que tudo depende da criatividade da perspectiva, como o é na vida.

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“Aloys” (vencedor do prêmio da crítica no Festival de Berlim) de Tobias Nölle, logo em seu primeiro longa metragem solo, consegue criar uma força lúdica e inovadora para as imagens com que conta sua história. Mais uma vez o tema solidão predomina na tela, porém num tom Quixotesco, à la “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, o filme vai ganhando surrealismo em suas cenas. Tudo começa com um investigador particular que perde o pai que era seu sócio na empresa, e o luto começa a atrapalhar seu trabalho a tal ponto que perde seu material de vigilância de estranhos. Bem…, perde ou é roubado?! O detetive começa a receber ligações de alguém que supostamente estaria usando o feitiço contra o feiticeiro, podendo estar filmando tudo o que ele está fazendo. A voz sedutora é de uma mulher, mas ele não consegue saber nem de quem é ou qual seu propósito. Como ponto de partida, o protagonista é mais do que solitário, ele é sem vida, pois se autoanulou nas lições do pais de como seguir os outros na profissão de investigador sem jamais ser percebido. Uma sombra vazia. E o mal que pode ter causado aos outros em desencavar intimidades, o que antes não lhe afetava, pode agora voltar para sua consciência. Na realidade, o filme adota linguagens com referências noir e de suspense até, numa fotografia de Simon Guy Fässler que realça cores azuis e desbotadas como a vida dele, com estética apuradíssima de enquadramentos e molduras de tela, mas depois de revelar quem está assediando o detetive, de fato as referências iniciais mais de mistério são abandonadas e o filme assume personalidade de um romance esquisito. Esquisito num bom sentido, claro, mas ainda assim não tão potente quanto seu princípio. As cenas surrealistas que alongam uma conversa telefônica fazendo tudo o que é imaginado vir à vida, seja dentro do apartamento enclausurado do protagonista ou mesmo numa floresta que só existe na cabeça dele, muda inclusive a cromática do filme, que vai ganhando outros tons mais vívidos e vibrantes. A parte mais interessante é todo o subjetivismo preservado do início da projeção, onde tudo o que vem a acontecer, inclusive a outra pessoa do outro lado da linha telefônica pode ser fabricação da sua mente, dando ares patológicos à solidão social, mas o filme prefere dar uma leitura mais linear explicitando o romance mais ao final, o que não prejudica uma grande incursão como longa de estreia.