40ª Mostra de São Paulo: Balanço do 4ºDia

Dois dos melhores filmes do Festival: Paterson e Canastra Suja

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24 de outubro de 2016

Se o espectador da Mostra de São Paulo estiver com um tempinho, realmente vale a pena dar um pulo na Exposição Por trás da Máscara: 50 anos de “Persona”, exposição que comemora o aniversário de meio centenário de um dos filmes mais famosos do saudoso mestre do cinema Ingmar Bergman é trazida pela 40ª Mostra de SP para o Itaú Cultural, junto com resgate de alguns de seus filmes remasterizados.

Porém, voltando à rotina de filmes, alguns dos melhores exemplares desta Mostra com certeza são “Paterson” do mestre Jim Jarmusch, que concorreu à Palma de Ouro em Cannes 2016, e “Canastra Suja” do premiado diretor Caio Sóh. Além do desafio social que nos é trazido por “Banco Imobiliário”.

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“Desde pequeno nos ensinam que existem três dimensões das coisas: a largura, a profundidade e a altura. Mas aí aprendemos que existe uma quarta dimensão: o tempo. Então poderia existir outras, uma quinta, sexta, sétima…dimensões.”

Com estes versos o protagonista em determinado momento da projeção resume muito bem toda a estrutura narrativa usada no inventivo e minimalista novo filme do mestre indie Jim Jarmusch: “Paterson”. Paterson nome próprio do personagem-título na pele do promissoramente crescente ator Adam Driver, e Paterson nome da cidade onde ele vive. Uma duplicidade de nomes e simbologias que permeará toda a história. Afinal, a estrutura de tempos prenunciada no início deste texto quer dizer que acompanharemos o protagonista por 7 dias da semana, em todos os seus afazeres, manias e lugares de hábito, e mostrando como pode haver vários significados para as mesmas coisas que só percebemos com a quebra da rotina através da ruptura da repetição. Repetição é a palavra chave. Quantas vezes podemos ver a mesma cena ou cenário até notarmos algo diferente ou novo ali? A conta disso, e por Paterson dirigir um ônibus cuja linha também se chama Paterson, que ironicamente o cineasta faz deste protagonista onipresente um coadjuvante de várias narrativas alheias, fluindo na tela como tentáculos de uma mesma história repetida em outras sinas. As conversas informais no ônibus (lembrando “Nós e Eu” de Michel Gondry), com a câmera sempre presa do lado de dentro da janela, mesmo quando mira pra fora, são alguns dos momentos mais originais do longa. Como a dupla de amigos fracassados que se gaba da relação com mulheres e é ironizado pela sobrancelha arqueada de uma incrédula ouvinte ao lado. Paterson apenas ouve. Passivamente. Tudo inspiração para seu caderninho de poesias, todas feitas das coisas mais ordinárias do dia-a-dia, como sobre caixinhas de fósforos para significar o amor por sua esposa, pois um fósforo aceso pode significar a primeira vez que conheceu sua mulher e acendeu um cigarro para ela. E isso quer dizer amor para ele. Pois a chave de seu personagem é a contemplação, como também o é em vários outros filmes do diretor Jarmusch, sempre com arquétipos de personagens interiorizados para refletir a vida, como um samurai em “Ghost Dog” ou vampiros em “Amantes Eternos”, e aqui um poeta meio samurai e meio vampiro, cuja espada ou os caninos são a caneta…

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Filmes são feitos para enganar. Afinal, cinema é mentira. Resta saber se a intenção do realizador é que os personagens enganem o espectador, ou que o filme engane os personagens junto com o público, de modo tão natural que ninguém perceba que foi ludibriado… Ao menos esta é a naturalidade que quase todo realizador almeja, tocando uma emoção verdadeira na plateia, independente de quais artifícios farsescos sejam necessários para tanto. Eis que o diretor Caio Sóh, agora com uma trilha de três longas premiados na carreira, aporta com seu quarto inédito e exclusivo “Canastra Suja”, que, como o nome já diz, acarreta que seus personagens façam parte de um jogo como cartas onde nem eles mesmos nem o espectador sabem qual será a próxima jogada. Numa história tão intrincada, dizer qualquer coisa a mais sobre a trama poderia prejudicar a experiência da projeção, então bastando adiantar que se trata de uma família disfuncional cercada de enganos, cada membro em autonegação ou escondendo um segredo. A partir daí, o psicológico de cada um será testado, pois não necessariamente o segredo que pensam estar descobrindo uns dos outros pode ser o que de fato está acontecendo em cena. Por isso a própria estrutura do filme é dividida em capítulos como movimentos de um jogo de cartas, e nisto Caio pega uma leve inspiração nos textos de Tenesse Williams para falar dos personagens com psicológicos marginais, que fazem jogos de cena no palco, invertendo quem domina e quem subjuga, como “Gata Em Teto de Zinco Quente” e “Um Bonde Chamado Desejo”, só que aqui Marco Ricca seria a mistura entre Stella e Blanche, e Adriana Esteves é que seria Stanley.

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“Banco Imobiliário” ou “Monopoly” na versão original era o nome de um famoso jogo de tabuleiro onde se construía uma cidade de mentirinha com dinheiro de mentirinha. Eis que agora o nome foi cunhado para um documentário sobre o real Mercado imobiliário e sua expansão urbana constante, gerando empregos ao fomentar a economia, porém ao mesmo tempo um precipício social através de especulação hipotecária e desapropriações de famílias humildes. Mera consequência evolutiva ou responsabilidade criminosa de especuladores de Mercado? São apenas algumas das perguntas que o cineasta Miguel Antunes Ramos tenta responder em seu longa de estréia. Em um universo multipolarizado em mosaico, ainda que de início um pouco didático, o documentário tenta mostrar vários lados de uma mesma moeda, perpassando a vida de alguns corretores que trabalham desde a aquisição predatória dos terrenos de construção para futuros grandes condomínios de vários blocos; bem como o lado dos incorporadores, que especulam o mercado financeiro para obter lucro. Ou mesmo o marketing de venda com maquetes e vídeos fantasiosos que vendem uma vida “melhor”, como se transformassem a vida humana em marionetes dessas mesmas maquetes. Dos apartamentos de luxo com mais de cem/duzentos metros quadrados aos humildes e risíveis dezoito metros quadrados que alguns corretores têm a coragem de vender como cômodos e necessários para parte da população. A venda pelos corretores mostrada de diversas formas durante a projeção nada mais é do que uma performance. Muitas vezes hilária por sinal. Vide os corretores que se dividem em dois personagens para vender, com nome de guerra e tudo. Os corretores geram empatia, os incorporadores não. Isso fala sobre a construção da dialética. Ou seja, diante da decisão consciente de quase não mostrar o lado do povo enganado pelas incorporadoras, com raras exceções onde denunciam os atrasos na entrega da obra e as inflações constantes dos juros sobre juros hipotecários, a câmera vira o único contraponto desse mercado multimilionário. Tanto que o humor que volta e meia surge na tela serve mais como catarse do que para ridicularizá-los.

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