51° Festival de Brasília: Debate dos Filmes de Abertura

Debate sobre os filmes de abertura: "Imaginário" de Cristiano Burlan e "Domingo" de Clara Linhart e Fellipe Barbosa.

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15 de setembro de 2018

51° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro:

Debate sobre os filmes de abertura: “Imaginário” de Cristiano Burlan e “Domingo” de Clara Linhart e Fellipe Barbosa. Mediação por Eduardo Valente.

Clara Linhart começa o debate agradecendo o convite e por seu filme “Domingo” abrir o 51° Festival de Brasília.

Ela ressalta que foi um experiência diferente exibir o filme no Festival de Veneza e aqui. Em 1° lugar porque é um filme muito falado ao mesmo tempo por vários personagens e as legendas não conseguem abarcar todos os diálogos. E porque há muitas particularidades brasileiras que a plateia daqui pode sentir melhor, tanto que houve muitas reações pertinentes na exibição de ontem que não houve em Veneza.

Fellipe Barbosa agradece toda a equipe presente, inclusive realça o trabalho do roteirista Lucas Paraízo que é o grande autor deste trabalho (que escreveu a primeira versão deste roteiro em 2005, cuja história se passa em 2003 no primeiro dia da posse da eleição do então Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e jamais imaginaria que Lula estaria preso agora).

Fellipe mencionou que em Veneza ele achou que a recepção foi mais fria durante a projeção, mas foi mais aplaudido do que aqui. Enquanto que aqui teve recepção muito mais calorosa, porém talvez as pessoas tenham ficado mais sem saber como reagir ao final. Mas fala que foi muito interessante ver a reação de público ante a atualidade que estamos vivendo, porque este roteiro de 2005 foi sendo atualizado e trabalhado à luz do presente e criando desfechos e vinganças que não havia no original.

Já Cristiano Burlan do filme “Imaginário”, um documentário em curta-metragem, fala que é interessante esta distinção que o curador Eduardo Valente criticou na noite anterior sobre o tratamento que a Ancine está dando para curtas e para longas. Burlan ama voltar a fazer um curta, é também professor (na Academia Internacional de Cinema), e seus alunos fazem muitos curtas, e às vezes fazer curtas é tão ou até muito mais trabalhoso do que fazer longas. Como a diferença de fazer um conto ou um romance, parafraseando Julio Cortáza, se comparando com uma luta de boxe, onde o curta/conto seria uma luta ganha por nocaute e o longa/romance seria ganha por pontos depois de vários Rounds.

Burlan ia fazer um filme sobre um outro filme e adquiriu arquivos da cinemateca Suíça, mas acabou não fazendo e utilizando essas imagens em outros filmes. E para seu filme “Imaginário” ele encontrou esses áudios da época de Getúlio e do AI-5 e uniu o que a imagem de um território estrangeiro poderia ter em comum ou mesmo ter criticamente com o áudio tão particular à nossa história.

Perguntados sobre os personagens dos funcionários da casa burguesa do longa-metragem “Domingo” de Clara Linhart e Fellipe Barbosa, o roteitista Lucas Paraízo responde:

O roteirista fala sobre a evolução destes personagens que foram ganhando espaço no roteiro e virou uma questão coletiva no roteiro, e do elenco mesmo, em fazer crescer a todos.

A atriz Silvana Silvia da personagem Inês que é a única atriz negra do elenco fala que teve um trabalho para se fazer representar, de não mais se colocar em submissão, unido ao desejo de sair.

Clara acrescenta a felicidade da escolha pelos artistas que representaram estes papéis. Que Silvana é uma atriz muito forte e tinha traços muito poderosos que iam além do óbvio.

Fellipe fala que tentaram transformar estes personagens e trocar essa história de opressão, mesmo que Fellipe em autocrítica reconheça certo desequilíbrio ao apresentar estas diferenças de classes já que a motivação inicial era a de partir do ponto de vista dos donos da casa. Então mesmo querendo ampliar os coadjuvantes para lhes tirar deste lugar de subalternidade e lhes dar autonomia e liberdade, de fato há um desequilíbrio de base, tanto no casting, como Silvana colocou, quanto no roteiro.

Sobre questões de gênero: Lucas fala que procura criar personagens complexos, independente de gênero, raça e etc… Foi assim com “Aos Teus Olhos” e “Gabriel e a Montanha” também. Lucas fala que o personagem de Diego (que se veste de menina) lhe é muito particular, e traz memórias e preconceitos que já teve de enfrentar. Na versão original era diferente esta cena, e os diretores e atores ajudaram a mudar. Originalmente era mais violenta e agressiva, só que era mais física, arrancava os colares e tirava a maquiagem dele, mas o próprio ator que representou o pai acrescenta que jamais faria isso, ele iria se maquiar junto com seu filho… E acabou virando agressiva de maneira passiva-agressiva. Mas ainda precisava ser agressiva porque o personagem dele, mesmo que amigo, meio que era empregado dos protagonistas, e descontava na esposa sua opressão. Assim como os patrões tratavam ele como amigo, mas ainda era empregado.

