82 Minutos

Tempos Modernos na máquina feita de gente do samba

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22 de agosto de 2016

Em 1936, o clássico filme de Charles Chaplin “Tempos Modernos” imortalizou a cena onde seu personagem entrava sem querer por dentro da grande máquina em que trabalhava, como se houvesse se tornado parte das próprias engrenagens que a compunham. Agora, essa eterna metáfora em película foi resgatada na era digital pelas mãos de um dos cineastas nacionais de maior maturação documental, Nelson Hoineff, com um dos arquétipos brasileiros mais populares e ainda não explorados à altura de seus alicerces sociais, o Carnaval, em seu novo filme “82 Minutos”. Mais um grande salto após o reconhecimento de crítica e público ano passado com seu último trabalho, “Cauby – Começaria Tudo Outra Vez”.

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O título “82 Minutos” se refere ao tempo que uma escola de samba possui para atravessar o Sambódromo em seu desfile anual na grande noite de Carnaval. Porém, o que são estes oitenta e dois minutos frente ao ano inteiro de preparação de milhares e centenas de pessoas que formam o verdadeiro capital humano do maior portal turístico para o mundo que o Brasil possui? Ainda mais se aquiescendo que a verdadeira composição de todo o luxo é o povo de raiz, das comunidades e da criatividade que consegue transformar poucos recursos em opulência artística multicolorida. Esse é o verdadeiro interesse de Hoineff em ter descortinado entre 2014 e 2015 os principais departamentos de uma escola de samba, através da carismática escola da Portela, cujos fãs torcem por uma vitória que já foge há alguns anos consecutivos, assim como a plateia irá vibrar junto, mesmo sabendo de cor o resultado.

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E tal engajamento se dá graças ao formato transpirante com que é filmado, revalorizando os corpos do trabalho, o movimento em exercício. A direção trabalha predominantemente em plano médio estático, do nível do solo ao zenital, desde que preservando a intimidade pra deixar os corpos procurarem a câmera e não o contrário. Mas é nos planos detalhes e nos closes que “82 Minutos” mais ganha significados para o capital humano: no martelo trabalhando numa alegoria dos carros de desfile, ou nos dedos calejados com esparadrapo colando as lantejoulas em fantasias… Como outrora o cinema já explorou outros arquétipos sociais históricos, há de exemplo citar as Olimpíadas, trabalhadas ao esmero linguístico de corpos pela cineasta Lenny Riefenstahl no documentário “Olympia” de 1936/38. Sim, as Olimpíadas de Lenny se deram no meio de uma Alemanha Nazista, mesmo que a diretora tenha sabido como ninguém enquadrar a competição esportiva através de seu maior valor: as pessoas. Assim como agora, inversamente proporcional, Nelson mostra com seu “82 Minutos” que a democracia advém do valor do trabalho coletivo, e não foge até de fazer crônica social, ao mostrar, por exemplo, outros trabalhos de subsistência no resto do ano de alguns dos nomes envolvidos com o carnaval carioca (aspecto que até poderia ser mais explorado). Bem como o diretor não evita debates políticos espinhosos, como exibir as acusações de desvio de verbas públicas para as escolas de samba, tanto quanto também dá o direito de defesa.

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Mas não se engane, caro espectador, pois este não é um desfile filmado. Talvez isto decepcione os menos exigentes que, se desejassem apenas recuperar os melhores momentos de sua escola de samba favorita, poderiam apenas comprar o compacto da retrospectiva. A estirpe muito mais nobre para a alma aqui é traçar um raro fio condutor dos envolvidos por trás dos bastidores, que são mostrados muito naturalmente, sem necessidade de depoimentos para guiar a história. A escolha do samba-enredo pela comunidade e pelos fundadores da escola ou mesmo a coreografia da comissão de frente o fazem por si só. Vale destacar a participação do mestre-sala Alex Marcelino e da coreógrafa das passistas Nilce Fran, com suas energias pulsantes que magnetizam e impulsionam a narrativa… Com isto, Nelson Hoineff resgata o melhor espírito carnavalesco nacional onde tudo acaba em samba, desde a Era da Atlântida e Carmem Miranda, como no filme “A Voz do Carnaval” dirigido por Adhemar Gonzaga de 1935, ao mesmo espírito que existe na pantomima lúdica e mambembe do personagem Carlitos/Vagabundo de Charles Chaplin, dando dimensões muito mais sociopolíticas ao que se está por trás da grande festa.

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Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5