40ª Mostra de SP – Balanço do Segundo Dia

Novo filme de Jodorowsky, "Poesia Sem Fim", além da surpresa laureada em Sundance "A Atração", e dos medianos "Hedi", Urso de Prata de melhor ator em Berlim, e o premiado "Mimosas"

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22 de outubro de 2016

No 2º dia tivemos o filme de Jodorowsky, “Poesia Sem Fim”, além da surpresa laureada em Sundance 2016 “A Atração”, e dos medianos “Hedi”, Urso de Prata de melhor ator em Berlim, além de prêmio de melhor primeiro longa, e o premiado pela Semana da Crítica em Cannes 2016 “Mimosas”.

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O novo “Poesia Sem Fim” do mestre chileno da direção Alejandro Jodorowsky é uma semi-autografia inspirada em si mesmo para construir lembranças visualmente como versos e estrofes de um poema, com criatividade ímpar típica do cineasta e uma narrativa lúdica. Porém será inevitavelmente controverso: parte do público achará pretensão e auto-adulação uma boa parte dos fatos narrados, como se ele estivesse engrandecendo as coisas por seu olhar poético, quando elas contém agruras muito maiores do que isso na vida real. E parte do público perceberá que a beleza da alma alcançada por alguns segmentos transcende qualquer manipulação (e todo o filme não é manipulação?!) e alcança emoções verdadeiras na plateia. Existe uma grandiosidade logo no início da projeção que se fisgar o espectador não soltará mais. Ele recria o Chile de sua infância com cartolinas preto e branco erguidas na frente dos prédios por toda cidade, cartolinas com os desenhos antigos dos prédios. É de uma beleza ímpar de tirar o fôlego. Até o trem é de cartolina preto e branco, movido por pessoas todas vestidas de preto por trás dos objetos cênicos que ao mesmo tempo que representam fantasmas da memória, que não queremos ver, também brincam de ser teatro como auxiliares de palco para retirar coisas da peça que não servem mais naquele Ato e fazer a peça ir pra frente. O povo usa máscaras, para mostrar que não sabia enxergar, lembrando que o Chile sofreu ditadura por toda a juventude de Jodorowsky, além de que os artistas e boêmios sempre foram vistos com maus olhos, e por isso é condizente o olhar tão doce e condescendente com que mira seus colegas de arte, inclusive a si próprio. Mas acima de tudo o filme tem de ser visto não como massageador de ego, e sim como prova cabal de que a arte pode e deve curar feridas da realidade, sublima, engrandece, corrige, conserta até a morte, na inesquecível cena em que, numa das intromissões do próprio Jodorowsky em pessoa na tela, ele ajuda seus personagens a corrigirem um erro do passado em sua família que jamais conseguiu quando eles eram vivos. Palmas para a catarse real, que ousou compartilhar conosco.

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A Atração de Agnieszka Smoczynska (Córki Dancingu) é uma incrível mistura imagética entre Vera Chytilová e Aki Kaurismaki. Quem poderia imaginar? Uma revisão do tema “Pequena Sereia” só que de forma obscura e…..musicada!!(?). Não, não como a Disney, mas de forma ácida e crítica, onde o canto das sereias vira hipnose de gênero para discutir as relações de poder na sociedade. Sim, musical. Mas as cenas com música dão todas muito certo em termos de linguagem. Quase uma modernização do gênero musical cult de terror no estilo “Rocky Horror Pictute Show” e “Pequena Loja dos Horrores”. A diretora Agnieszka usa quadro a quadro para contar a história de forma bastante visual, pintando em cores, luzes e filtros de câmera que acrescentam tons verdes, vermelhos ou sombreados de acordo com as múltiplas personalidades exibidas. As sereias são mais do que mulheres, são forças da natureza, instintivas e mortais, que também sentem, amam e….comem! Comem gente!

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“Mimosas” de Oliver Laxe é um filme feito em coprodução entre Marrocos, França, Qatar e Espanha, ganhador da Semana da Crítica em Cannes 2016. Com certeza muitas ideias originais fluem aqui, mas ao mesmo precisava de um pouco de firmeza que talvez por ser apenas seu segundo filme, tenha faltado a Oliver para manter sua obra nos trilhos. O início promete e muito: simultaneamente a uma empresa de taxis contratar novos empregados numa Marrocos pobre, ao mesmo tempo uma caravana, trajando roupas que parecem se situar no passado, tenta atravessar deserto e montanhas de neve para levar um Sheik moribundo que deseja ser enterrado na terra medieval de Sijilmasa, onde as pessoas poderão ir em peregrinação visitar seu túmulo. Porém, os primeiros guias designados são uma dupla que primeiramente desejava roubar a caravana e só pensavam em ser pagos pelo serviço, e, depois, um outro homem que vem da segunda narrativa dos taxistas chega alegando saber o caminho certo. A eles ainda se juntam um pai e uma filha humildes. Na verdade, grande parte da narrativa é levada pela força dos dois personagens centrais, o ladrão e o taxista, que disputam uma provação de fé. O taxista começa o filme com uma parábola muito interessante que permeia a história: quando Deus inseriu a alma no primeiro ser humano, Adão, o diabo teria se curvado só o bastante fingindo reverência para aprender o segredo da alma humana e tentá-la até o final dos tempos. Por isso as provações da caravana são muito maiores do que apenas o tempo e a geografia belíssimas da fotografia em grandes planos e panorâmicas do filme, e sim em relação à alma. Mesmo quando atacados esporadicamente por tiroteios no meio das montanhas, o que interessa à narrativa muito mais reflexiva é saber no que eles acreditam ou posam vir a acreditar. O problema é que toda esta premissa interessante resvala num vazio estético por pelo menos todo a segunda terça parte do filme, e depois na terça parte final a subjetividade da mistura dos dois tempos cronológicos, com roupas e prédios do passado e do presente, começam a se misturar de forma não criativa, simplesmente vã e tola.

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“Hedi”, coprodução entre Tunísia, Bélgica e França, ganhou Urso de Prata em Berlim e melhor primeiro longa para Mohamed Ben Attia. Apesar de parecer um drama familiar simples, vira um romance proibido até que doce, numa sociedade onde as pesoas ainda se casam por sistema arranjado entre famílias, e pagam altos dotes para tal. Noivo por três anos, sem poder ver ou tocar na noiva, e não engatando na carreira, ele é enviado pela empresa onde trabalha, Peugeot, para vender projetos da empresa à distância, e, numa destas viagens, conhece a funcionária e dançarina do hotel onde está hospedado. Mulher viajada e descolada, na pele da ótima Rym Ben Messaoud, é dela que vem as melhores catarses do filme, e fazem até o protagonista ser ligeiramente engraçado às vezes, pois o personagem derrotado dele não gera muita empatia propositalmente pela câmera, que de início apenas o retrata pelo ombro ou de costas, sempre com a cabeça abaixada em resignação, além de iluminações escuras e terrosas. A partir da entrada dela tudo muda, ele começa a ganhar planos frontais, claros, de rosto limpo e sorridente, passando a permitir personalidade do personagem. Mas não é o suficiente para fugir do lugar comum de uma história que já se viu inúmeras vezes.