A Bela e a Fera

Disney traz de volta toda a magia e encantamento da animação de 1991 e um pouco mais neste remake dirigido por Bill Condon

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16 de março de 2017

De uns anos para cá, a Disney decidiu apostar no lançamento de remakes de suas animações clássicas em live-action, sendo os primeiros contemplados “Cinderela” (2015) e “Mogli – O Menino Lobo” (2016) – e, ao que tudo indica, os próximos serão “Mulan”, “Aladdin”, “A Pequena Sereia” e “O Rei Leão”. Após muita divulgação e polêmicas, finalmente chega aos cinemas o tão aguardado longa-metragem “A Bela e a Fera”, a renovação de uma das animações do estúdio mais amadas até hoje e a primeira da história a ser indicada ao Oscar de Melhor Filme. O enredo já é velho conhecido de muita gente: Fera, um príncipe amaldiçoado por uma feiticeira, e Bela, uma jovem moradora de uma pequena aldeia francesa que troca de lugar com seu pai quando é capturado pela Fera, se apaixonam no castelo também amaldiçoado, onde objetos inanimados mágicos fazem de tudo para juntar o casal improvável e ajudar Fera a quebrar o feitiço antes que seja tarde demais.

Sob a direção de Bill Condon (“Dreamgirls – Em Busca de um Sonho” e “A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Partes 1 e 2”), o roteiro escrito por Stephen Chbosky (“As Vantagens de Ser Invisível”) e Evan Spiliotopoulos (“O Caçador e a Rainha do Gelo” e “Hércules”) traz uma trama bem fiel à animação de 1991, inclusive com algumas sequências iguais e músicas quase sem modificações. Muitos elementos, no entanto, diferenciam positivamente esta releitura do clássico, a começar pela inserção de quatro novos números musicais e de cenas inéditas da infância dos protagonistas, gerando um aumento considerável no tempo de exibição, o que com certeza exigiu muita criatividade e competência da equipe para que o resultado final fosse satisfatório – e foi.

Se Bela é considerada uma das princesas mais empoderada da Disney, sua intérprete Emma Watson, abertamente ativista da causa feminista, a fez ser ainda mais neste longa com suas sugestões à personagem: os espartilhos nos vestidos foram extintos, um bolso de utilidades foi incluído no primeiro figurino e ela se tornou inventora como seu pai, que não é tão agitado e desastrado como antes, isso sem mencionar que Bela recebe explicações constantes sobre a maldição que assola a todos no castelo, o que não acontece na animação, já que a Fera e os objetos a tratam como uma preciosidade ingênua. Além disso, a feiticeira que lançou a maldição na Fera e no castelo, esquecida na animação após sua breve aparição nos primeiros minutos, possui maior presença e importância em tela. E a representatividade não para por aí: há a inclusão de atores e atrizes negros e de personagens gays numa abordagem sutil, porém consistente, através das figuras de LeFou e de outro personagem secundário, o que causou a tal polêmica de que alguns cinemas aumentariam a censura do filme para 16 anos e outros sequer o exibiriam por ir contra seus valores tradicionais e retrógrados. Já Fera ganhou um divertido humor mais irônico.

Na curta via negativa de “Beauty and the Beast” (no original), os efeitos especiais de captação de movimentos utilizados para transformar o ator Dan Stevens (“Downtown Abbey”) em Fera estão muito artificiais até nos olhos, que costuma ser a única parte que permanece igual nesses casos. Há, ainda, a vila onde Bela vive com seu pai Maurice (Kevin Kline), que mais parece um cenário de peça teatral em vez de um cenário de filme, o que soa um pouco falso. O tão comentado auto-tune da voz de Watson cantando quando saiu o primeiro trailer é realmente um pouco exagerado, mas nada que estrague as cenas musicais. Por outro lado, os efeitos responsáveis por dar vida aos objetos mágicos do castelo estão surpreendentes, uma vez que se integram às cenas de forma bastante orgânica e parecem estar vivos de verdade, assim como o próprio castelo, principalmente devido à primorosa dublagem de grande elenco, com destaque para Ewan McGregor (perfeito como Lumière), Ian McKellen (excelente como Horloge) e Emma Thompson (ótima como Madame Samovar). Entretanto, quem realmente se destacou no meio deste elenco estelar – bem mais do que os apenas corretos protagonistas – foram Luke Evans (“O Hobbit: A Desolação de Smaug” e “Drácula – A História Nunca Contada”) e Josh Gad (“Pixels”) com seus respectivos Gaston e LeFou, que parecem ter sido feitos para aqueles papeis nos quais se encaixam tão perfeitamente.

“A Bela e a Fera” é um filme marcado pelo luxo e por uma Bela mais empoderada, que traz de volta toda a nostalgia para as gerações anteriores e a magia e o encantamento às novas gerações, que com certeza vai se cativar com este romance contextualizado para os dias atuais, porque representatividade importa. Apesar dos pequenos defeitos técnicos, tudo de melhor do clássico está lá (inclusive a belíssima e icônica cena do baile) e as novidades fazem toda a diferença, tornando a história ainda mais envolvente. Já estamos torcendo para abocanhar prêmios no Oscar.

 

A Bela e a Fera (Beauty and the Beast)

EUA / Reino Unido – 2017. 129 minutos.

Direção: Bill Condon

Com: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Hattie Morahan, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson, Gugu Mbatha-Raw, Audra McDonald e Stanley Tucci.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 4