Fellipe lembra que além dos dois diretores (ele e Clara), outros nomes do filme também são diretores em sua carreira e nisto o trabalho foi bastante horizontal em escutar a todos.

Fellipe realça, quando perguntado sobre influências, que Lucrécia Martel e “O Pântano” estiveram muito presentes desde o começo, desde que o roteirista Lucas estudou em Cuba, mas não queriam chegar perto demais do mesmo impressionismo de Lucrecia, pois adotaram outro tipo de pantomima. Cita também a referência a Tchekov. Fellipe, Clara e Lucas pensaram também muito em Buñuel, no burlesco, e Renoir também, e botaram a câmera 2 passos para trás, para realçar a comédia e a sátira. Mas há diferença entre o exterior e o interior, exterior com tripé e à distância, e no interior câmera na mão aproximando, mais caótico, e tudo isso foi sugerido pela diretora de fotografia Louise Botkay. Mas quiseram distanciar da Lucrécia para não correr o risco de escorregar como outros que tentam referenciar Lucrécia e não conseguem.

Clara fala que há muitos filmes de patrão e empregado recentemente, então há diálogo entre eles, como “O Som ao Redor”, “Que Horas Ela Volta?” Etc…

Fellipe lembra que um de seus filmes anteriores, “Casa Grande”, é ainda muito reconciliatório, o que existe muito dentro de si também. Mas foi interessante trabalhar as críticas anteriores à “Casa Grande” e ao mesmo tempo trabalhar a impossibilidade de reconciliação às vezes, mas isso ainda o atravessa muito recentemente. Ao mesmo tempo, ele lembra do impacto do filme “Eu Não Sou Seu Negro” de Raoul Peck sobre o pensador James Baldwin, um dos filmes mais anti reconciliatórios da atualidade, mas onde Fellipe acredita ao mesmo tempo que analisando o quadro geral do pensador, sua postura fosse no fundo no fundo reconciliatória, almejando o dia em que iríamos poder viver para além das nossas diferenças que mais nos aproximam do que afastam.

O ator Augusto Madeira também do filme “Domingo” fala que, sobre o Burlesco, eles descobriram que seria tudo em plano-sequência na hora. Muito é o não dito, o que está por trás. Relações mal arrumadas. Seu personagem tem amor culpado, é pai viúvo, nasceu numa aristocracia em ruína tipo “O Leopardo” de Visconti, de que há algo novo por vir… Talvez seja o filme que menos soubesse como seria o resultado ao filmar, pois era etéreo e muito coletivo. Muita gente em cena e falando ao mesmo tempo e se organizando. E não podiam ver o “vídeo-assiste”.

A atriz Ittala Nandi também fala como membro do elenco de “Domingo” e diz que gostou de não ver o material filmado antes. Seria como o ator ensaiando no espelho, pois engessaria. Ela não costuma ver o que faz. Mas sim, tinha receio de como seria trabalhar isso. A primeira cena, do churrasco, a impressionou, com planos-sequências, com improvisos, lembrando Joaquim Pedro e até Ruy Guerra que trabalhava ainda mais com improvisos. Ittala tem muito orgulho de trabalhar com a nova geração do “novo cinema novo”. Atores experientes, atores iniciantes todos trabalhando juntos em harmonia, graças à direção que não trabalha com rigidez mesmo quando a cena é dura, e sim com amor. Há uma qualidade brasil-latino (que é o que Ittala mais gosta). Pediram que ela decidisse uma música para cantar. Ali em Pelotas no Sul há um clima bastante uruguaio, europeu, influência da fronteira, e por isso escolheu a música que acabou no filme.

A atriz Camilla Morgado fala que ao ver o filme “Domingo” fica claro que os espaços da câmera fora e câmera dentro são espaços da interpretação: Por exemplo, lá do lado de fora era tudo mais solto, livre, extrovertido, enquanto que do lado de dentro, ao bater portas e se trancar e etc, é o lado interno deles, seus segredos. A sua personagem no churrasco é diferente das cenas no banheiro ou no quarto. Foi uma liberdade grande para improvisar e errar, para encenar livremente ao chegar no início das filmagens.

A atriz Martha Nowill faz um contraponto à fala de Ittala em relação ao video-assiste, e discorda de Ittala, pois acredita que o ator fica um pouco apartado do processo assim, e ela própria burlou a regra do video-assiste várias vezes porque gosta de assistir quando acha que deve. Nem sempre acha que deve. Ou negocia com os que acham que não deve assistir, porque tem maturidade para escolher. Incomoda a direção que acha que não precisa assistir. Porque a construção é o que vem pra tela, é o que fica.

