A 13ª Emenda

Representatividade importa

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26 de dezembro de 2016

Sim, eu sou crítico de cinema. Sim, sou advogado também. Sou branco, homem, cis, e por causa de tudo isso me encaixo em certos privilégios sociais herdados de milênios e séculos.
O que isso poderia acarretar? Que eu reproduzisse padrões a mim impostos socialmente e, portanto, legitimasse a cultura que os perpetua. E isto possivelmente inibiria o aparecimento do novo para mim e para aqueles que me cercam. O próprio conceito de novo é relativo, pois o que é novo para mim pode não ser para terceiros, só porque eu posso ter começado a enxergar algo que todos já enxergavam há muito tempo, ou vice versa.
Desde a faculdade de Direito eu reivindicava direitos que algumas pessoas se sentiam ofendidas de serem reivindicados. Lembremo-nos de que Direito também é matéria de Humanas, não de exatas, ok? Direito não é exata, não. Direitos de diversidade, de excluídos socialmente, de crianças para as quais a educação básica não chega, inválidos, sem-tetos, ou mesmo até condenados possuem direitos, sabiam?! Aí viriam os detratores de humanas dizer que quem defende “criminoso” quer ser roubado ou morto na rua. Mas o próprio conceito de criminoso é relativo. Quais foram as escolhas dadas? A educação que alimentou questionamentos e novos paradigmas para enfrentar as maiores adversidades? O mundo está super povoado, segregado e desigual, vide a Torre de Babel da Bíblia cinematográfica de Villeneuve em “A Chegada” que ele busca desde “Incêndios” e “O Homem Duplicado”. Só os privilegiados parecem aceitar relativizar os direitos do “criminoso” quando são seus filhos acusados de um crime. Ou sua mãe/pai. Ou um político… afinal, está na moda. Mas nenhum político preso, por pouquíssimo tempo, diga-se de passagem, sabe o que é ser discriminado só por sua imagem, por seu endereço, por sua classe, por sua cor. Novamente, por padrões histórico-milenares, reproduzidos tanto consciente quanto inconscientemente, e que só podem ser quebrados se abrirmos os olhos.
Mas o que tem a ver um crítico de cinema branco, cis, homem, etc, falar de discriminação? Tudo. Ainda mais em um meio como o audiovisual que ainda é o mais masculino, cis, branco, hétero, de elite dentre quase todos os outros meios profissionais do mundo. Principalmente se tocamos no assunto, viramos radioativos, apesar de ter sido agradável de se ler o texto até agora por ser bem escrito e com humor. O tema parece contaminar a arte. Cegar a arte de ser…arte. Mas ser arte é ser representativo. A arte também diz de onde vem, por quem é feita, e pode ser difícil de se enxergar ou ressignificar quando nossa bagagem histórica não nos deu embasamento para tal. Talvez por isso os filmes reflitam a cultura dominante mundial, talvez por isso as escolhas de filmes também reflitam isso, independente das propriedades técnicas inegáveis em comum que possam ter. “Selma – Uma Luta Pela Igualdade” (2014), sobre a incrível figura histórica de Martin Luther King Jr., por exemplo, foi um grande filme recentemente feito por uma realizadora mulher e negra, Ava Duvernay, indicado ao Oscar de melhor filme, mas não de direção, apesar de a cena da ponte ter sido uma das sequências mais difíceis e filmada à perfeição daquele ano.
É da mesma diretora que agora chega o filme indicado a todas as premiações “A 13ª Emenda”, documentário sobre tudo isso acima descrito. Sobre como as prisões americanas sofrem as maiores lotações do mundo e contém 25% de todas as pessoas presas no mundo. A Maioria negra. O documentário faz uma corajosa analogia do aprisionamento compulsório com um novo tipo de escravidão legitimada pela Lei. Seja contra pessoas inocentes, seja desproporcionalmente contra pessoas culpadas, seja contra pessoas que não tiveram acessibilidade ou educação ou simplesmente escolhas conscientes. Escolha todo mundo tem, mas é muito mais fácil dizer que se tem escolha quando nada ou pouco lhe faltou. Da mesma forma que não seriam todos os realizadores que se debruçariam com tanta propriedade quanto alguém com lugar de fala para tal. Huuummm, tema espinhoso para muitos, ‘lugar de fala’. Parece a mesma reação tida com a palavra ‘quotas’. Mas não devia ser um problema, apesar de que qualquer arma para o bem pode ser usada para excessos. Cabe a nós nos conscientizarmos. Um diretor branco, cis, homem, hétero de elite poderia fazer o mesmo documentário? Talvez até com outras características artísticas que seriam aceitas mais facilmente? Talvez. O que não seria uma coisa ruim. Se houver sido feita com direito de escolha. Escolha do meio não privar também quem tem lugar de fala e precisa alcançar tantas e tantas crianças que não possuem ainda, e que talvez não se inspirassem a mudar este mundo se não pudessem se ver no exemplo dado. As mesmas razões pelas quais alguns filmes nem ganham autorização para serem feitos, outros ficam guardados na gaveta, outros são vistos por poucos, mas são vistos e às vezes condenados sem nem sequer se avaliar as razões de sua existência, como “O Nascimento de Uma Nação” (2016) de Nate Parker. E alguns poucos passam a peneira para serem enxergados como “Moonlight” de Barry Jenkins, e outros raros passam mesmo sendo ultra independentes como o divino “The Fits” de Anna Rose Holmer. Feitos por pessoas fora do padrão estabelecido. Por mulheres, negros, orientais, indígenas, trans, lgbq, imigrantes, periféricos…e até, quem diria, por homens cis héteros. E podem inspirar nem que seja ao menos uma próxima Simone de Beauvoir, Mahatma Ghandi, Angela Davis ou Cartola…
E o filme de Ava Duvernay é perfeito? E quem disse que precisa ser perfeito para passar o recado? Amei a trilha sonora de filme de suspense B? Não, odiei, mas quantos documentários denunciativos não usam esta linguagem? Em compensação as canções de soul/hip hop que introduzem a narrativa capitular são maravilhosas. E o crítico consegue enxergar as qualidades artísticas para além da pungência do tema? Bem, depende, você, caro leitor, consegue entender as repercussões do que se está sendo escrito para além da escrita rebuscada? Não vamos subestimar a inteligência do leitor assim como não vamos subestimar a de quem lhe está escrevendo, senão ambos não se dariam ao trabalho.
Isto não é uma crítica. Críticas não são as únicas armas de um crítico, também advogado. Isto é uma consciência. Todos podem ter, usar, concordar, discordar, um pouco ou muito. Não é lindo? Quanto mais se falar, maior a chance de visibilidade para temas que merecem, pois representatividade importa.