40ª Mostra de SP – Balanço do Primeiro Dia

O aguardado filme "O Apartamento" do iraniano cult Asghar Farhadi, premiado em Cannes por roteiro e ator, além do novo do cinemanovista Rosemberg Filho, Guerra do Paraguay, premiado em Cine PE

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21 de outubro de 2016

O primeiro dia da 40a Mostra de São Paulo já começou com uma viagem etnográfica, passando por Israel, Irã, Paraguay e Brasil…e até Estados Unidos. O aguardado filme “O Apartamento” do iraniano cult Asghar Farhadi, premiado em Cannes por roteiro e ator, além do novo do cinemanovista Rosemberg Filho, Guerra do Paraguay, premiado em Cine PE. Além do laureado como filme estrangeiro em Sundance 2016, “Tempestade de Areia” da diretora Elite Zexer, e a comédia woodyalleniana “O Plano de Magie” da diretora Rebecca Miller, com Julianne Moore, Greta Gerwing e Ethan Hawke.

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O aguardado e laureado em Cannes com roteiro e ator para Shahab Hosseini, “O Apartamento”, é a nova ousadia dramatúrgica do mestre do ilusionismo social, o iraniano Asghar Farhadi, que neste exemplar se supera mais uma vez. Com uma mise-en-scène ainda mais elegante e complexa do que em “O Passado”, o diretor constrói uma metalinguagem com uma peça de teatro dentro do filme, sobre “O Caixeiro Viajante”. E, para transformá-la em linguagem visual, revela tanto na primeira cena quanto na última, que se passam nos palcos da peça, como fará seu show de marionetes através do jogo de luzes e refletores. Ou seja, o que for iluminado, ou onde Asghar trouxer luz às questões, será onde esmiuçará o que está sob as camadas superficiais dos personagens. Como o diretor trabalha em um território muitas vezes hostil ao cinema no Irã, cuja política já censurou grandes conterrâneos como Jafar Panahi e o recém falecido Abbas Kiarostami, Farhadi burla a censura de forma metaforicamente inteligente. Divide a narrativa entre dois edifícios: o que servia de antiga moradia dos personagens, que sofreu algum tipo de enfrentamento do governo ou desapropriação, jamais perfeitamente explicados, pois a única dica é uma escavadeira que está destruindo os alicerces de um prédio rachado e quase ruindo, o que obriga todos a evacuarem; E o apartamento novo alugado pelo diretor geral da peça de teatro onde o casal de protagonistas trabalha, que parece um ótimo lugar, mas esconde podres sociais que podem afetar o casal… Esta separação entre dois edifícios nada mais é do que a distinção entre o antigo Irã e o atual, o passado decadente e demolido e o presente que se faz parecer novo e ideal, mas não gosta de mostrar a verdadeira face prejudicial… Melhor não descrever mais nenhum detalhe da sinopse, senão os acima referidos, pois cada acontecimento causa profundas reflexões e mudanças nos personagens. Por isso a atuação do casal está tão inspiradora, tendo, inclusive, a atriz Taraneh Alidoosti merecido igualmente a láurea que sua contraparte masculina levou em Cannes (mas que não foi nem para ela, nem para as favoritas Sônia Braga por “Aquarius”, nem Isabelle Huppert por “Elle”, e sim para Jaclyn Jose por “Ma’Rosa).

Leia na íntegra: http://almanaquevirtual.com.br/o-apartamento/

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Em “Guerra do Paraguay” do cineasta da contracultura do Cinema Novo na década de 70, Luiz Rosemberg Filho, a matéria-prima do mosaico será a memória fragmentada que as novas gerações talvez não se lembrem ou não estudem o bastante nas escolas desta que foi uma das poucas guerras com que o Brasil se defrontou para além de suas fronteiras. Porém, mais do que isso. Rosemberg despe a Guerra do Paraguay para seus significantes mais comuns a todas as Guerras: o imperialismo embutido numa misoginia patriarcal arcaica que teima em tentar reinar até hoje. Sim. As três mulheres em cena, cada qual à sua maneira, na ausência ou na presença, estão ali não como coadjuvantes, mas como protagonistas purificadoras ácidas e nada passivas da História da Humanidade. Tal qual o papel da mulher tenha sido reconhecido ou relegado na sociedade através dos séculos, mas sempre testemunha resiliente. E a arma dada a elas é não outra que o poderoso Teatro. O agregador e revisor de todas as crônicas de valores como fonte de tudo. De Shakespeare a Brecht, de Molière a Beckett, todos são citados como armas contra um homem em pele de cordeiro, trajando uniforme de soldado, pertencente ao bom e fiel rebanho do Estado que só deve obedecer e nunca questionar, o contrário do que a Arte significa.

