Obra

O conflito entre a miudeza do homem e a magnitude daquilo que ele é capaz de construir

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20 de agosto de 2015

Em um plano bem específico do início de “Obra”, primeiro longa-metragem de Gregorio Graziosi, o arquiteto interpretado por Irandhir Santos põe-se diante da filmagem, projetada na parede, da demolição de um edifício. O efeito da fusão, a imagem da desintegração passa a ser projetada em seu próprio corpo, não é apenas esteticamente rico, mas também bastante sugestivo: o personagem principal se verá diante da iminência da própria ruína. Filme selecionado para representar o Brasil no Festival de Toronto desse ano, “Obra” acompanha a queda do arquiteto João Carlos. Envolvido na realização de um grande projeto, uma sombria novidade intensifica seus tormentos ― um cemitério clandestino foi encontrado no terreno em obras, uma propriedade herdada de seu avô.

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Enquanto seu projeto arquitetônico não sai do papel, o personagem enfrenta a evolução de uma falha em sua própria estrutura física, uma doença na coluna. Em confronto com o processo de questionamento da integridade de sua ascendência, consequência da descoberta do cemitério pelo mestre de obras (Julio Andrade), está a espera de João Carlos pelo nascimento do primeiro filho. Como ele pode ser um pai seguro se tem a sensação de que não conhece a si mesmo? Lola Peploe, afilhada de Bernardo Bertolucci, interpreta a mulher de João Carlos.

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A relação entre espaço e personagem explorada pelo cineasta estreante denota uma habilidade admirável de pensar cinema, de organizar milimetricamente os elementos no interior do quadro. Nada está ali por acaso. A atuação de Irandhir Santos é precisa como os cálculos de um arquiteto. No filme, o corpo do ator, não raro filmado imóvel ou com pouco movimento, é principal elemento do conflito entre a miudeza do homem e a magnitude daquilo que ele é capaz de construir. Ambientado na cidade de São Paulo valorizada pela impecável fotografia em preto e branco, marca visual do gênero noir com o qual o filme dialoga, “Obra” oferece um panorama de nosso habitat urbano em perspectiva quase futurista ― uma cidade de concreto com aspecto desumanizado. Portanto, não é à toa que João Carlos, mesmo abalado física e emocionalmente até que só restem escombros, pareça tão frio aos olhos espectador. Por mais pessimista que o discurso possa soar, a possibilidade de se reerguer está presente e tem relação com o próprio título “Obra” ― a obra-prima do cotidiano que consiste na vida gerada no ventre da mãe. Uma mensagem bem humana transmitida por um filme com coração de pedra.

Festival do Rio 2014 – Mostra Première Brasil em Competição

Obra

Brasil, 2014; 80 minutos

Direção: Gregorio Graziosi

Com: Irandhir Santos, Julio Andrade e Lola Peploe


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