Voltando a se falar um pouco sobre o filme “Imaginário”, Cristiano Burlan fala sobre a pergunta que levantaram da plateia se o filme não quis provocar nem choque nem convergência, e sim um estado de confusão. E Burlan diz que era esse estado que queria com as palavras do Rubens Paiva que era um democrata e não um comunista. O som fica na gente. Burlan questiona quem chega primeiro: a imagem ou o som, será que o som ampliaria se fosse tela preta e não  mas com certeza ele queria gerar o estado de confusão.

Em relação à pergunta sobre os pontos descontinuados ou anticlimáticos de “Domingo”, Fellipe diz que o mosaico sempre esteve presente. Algumas cenas no roteiro já acabavam em aberto e outras não, mas às vezes isso mudava na filmagem, como a cena do sanduíche que foi escrita em aberto para não sabermos como acabava o assédio, se em estupro ou não, mas foi construída uma vingança positiva para não acabar com uma opressão que não desejavam.

Clara fala sobre as várias versões às vezes para cada cena. E escolhiam a que melhor representava a essência. Às vezes escolhiam pelo abrupto e interrompia sem dizer o que ia acontecer.

O montador de “Domingo”, Waldir Xavier, fala também sobre o poder do vídeo-assiste e diz que de fato algumas vezes não tinha a informação de qual seria a escolha que iria entrar porque havia muitas opções. Como é um filme jogral de muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo havia muitas opções. Uma das opções para cortar entre elas foram os apagões.

Clara Linhart fala que quando a câmera ficava mais solta na casa, quem decidia era a fotógrafa Louise Botkay, e se falava com os atores sobre a nota de valsa, sobre a câmera dançar. Louise é forte mas tinha doçura. A Câmera na mão sem aparato de maquinária fazia ser um diálogo com os atores. Um exemplo disso era como Louise mudava o salto de acordo com a altura da cena.

Ittala fala o quanto impressionou a agilidade da Louise à la Dib Luft. Era uma mandinga/Soltura entre a parte acima da cintura e abaixo da cintura. Com o acréscimo de ela ser doce.

Fellipe fala que quanto mais as cenas eram externas, maior a liberdade com múltiplos quadros dentro de um só, usando muitos planos-conjuntos.

Já sobre trabalhar com Clara, e dividir a direção com ela, eles começaram a trabalhar juntos desde Dezembro de 2005 quando se conheceram no filme “Beijos de Sal” e desde então trabalham até hoje.

Clara fala que todos os seus filmes foi Fellipe quem montou e que a opinião dele é muito importante para ela. É um Trabalho natural de mais de uma década, Orgânico.

Fellipe acrescenta que às vezes descansa a mente quando outra pessoa sabe responder quando você não o sabe. E assinaram juntos a direção desta vez mais porque é a primeira vez que o roteiro nao foi próprio e por isso dividiram a autoria na direção.

O ator Augusto Madeira falou sobre a importância da construção da memória. E o trabalho conjunto desde o catering ao trabalho de produção bem cuidado e feliz criando um Espaco horizontal realmente se imprimiu no filme. Para exemplificar isso, Augusto conta que Pelotas é o único lugar que ele conhece que quando lhe fala a palavra “obrigado”, ao invés de responder “de nada”, você responde: “você merece”.

Sobre a construção das personagens das jovens filhas dos protagonistas, com olhares sutis no canto da cena em que mil coisas aconteciam ao mesmo tempo, elas dizem que foi meio liberdade e meio ensaiado. Meio a meio.

Clara acrescenta que quanto mais gente falando em cena melhor para criar isso.

A atriz Maria Maria Vitória Valença diz que é ótimo para o ator saber o que sentia naquele momento. Era tanta gente em cena que dividiam os olhares entre as pessoas na

direção. Os ensaios eram despretensiosos. Não era duro nem fixo. Não era a mesma coisa sempre. Enquanto atuava isto lhe ensinou a entender o movimento e não  necessariamente a gravar ele. Aprendeu muito. Lidar com as coisas conforme acontecia. Deu naturalidade para a cena.

Se sentiram muito livres com eles. A cena do sanduiche que a atriz da personagem Rita teve de fazer várias vezes. Às vezes ate mais agressivo. Mas improvisou para formas diferentes. A cena da taça também.

O Montador ressaltou que eram em média 11 a 17 takes por cena. A bela cena do vestido que tem a troca das atrizes, o take que ficou foi o 1° que veio da espontaneidade . E as vezes a esespontaneidade é a melhor opção.

Cristianl Burlan volta a responder sobre seu filme “Imaginário” que a quantidade de material de arquivo era numa proporção de 4 pra 1, ou seja, ao todo uns 73 min. E, diante do debate de “Domingo”, Burlan brinca em dizer que agradece por trabalhar com Imagem de arquivo não precisar de video-assiste.

Martha Nowill fala ainda de improvisação que a boa improvisação só pode nascer de um roteiro muito forte e elenco bem escalado. Nao é tapa buraco. É quando diretores escolhem o que realmente querem. A própria Martha ja fez isso com roteiro próprio.