50º Festival de Brasília: Balanço do Primeiro dia de Mostra Competitiva

Mostra Competitiva começa com debates fervorosos sobre racismo e lugar de fala

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18 de setembro de 2017

Os filmes da primeira noite de Mostra Competitiva no 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro não fizeram feio nesta edição tão especial de aniversário de meio século.

Começando com um curta-metragem inusitado que surpreendeu a todos, “O Peixe” dirigido por Jonathas de Andrade e montado por Tita, é um filme de Pernambuco com uma pegada esdrúxula: mostrar pescadores que abraçam os peixes capturados, afagando-os até o fim. Ou seja, a imagem do abraço em um peixe que está morrendo por sufocamento fora d’água é de uma ambiguidade extrema, pois pode querer dizer matar com carinho ou matar com tortura, pois a forma mais “humana” de se matar um animal para propósitos de se alimentar seria a morte instantânea. Um forte impacto que se prolonga pela projeção através de pescadores diferentes, cada vez mais velhos conforme se segue, e com situações, formas de pescar e peixes diferentes. Belo impacto de plasticidade da imagem, em uma estranha erotização dos corpos em cena, incluindo dos peixes (conforme admite o próprio diretor em debate), mas que, sem um pouco mais de contextualização, não se dá para associar a morte dos peixes por afago com metáforas maiores de memória, tradição geracional e classe sobre o desaparecimento cada vez maior de populações ribeirinhas que mantenham o costume da pesca manual por avanço do urbanismo e das tecnologias ou mesmo por mudanças de planos públicos como com a criação repentina de represas que removem todas estas pessoas humildes de suas casas e impactam a fauna e flora do local, como o caso Mariana em Minas Gerais está aí para provar.

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Porém, o verdadeiro destaque da noite foi o filme a seguir. “Nada” de Gabriel Martins, e da multipremiada produtora mineira Filmes de Plástico, foi um impacto acachapante e poderoso que derrubou a todos em ovação constante por todos os créditos finais. E não sem razão. Competiu na Quinzena dos Realizadores em Cannes 2017. Foi primeiramente exibido no Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul – Brasil, África e Caribe – 10 Anos no Rio de Janeiro, e agora aporta diretamente no Festival de Brasília em Mostra competitiva. O filme possui inúmeras camadas sobre a liberdade do indivíduo construída por uma sociedade que não surgiu do nada, e sim de anos para cá de investimentos de setores públicos voltados para o cidadão, desde saúde à educação. E se hoje temos a liberdade de escolhermos ser quem quisermos, e até escolher não ser se assim quisermos, advém de muita luta e batalha – Mesmo que os novos tempos queiram tentar destruir isso.  É sobre isso que versa o filme e seu título. Uma jovem estudante, Bia, colocada ante a decisão de para qual faculdade irá querer prestar vestibular, e a resposta tanto para a diretora da escola quanto para seus pais é a de que ela não quer…nada. E ela possui este direito, de não ser condicionada a um sistema predatório da forma que o outro se impõe, mas sim que ela possa decidir de dentro para fora em seu próprio tempo. Para isso, a produção escolheu uma atriz não-profissional, Clara Lima, que na vida real é cantora de batalhas de hip hop que costumam até ser bastante agressivas e machistas, mas ainda assim quebra estereótipos por simplesmente ser quem e como ela é num meio que não a define. A linguagem com que a história é contada é um primor à parte, até porque Gabriel é um diretor de fotografia de mão cheia, e aplica suas técnicas nos filmes em que também assina como cineasta autoral, de modo a se utilizar por exemplo de travellings com grande angular em câmera lenta, mas sempre integrados à narrativa para gerar desconforto de deslocamento pela textura que as ruas povoadas vão ganhar diante deste nada experienciado pela protagonista. Outra utilização soberba é a da trilha sonora, com levantes de som que dominam a cena como um clímax para chegar a lugar algum, assim como o importante vaguear filosófico da personagem. O objetivo aqui não é o fim, e sim o direito de fazer o que se quer até que o final chegue.