Leia mais: http://almanaquevirtual.com.br/guerra-do-paraguay/

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A comédia woodyalleniana “O Plano de Magie” da diretora Rebecca Miller, com Julianne Moore, Greta Gerwing e Ethan Hawke, traz de volta a mesma química que Greta anda tendo em seus últimos filmes, todos parecendo interpretar uma versão feminina do próprio Woody Allen, mas até agora a própria atriz não tendo atuado em nenhum filme dele. Neste exemplar de Rebecca Miller, diretora de “O Mundo de Jack e Rose” e “A Vida Íntima de Pippa Lee”, ela alivia mais para a comédia o que antes focava mais em dramas, e usa do carisma de Greta juntamente com o star system de Julianne Moore e Ethan Hawke para assumir a fachada farsesca de uma inocência boba, mas intencional. A inocência esconde manipulações e dissimulações, com um livro que está sendo escrito pelo personagem de Hawke onde ironiza sua própria vida, afastando-o da esposa (Moore) e encontrando uma amante em Greta. O problema é que para além do livro, o personagem da vida real se torna insuportável e nada encantador como Greta acreditava, e ela decide fazer um jogo para juntar de novo a esposa com o ex-marido. Com alguns momentos divertidos, e outros apenas para passar o tempo, há um frescor na junção improvável destes personagens. E Moore como sempre surpreende com um arquétipo totalmente novo, meio caricatural, mas acertado para o tom do filme. Engraçado que o estilo esquisito dos personagens de se vestir se repete o filme todo, como se os aprisionasse em suas próprias limitações. Mas até que o final procura tentar soluções diversificadas que voltam para a mesmice óbvia só no minuto final da projeção.

Vale ressaltar a ironia de o Almanaque Virtual ter assistido no mesmo dia o novo “o Apartamento” de Asghar Farhadi, que contém referências a “A Morte do Caixeiro Viajante”, romance de Arthur Miller, sendo que Rebecca Miller é filha do grande escritor, além de esposa de Daniel Day Lewis. Parece um ciclo completo.

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O laureado como filme estrangeiro em Sundance 2016, “Tempestade de Areia” da diretora Elite Zexer é um interessante mosaico etnográfico sobre culturas rígidas no sul de uma Israel beduína menos cosmopolita ou menos evoluída do que a imagem que se tem para o resto do mundo. Com autorização ainda do casamento poligâmico, vemos um pai de quatro filhas mulheres casar de novo, e sua primeira mulher ainda ter de ajudar nos preparativos usando bigode, como se representassem os homens na sociedade, enquanto os próprios estão se divertindo num tipo de despedida de solteiro longe da cerimônia. Mas quando a filha mais velha, xodó do pai, que tem a cabeça super para frente além de ser autorizada a estudar e dirigir, decide casar, as tradições vão ser colocadas à prova. E toda a rigidez inicial da mãe e solidariedade do pai vão ruir frente o que realmente escondem os usos e costumes que condicionam a região. Isto ocasiona um interessante giro copérnico entre os personagens, principalmente no que diz uma sororidade entre as mulheres, que, por mais duras que possam ser, são apenas frutos do meio e tentam ajudar umas às outras a sobreviver a condições muito piores do que as conquistadas até então. As imagens do filme justificam o título “Tempestade de Areia” não apenas como metáfora para a puberdade e a rebeldia dos jovens contra as gerações anteriores em um típico rito de passagem, mas também significa que o imenso deserto bege e opressor, cuja areia cobre tudo e todos, e entra em todas as frestas, são a mesma coisa que o fardo cultural imposto ali. As mulheres usando lindos hijabs multicoloridos que vão sendo cobertos de areia ou sujos no deserto, são lavados, vão para o varal para secar e voltam a ser cobertos de areia, como se não conseguissem se livrar das tradições que nunca levam em conta a sua voz. A fotografia, porém, evita grandes planos, uma pena para o tipo de cenário em mãos, mas concentra em cada personagem como foco no meio do grupo, para manter o aspecto psicológico. A melhor parte é não enjoar o espectador com explicações da cultura israelense, e sim apenas exemplificá-la na tela, de modo mais dinâmico. Com boas atuações, é o primeiro filme da diretora Elite Zexer, provando potencial para lidar com questões familiares que ultrapassam o micro para o macrocosmos.