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Depois, fomos interpelados por um longa-metragem curioso, porém de muitos questionamentos necessários: “Música Para Quando As Luzes se Apagam” de Ismael Caneppele é um filme mais sensorial do que narrativo, aludindo a querer falar sobre a questão trans, de suma importância em uma edição do Festival que se importou bastante em realçar isso, mas acaba derrapando na contradição do próprio discurso de seu cineasta. Tudo bem que quando o filme fica pronto, ele se liberta de seus criadores e vira do mundo, mas parte deste discurso quando muito equivocado pode ser identificado até mesmo nas linguagens do filme enquanto assistimos sem nem precisar escutar nenhuma das palavras do próprio diretor. Infelizmente, tanto diretor quanto a câmera ao retirar a fala da personagem da atriz não-profissional Emelyn Fischer e transformá-la em um corpo num constante movimento de câmera em prol de uma bela fotografia, porém em detrimento do próprio lugar de fala dela, vai tornando-se vazio e incompleto. E isto é especialmente desvelado quando se insere a personagem de Julia Lemmertz que, independente da excelente atriz que é, e de emprestar enorme carisma à persona de parecer interpretar a si mesma, acaba exotizando a protagonista. Julia jamais tem uma explicação específica para estar ali, apenas a de ser uma artista em contato com aquela realidade que se descortina de uma jovem que vai assumindo a identidade de um menino, ‘Bernardo’, e ela a acompanha para debater algumas fases e ajudar com que se sinta à vontade. A química com Julia é inegável, mas isso se deve a forte presença em cena da mesma, e alguns quadros do filme são de beleza ímpar, como as cenas do bambolê de neon que iluminam beijos de liberdade, porém acabam como belos fragmentos poéticos num devaneio interessante e difuso, que soa leigo e até um pouco como um retrocesso frente a posição atual da teoria queer que luta por avanços pela não-binariedade e liberdade de fluidez da sexualidade na igualdade de direitos das diferenças.

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Já os filmes da última sessão de Mostra Competitiva da mesma noite, “Peripatético” de Jéssica Queiroz e “Vazante” de Daniela Thomas, acontece uma catarse de efeitos inversamente recíprocos. O filme “Peripatético” de Jessica Queiroz acabou tendo enorme relevância para se problematizar o filme de Daniela Thomas, em muito se devendo à potência de contraste dada por terem sido conjugados na mesma sessão. Sua conjugação escancara o vácuo entre como é fazer uma produção nos dias atuais em que se haja uma real crítica social originária do respectivo lugar de fala e de sua representatividade na tela, em contrapartida de narrativas que apenas reiteram a normatividade do status quo – Independente da beleza plástica com que podem ser revestidas, assim como um bombom velho dentro de um invólucro da Kopenhagen. Bem, em relação à parte estética não se há o que falar de nenhum dos dois filmes, ambos inovadores em seus nichos opostos também neste quesito, mas que até aqui só amplia o abismo: por um lado a fotografia em P&B e sóbria de “Vazante” e do outro o colorido vibrante de “Peripatético”. O primeiro tentando emular um maior realismo e crueza da violência histórica, enquanto o segundo buscando no lúdico a catarse que potencializa e entranha a crueza do real na atualidade, que precisa da reinvenção de um imaginário positivo para existir afora da violência dos telejornais. Enquanto o filme de Daniela Thomas fala de escravidão mais uma vez pelo ponto de vista dos brancos escravocratas, narrativa repetida por tempo demais dentro do cinema que se pressupõe uma arte antropofágica por essência a reinventar a si mesma, o filme de Jéssica reincendeia o enregelamento dos afetos de questões da violência atual que transbordam de significados interativos sobre as noções pré-concebidas da plateia. Tratar-se-ia da história de três jovens amigos amadurecendo a decidir o resto de suas vidas pela frente, até serem atropelados pelos fatos reais de 2006, quando a polícia de SP reagiu ao crime organizado subindo comunidades periféricas e retaliando em cidadãos que não tinham nada a ver com isso. Eles apenas perteciam a uma estatística demográfica que foi feita de alvo. Mas o espectador de telejornais que recebe estatísticas está cada vez mais apático e auto-centrado e é através da catarse metafórica da arte que se consegue penetrar em sua armadura.